Runner Tegla Loroupe, interviewed by the EY Women Athletes Business Network

Athlete interview:

Tegla Loroupe

  • Compartilhar

Global spokeswoman for peace, women’s rights and education

Porta-voz global para a paz, a educação e os direitos das mulheres

Q

What was life like as a little girl growing up in Kenya? Was it accepted in your culture to be a girl who wanted to run?

Como era a vida no Quênia quando você era criança? A sua cultura aceitava a ideia de meninas quererem correr?

 

I grew up in Kapenguria (a town located on the West Coast of Kenya near the Ugandan border) and lived in a community where not only was I forbidden to run, but I was forbidden to go to school. They see women as a commodity; their role is to give birth, stay home and take care of the family. Instead of attending school, I was expected to babysit, to help my mother and to help my aunt.

I used to admire my brothers, and I used to say, “I have two legs like my brothers. Why should my parents or my neighbors refuse women to do sports?” For me, I think I was lucky because my mother was there — she gave me advice and protected me as a young girl.

Cresci em Kapenguria (uma cidade localizada na Costa Oeste do Quênia, próxima à fronteira com Uganda) e morava numa comunidade onde, além de ser proibida de correr, não me permitiam ir à escola. Para eles, as mulheres são vistas como uma commodity, cujo papel é ter filhos, ficar em casa e cuidar da família. Em lugar de ir à escola, o esperado era que eu cuidasse de outras crianças, ajudasse a minha mãe e a minha tia.

Tinha admiração pelos meus irmãos e costumava dizer: “Também tenho duas pernas. Igualzinho aos meus irmãos. Por que os meus pais ou vizinhos deveriam ser contra a prática de esportes pelas mulheres?” Mas acho que dei sorte porque a minha mãe estava lá, me aconselhando e protegendo quando eu era criança.

Q

When did you become brave enough to challenge the system and the culture?

Quando foi que você criou coragem o suficiente para desafiar o sistema e essa cultura?

 

When I was six years old, I told my brother, “I think I have to go to school.” I asked my mother if I could go to school, and she told me, “Ask your father.” I knew there was no way that he would say yes.

The next morning, I left before breakfast and went to school. The day after that, I was able to convince three girlfriends to join me. It was difficult for my mother because it was her daughter who got everyone to disobey, but I want to say that the other three girls are very successful today.

Quando tinha seis anos, disse ao meu irmão: “Acho que tenho de ir à escola.” Perguntei à minha mãe se podia ir à escola, e ela me respondeu: “Pergunte ao seu pai.” Sabia que não haveria como ele dizer sim.

Na manhã seguinte, sai de casa antes do café da manhã e fui para a escola. No dia seguinte, consegui convencer três amigas a se juntarem a mim. Foi difícil para a minha mãe porque era sua filha que fez com que todo mundo desobedecesse, mas é importante mencionar que as outras três meninas são muito bem-sucedidas atualmente.

Q

What are you doing now that you have retired from running?

O que você está fazendo, agora que parou de correr?

 

I have a school for disadvantaged children whose lives have been shattered by tribal warfare. It is part of the Tegla Loroupe Peace Foundation. The foundation organizes peace events to bring the world community together.

We also work with governments to understand the root of the tribal conflicts and help to solve problems. We need people to put down their guns. I’m like a mediator.

Tenho uma escola para crianças carentes, cujas vidas foram destruídas por conflitos tribais. Ela faz parte da Tegla Loroupe Peace Foundation, que organiza eventos a fim de unir a comunidade internacional na promoção da paz.

Além disso, trabalhamos com governos, para entendermos as raízes dos conflitos tribais e ajudarmos na solução de problemas. Precisamos fazer com que as pessoas deponham suas armas. Nesse sentido, sou como uma mediadora.

Q

Is it a school for girls or a school for both boys and girls?

É uma escola só para meninas ou é mista?

 

It’s a school for everybody. It is for children but also for adults who never had the chance to go to school because they were too busy fighting. My advice to them is always that education is the only solution and there is no limit when it comes to education. Education can open your eyes.

Personally, with an education, I was able to see far, and you know — you can run, but if you don’t have education, how can you manage your life?

É uma escola para todos. É para crianças, mas também para adultos que nunca tiveram a chance de ir à escola por estarem muito ocupados lutando. Sempre digo a eles que a educação é a única solução e que não há limites quando se trata de aprender, pois a educação pode abrir os seus olhos. É esse o meu conselho para eles.

No plano pessoal, foi graças à educação que consegui enxergar longe. É claro que você pode correr mas... se não tiver educação, como vai administrar a sua vida?

Q

Why did you start the Tegla Loroupe Peace Foundation?

Por que você criou a Tegla Loroupe Peace Foundation?

 

I come from an area of conflict, people fighting with guns over resources. They fight over water, they fight over grass and they fight over animals. They are killing each other. In 1999, my sister-in-law lost a brother, and then in 1992, I lost my very close cousin.

The pain was hard, and I felt very alone. So even while I was running, I was searching for ways to help my people. I wanted to make change in my village and in my neighboring country, Uganda.

I thought about the violence happening in my region, and I thought that all of these criminals must not be bad people. I said, “OK, I think I have to do something between Uganda and Kenya because I have lost a lot of family.”

I wanted to bring people from Uganda and Kenya together. It had never happened before. So I came up with the idea of having a peace race for women. I asked my federation to help me, and they said, “No, your region is not a good place to go; the people are bad,” and they refused to help.

I went to Parliament next, and I spoke to almost 50 members of Parliament. Ultimately, they said they would support what I wanted to do.

Venho de uma região de conflito, na qual pessoas armadas lutam por recursos, matando-se por água, grama e animais. Em 1999, a minha cunhada perdeu um irmão, e, já em 1992, havia perdido uma prima muito próxima.

Foi muito doído, e me senti muito só. Por isso, mesmo enquanto estava correndo, procurava encontrar maneiras de ajudar o meu povo. Queria fazer mudanças na minha vila e no país vizinho ao meu, Uganda.

Pensava sobre a violência que estava acontecendo na minha região e achava que todos aqueles criminosos não podiam ser pessoas más. Então, disse a mim mesma: “Muito bem, acho que tenho de fazer alguma coisa em relação a Uganda e o Quênia, pois já perdi muitos parentes.”

Queria unir os povos de Uganda e do Quênia, algo que jamais havia acontecido. Por isso, tive a ideia de fazer uma corrida pela paz para mulheres. Pedi auxílio à minha federação, mas eles se recusaram a ajudar e disseram: “Não. A sua região não é um lugar bom de ir. As pessoas lá são más.”

Depois disso, acabei indo ao Parlamento, onde falei para quase 50 parlamentares. E, finalmente, eles disseram que me apoiariam no que eu quisesse fazer.

Q

The first Tegla Loroupe Peace Race was held in 2003. What was your vision for the event?

A primeira Corrida pela Paz Tegla Loroupe foi organizada em 2003. Qual era a sua visão para o evento?

 

I wanted to tell the rebels, the youth that carried guns, “No, you are not bad people. Come and join together.” Five hundred people came, and we housed them for three days.

It was difficult because people who once fought against each other were now sharing food together. It was very emotional because they joined hands and some put their guns down.

Queria dizer aos rebeldes, aos jovens armados: “Não, vocês não são pessoas más. Venham e juntem-se a nós.” Vieram quinhentas pessoas, e nós as recebemos por três dias.

Foi difícil porque pessoas que antes haviam lutado entre si agora estavam unidas, compartilhando a mesa. Foi muito tocante, pois elas se deram as mãos, e algumas delas depuseram suas armas.

Q

Your Peace Race happens twice a year. Can you share one story that makes you very proud?

A sua Corrida pela Paz acontece duas vezes ao ano. Você poderia contar alguma história que te deixou orgulhosa?

 

In 2006, I went to look for Matanda. He grew up as a rebel, like many others, because he saw his family killed. The Uganda Government was looking for him; the Kenya Government was looking for him. They had put money on his head. If the police had found him, they would have imprisoned him for 10 years or maybe have killed him, so he was hiding.

I sent a reformed warrior to speak with him because I knew he was not a bad person. I told him that I would make sure that the Government would protect him if he were to surrender.

Matanda said, “If Tegla is a truthful person, I will put down my gun and I will disarm others as well.” He came to the Peace Race, and today Matanda is a successful businessman and works with the Government.

Em 2006, procurei por Matanda. Como muitos outros, ele cresceu como um rebelde, pois viu sua família ser assassinada. Tanto o governo de Uganda quanto o do Quênia estavam em seu encalço, e havia uma recompensa por sua captura. Caso a polícia o encontrasse, ele seria preso por 10 anos ou talvez acabasse morto. Por isso, ele estava foragido.

Enviei um ex-combatente para falar com ele, pois sabia que ele não era uma má pessoa. Disse a ele que me certificaria de que o governo o protegeria caso ele se entregasse.

Matanda disse: “Se a Tegla for uma pessoa sincera, entregarei as minhas armas e desarmarei outras pessoas também.” Ele veio à Corrida pela Paz, e hoje é um homem de negócios bem-sucedido e trabalha com o governo.

Q

Did the Government thank you?

O governo lhe agradeceu?

 

I didn’t want to be thanked, but I wanted the Government to appreciate the people who had the courage to come from the forests and put down their guns. I wanted the Government to protect them. If one person surrenders a gun and tells 200 others, then we are making progress.

Não estava interessada em agradecimentos, mas queria que o governo valorizasse as pessoas que tiveram a coragem de sair das florestas e depor suas armas. Queria que o governo as protegesse. Se uma pessoa entrega uma arma e fala com 200 outras pessoas, isso significa que estamos fazendo progresso.

Q

What kinds of things do you take from athletics that help you today?

Quais lições você trouxe do atletismo e que lhe ajudam atualmente?

 

I think courage, the courage to keep going. As an athlete, you learn to win and you learn to lose. I learned discipline and perseverance to work hard.

Acho que coragem. A coragem de persistir. Como atleta, você aprende a ganhar e a perder. Aprendi a ter disciplina e perseverança para trabalhar duro.

Q

What is the most important advice can you offer to athletes who are about to retire from sport?

Qual o conselho mais importante que você pode oferecer para atletas que estão prestes a se aposentar?

 

I use myself as an example. I always tell them that running is very short term, so if you make money from sponsors, use it to further your education because if you get injured, that’s it for you.

If you don’t know how to use the money you have, if you don’t know how to invest it properly, you’ll be cheated left and right. It’s important to seek advice and surround yourself with people you can trust.

Uso o meu caso como exemplo. Sempre digo a eles que correr é uma atividade de curtíssimo prazo. Por isso, se ganhar dinheiro de patrocinadores, use-o para melhorar a sua educação, pois, caso se lesione, isso pode significar o fim da carreira.

Se não souber como usar o dinheiro que tem, se não souber como investi-lo de modo adequado, você será enganado a torto e a direito. Por isso, é importante buscar aconselhamento e cercar-se de pessoas nas quais você confia.

Want to learn more about what elite athletes can do after sports? Join our network.

Quer saber mais sobre o que atletas de elite podem fazer depois do esporte? Junte-se à nossa rede

The views of third parties set out in this publication are not necessarily the views of EY. Moreover, the views should be seen in the context of the time they were expressed.

As opiniões de terceiros emitidas nesta publicação não refletem necessariamente as opiniões da EY. Além disso, as opiniões devem ser vistas no contexto do período em que foram emitidas.

Tegla Loroupe, Kenya

Tegla Loroupe, Quênia

Athlete interview:

Entrevista com a atleta: