Athlete interview:

Nawal El Moutawakel, Morocco

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Vice President of the International Olympic Committee

Vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional

Q

What was it like for you as a young girl and runner in Morocco?

Como foi para você ser uma jovem corredora no Marrocos?

 

I come from a family that was open-minded. My mother used to play volleyball and my father did judo. Both of them were educated and worked in a bank. And both wanted to provide an education to their children.

I had five brothers and sisters who ran track and field. Whatever they did, I did. If they climbed a wall, I climbed two walls. If they hit a ball, I hit a ball and I ran. I was never punished by my father for doing something that was only meant for boys.

I started running in the late ‘70s. One of my coaches said, “I believe you should reorient yourself into low hurdles.”

So I started collecting titles in Morocco and in Africa and the Arab world. In 1984, I was the only female athlete to represent Morocco in the Los Angeles Olympic Games. There wasn’t even a female doctor in the delegation and that struck me, so from that moment I said, “Things need to change.”

Venho de uma família de mente aberta. Minha mãe jogava vôlei e meu pai lutava judô. Ambos haviam estudado, trabalhavam em um banco e queriam dar aos seus filhos acesso à educação.

Meus cinco irmãos praticavam alguma modalidade relacionada ao atletismo. O que quer que fizessem, eu fazia. Se eles escalassem uma parede, eu escalava duas. Se chutassem uma bola, eu fazia o mesmo e saía correndo. Meu pai nunca me castigou por fazer algo que apenas meninos costumavam fazer.

Comecei a correr no final dos anos 70. Então, um de meus treinadores me orientou, dizendo que deveria pensar em corridas de obstáculos baixos. Foi o que fiz, e comecei a conquistar títulos no Marrocos, na África e no mundo árabe. Em 1984, eu era a única atleta mulher a representar o Marrocos nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Não havia sequer uma médica na delegação, e isso me chocou. Então, a partir daquele momento, eu disse: "As coisas precisam mudar".

Q

Why did you decide to get an education in the US, and why is education so important for young women athletes?

Por que você decidiu estudar nos Estados Unidos, e por que a educação é tão importante para mulheres atletas?

 

Well, I didn’t look for it. It came to me. As I used to compete with my team in Europe, we used to go to many cities during the summer.

There were lots of American coaches trying to find African athletes, and I met this guy who ran the 400 meter at Iowa State University. His name is Sunday Uti. He’s from Nigeria, and he asked me if I wanted to study in the US.

Then I started getting a lot of envelopes with proposals to come to study in the States, and as I could not read the English, I had my English professor back home look at them.

He opened the envelopes and said, “You should accept because these people are asking you to come and be educated in the United States.” So I signed with Iowa State University not knowing where I was going, because then we did not have the internet.

I knew it was in the Midwest, but did not know I had to carry a heavy coat with me because of the snow. He said, “Just go. You have accomplished everything you need to accomplish here in your country and within your continent. Now, you need to search for excellence somewhere else.”

Bem, eu não fui atrás da educação. Ela veio até mim. Como eu competia com meu time na Europa, costumávamos visitar muitas cidades durante o verão.

Havia muitos técnicos americanos tentando encontrar atletas africanos, e encontrei esse rapaz que corria os 400 metros na Universidade Estadual de Iowa. Seu nome era Sunday Uti. Era nigeriano, e me perguntou se eu queria estudar nos Estados Unidos.

Comecei a receber várias cartas com propostas para ir estudar nos Estados Unidos e, como não entendia inglês, pedi a meu professor de inglês no Marrocos que as lesse para mim.

Ele abriu os envelopes e disse: “Você deveria aceitar, pois essas pessoas estão pedindo para você estudar nos Estados Unidos.” Então me matriculei na Universidade Estadual de Iowa sem saber para onde estava indo, já que não tínhamos Internet na época.

Sabia que ficava no meio-oeste americano, mas não sabia que eu teria de levar um casaco pesado por causa da neve. Ele disse, “Não perca tempo. Você já conquistou tudo o que tinha para conquistar aqui em seu país e no seu continente. Agora, você precisa buscar a excelência em outro lugar”.

Q

How did your family feel about that?

Como sua família se sentiu em relação a isso?

 

I was so worried that my father would say no, which he did. He said, “I’m so used to my daughter. I want her to stay next to me. The States are too far.” So I had my English professor talk to him and my mother.

He said, “You know where she’s going is good for her future, good for her education and her athletic career.” Somehow my father accepted.

Eu estava muito preocupada, pensando que meu pai diria não, o que de fato fez. Ele disse: “Estou tão acostumado com minha filha. Quero que ela fique perto de mim. Os Estados Unidos são longe demais.” Então pedi ao meu professor de inglês que conversasse com meus pais.

Ele disse: "Vocês sabem que o lugar para onde ela está indo será bom para o futuro dela, para a sua educação e carreira atlética.” E... meu pai acabou aceitando.

Q

What kind of influence did winning the gold medal at the 1984 Olympics Games in Los Angeles have, not just in Morocco, but all over Africa and the Muslim world?

Que tipo de influência teve a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, não só no Marrocos, mas sobre toda a África e o mundo muçulmano?

 

We had to wait more than 80 years for an Arab and Muslim woman to win a gold medal. Lots of women started believing in themselves, saying, “If she did, we can.”

I think it opened up wide horizons to so many of them.

In 1984, I was the only one competing in a large delegation of men. Today, our Moroccan delegation includes women in swimming, gymnastics, judo, track and field, taekwondo, cycling, even boxing, you name it. I am so proud to have participated in enlarging the participation of women in physical education and sports in our country and other countries, in Arab states and in Africa. To me, the 400 hurdles was the school of life. It teaches you so many things: discipline, courage, determination and the value of passion.

Tivemos que esperar mais de oitenta anos para uma mulher árabe e muçulmana ganhar uma medalha de ouro. Muitas mulheres começaram a ter mais fé em si mesmas, dizendo: "Se ela conseguiu, nós também podemos."

Foi uma situação que abriu novos horizontes para muitas delas.

Em 1984, eu era a única competindo em uma ampla delegação de homens. Hoje, nossa delegação marroquina inclui mulheres na natação, ginástica, judô, atletismo, tae-kwon-do, ciclismo e até mesmo boxe – o esporte que você imaginar.

Tenho muito orgulho por ter contribuído com a expansão da presença feminina na educação física e nos esportes em nosso país, como também em outras nações árabes e no continente africano. Para mim, os 400 metros de corrida de obstáculos foi a escola da minha vida, porque ensinou muitas coisas: disciplina, coragem, determinação e o valor da paixão.

Q

Do you feel that elite athletes should continue their education while still participating in sport?

Você acha que atletas de elite devem continuar seus estudos enquanto se dedicam ao esporte?

 

It’s important because it gives you self-confidence. It gives you freedom. You become somebody who can take the lead, somebody who can think, somebody who can decide. It empowers you.

Being educated is something important, period. It’s going to help you be a better person tomorrow than what you are today.

It can help you make the right choices in your life, and choose the right path. Sports are very powerful, but education gives you a sense of purpose. If you’re educated, you can give direction to your life and to your career, whether in business, family, or anything you choose to do in your life.

É importante, pois te dá autoconfiança. Te dá liberdade. Você se torna alguém capaz de assumir a liderança, capaz de pensar e decidir. Te dá força.

Ter acesso à educação é uma coisa importante, porque te ajudará a tornar-se uma pessoa melhor, a tomar as decisões certas na vida e a escolher o caminho correto. Não tenho dúvidas de que o esporte é uma força muito poderosa – mas, de outro lado, a educação te dá uma razão de ser. Se você tem educação, pode dar um direcionamento à sua vida e sua carreira, seja nos negócios, família, ou no que escolher fazer em sua vida.

Q

When you retired, you knew you wanted to help other women, but were there other career options for you?

Quando você se aposentou, sabia que queria ajudar outras mulheres. Mas, havia outras opções de carreira para você?

 

When I looked around at all those millions of young boys and girls who do not have equal chances to have equal access to sports infrastructure, equipment, or financial support from the government, I knew something had to be done.

I either had to go into politics or enter this world of men where women are systematically excluded, so I started learning. I started imposing myself and going to general assemblies of my club, of my national federation and so forth. Most of the time, I was the only female again.

Then I learned from the others, like Donna de Varona and Anita DeFrantz. It was very important for to me to build a network, important to be empowered in a different way.

It was important for me to bring back home suitcases full of books and ideas to share. I needed to be surrounded by women coaches, women sports leaders, women journalists, women doctors and women physiotherapists.

Then I began speaking, which was good therapy. I started building a network and learning from Anita, learning from Donna, learning from Title IX and learning from my experience back at Iowa State. I started building around me a group of women who were supporting all my ideas to lead and build other programs to empower young women in excluded areas.

Quando olhei para aqueles milhares de jovens meninos e meninas que não tinham as mesmas chances de um acesso igualitário à infraestrutura esportiva, equipamentos, ou algum tipo de apoio financeiro do governo, sabia que alguma coisa tinha de ser feita.

Ou entraria para a política ou entraria nesse mundo de homens em que a mulher é excluída sistematicamente. Por isso, comecei a aprender a me impor e a comparecer a assembleias gerais de meu clube, de minha federação nacional e assim por diante. Na maior parte do tempo, mais uma vez, eu era a única mulher.

Então aprendi com os outros, como Donna de Varona e Anita DeFrantz. Foi muito importante para mim construir uma rede de relacionamentos, ser capacitada de uma forma diferente.

Também era importante trazer para casa malas cheias de livros e de ideias para compartilhar. Eu precisava estar rodeada de treinadoras mulheres, mulheres líderes no esporte, mulheres jornalistas, mulheres doutoras e mulheres fisioterapeutas.

Então comecei a construir relacionamentos e a aprender com Anita, Donna, o Título IX (Title IX, disposição prevista na legislação dos EUA sobre diretrizes educacionais) e, claro, com minha própria experiência no Estado de Iowa. Comecei a construir uma rede de amizades femininas que dava apoio a todas as minhas ideias de liderança e a elaborar outros programas para capacitar jovens mulheres de áreas excluídas.

Q

Can you give us an example of the incredible difference you’re making for women?

Você pode nos dar um exemplo da diferença incrível que você tem feito para as mulheres?

 

I had a dream to make an all-women run in Morocco. They don’t necessarily have to sprint. They don’t necessarily have to run, but they can jog or they can walk.

It was an idea that was accepted by some and rejected by many. The very first year, we had a few hundred women running with me.

The following year it was a few thousand. And 10 years later, it was 30,000 women.

In a Muslim country, in an Arab country and in an African country, I think that was a really strong message to send to the entire planet.

Eu sonhei em fazer uma corrida somente para mulheres no Marrocos. Não necessariamente elas teriam de correr em alta velocidade. Não precisariam nem correr. Poderiam ir com mais calma, ou mesmo caminhar.

Essa ideia foi aceita por alguns e rejeitada por muitos. No primeiro ano, tivemos algumas centenas de mulheres correndo comigo e, no ano seguinte, já eram milhares. Até que, uma década depois, a corrida já contabilizava 30.000 mulheres inscritas.

Como estávamos em um país muçulmano pertencente ao continente africano, acho que essa foi uma mensagem muito forte enviada para todo o planeta.

Q

What are your responsibilities in your current position as Vice President of the International Olympic Committee?

Quais são as suas responsabilidades como vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional?

 

Serving the Olympic movement is an honor. While my primary goal is to promote equal access to women in sports, I also work to fight against doping and illegal betting, and to help youth have access to sports.

I believe I have a strong role to play as a role model within my country and a role model within this organization where there is strong male domination. I’d like to continue in my capacity at the IOC to serve at my best until I retire.

Servir ao movimento Olímpico é uma honra. Enquanto meu primeiro objetivo é promover o acesso igualitário de mulheres nos esportes, também trabalho contra o doping, apostas ilegais e me empenho em ajudar a juventude a ter acesso à prática esportiva.

Acredito que tenho um forte papel a desempenhar como modelo a ser seguido em meu país e nesta organização, em que há forte predominância masculina. Gostaria de continuar atuando no Comitê Olímpico Internacional, dando o melhor de mim até o momento em que me aposentar.

Q

When you won that gold medal in 1984, how did your country and government respond?

Quando ganhou aquele ouro em 1984, como seu país e governo responderam?

 

There were hundreds and thousands little Nawals who were born on that day and named after me. There were also many improvements made at the government level towards female athletes.

For instance, during my time, there was no equal financial support given to boys and girls, whereas today, they are given the same treatment for every gold medal won by a girl or a boy. The same amount of money is given to both men and women, African and Arab, at the Olympic and World Championship levels.

This is a huge step that was made then and which is still respected. I’m so proud to have participated in that improvement. I’m so very happy that my 54-second race made a revolution in the system.

Havia centenas e milhares de pequenos Nawals que nasceram naquele dia e receberam meu nome. Houve também muitas melhorias feitas no âmbito governamental em relação a atletas mulheres.

Por exemplo, na minha época não havia apoio financeiro igualitário a meninos e meninas, enquanto hoje, vale o mesmo tratamento para quem ganhar uma medalha de ouro - seja menino ou menina. A mesma quantia de dinheiro é concedida tanto para homens como para mulheres - africanos e das nações árabes - em campeonatos mundiais e olímpicos.

Foi um grande passo dado na época e que ainda é respeitado. Tenho muito orgulho de ter participado deste progresso. Sou muitíssimo feliz pelo fato de minha corrida de 54 segundos ter provocado uma revolução no sistema.

The views of third parties set out in this publication are not necessarily the views of EY. Moreover, the views should be seen in the context of the time they were expressed.

As opiniões de terceiros emitidas nesta publicação não refletem necessariamente as opiniões da EY. Além disso, as opiniões devem ser vistas no contexto do período em que foram emitidas.

Nawal El Moutawakel, Morocco

Nawal El Moutawakel, Marrocos

Athlete interview:

Entrevista com a atleta: