7 Minutos de leitura 27 set 2022
Reframe sua futura vista da montanha de seu escritório de vidro

Quando as divulgações climáticas começarão a ter impacto sobre a descarbonização?

Por Matthew Bell

EY Global Climate Change and Sustainability Services Leader

Climate change and sustainability leader. Engaging in purposeful change and creating long-term value for global organizations. Savvy in science and technology.

7 Minutos de leitura 27 set 2022

O quarto Global Climate Risk Barometer da EY revela que as empresas ainda não estão transformando as divulgações em ações concretas.

Resumo
  • Embora mais empresas estejam divulgando informações sobre riscos climáticos, elas não estão fornecendo comentários significativos sobre os desafios que enfrentam.
  • A maioria das empresas pesquisadas (51%) ainda não está realizando a análise de cenários ou não está divulgando os resultados.
  • Apenas 29% das empresas pesquisadas estão referenciando assuntos relacionados ao clima em suas demonstrações financeiras, tanto qualitativa como quantitativamente. 

As empresas vêm investindo mais tempo na produção de divulgações relacionadas ao clima, que se baseiam cada vez mais nas recomendações da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD). No entanto, as suas divulgações ainda não estão se traduzindo em estratégias práticas para acelerar a descarbonização.Por que isso acontece? Esta é a questão explorada no quarto EY Global Climate Risk Barometer (pdf), uma análise abrangente sobre as divulgações feitas por mais de 1.500 empresas em 47 países.

Os insights fazem parte da EY CFO Imperative Series, que fornece respostas e recomendações críticas para ajudar os líderes financeiros a reformularem o futuro de suas organizações.

A cobertura e a qualidade estão aumentando, mas as lacunas permanecem

A pesquisa, que foi baseada em uma metodologia robusta, descobriu que dos relatórios corporativos analisados, a pontuação para a cobertura das recomendações do TCFD foi de 84%, um aumento significativo de 70% em relação a 2021. Embora a cobertura tenha tido alta pontuação, a pontuação média de qualidade foi de apenas 44%, um aumento mínimo em relação à pontuação do ano passado, que foi de 42%. A grande lacuna entre cobertura e qualidade sugere que, embora mais empresas estejam informando sobre riscos climáticos, elas não estão realmente fornecendo informações significativas sobre os desafios que enfrentam.

Curiosamente, um elemento da estrutura do TCFD que mostrou uma melhoria acentuada na qualidade das revelações neste ano foi a estratégia, com a pontuação média de qualidade da estratégia subindo de 38% em 2021 para 42%. Este resultado provavelmente reflete a conscientização das empresas sobre a mudança do cenário político e regulatório em torno da divulgação de informações. Por exemplo, os dois primeiros padrões propostos para divulgações de sustentabilidade do International Sustainability Standards Board (ISSB) apresentam estratégia como um componente importante.

Os líderes e "retardatários" variam muito em setores e regiões

A pesquisa destaca que certos mercados e setores, são claramente líderes quando se trata de relatórios climáticos, enquanto outros são notoriamente atrasados. De uma perspectiva de mercado, o Reino Unido lidera a lista tanto em termos de cobertura (99%) como de qualidade (62%). É seguido de perto pelo Japão, que tem uma pontuação de cobertura de 96% e uma pontuação de qualidade de 56%. Estas pontuações são indicativas das exigências de divulgação obrigatória destes mercados. O Oriente Médio apresenta o pior desempenho no Barômetro tanto em termos de cobertura de divulgação quanto de qualidade, refletindo sua estrutura regulatória menos madura para relatórios ESG.

Do ponto de vista do setor industrial não é surpresa que os setores com maior exposição ao risco de transição geralmente tenham uma pontuação mais alta para as suas divulgações. O setor de energia tem a maior pontuação de cobertura — 93% — e compartilha a maior pontuação de qualidade — 51% —com Insurance (Seguros). As empresas de Energia estão tentando responder às exigências dos seus investidores, que querem maior transparência sobre suas estratégias de descarbonização. "O setor energético deve ser visto como uma importante plataforma de transição de baixo carbono, alinhando-se às expectativas dos investidores e reguladores, bem como às expectativas dos mercados de forma mais ampla" observa Matt Handford, Diretor de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade, EY LLP.

O setor energético deve ser visto como uma importante plataforma de transição de baixo carbono, alinhada às expectativas dos investidores e reguladores, bem como às expectativas dos mercados de forma mais ampla.

O setor Agrícula, de Alimentos e Produtos Florestais fica atrás da maioria dos outros em termos de cobertura e qualidade de divulgação — o que é uma preocupação dada a sua alta vulnerabilidade aos efeitos da mudança climática. Este resultado sugere que o setor ainda está lutando com as questões sensíveis dos planos de transição e o impacto potencial dos riscos e das oportunidades relacionados ao clima em seus negócios.

O setor de serviços financeiros também está fortemente exposto ao risco climático. O aquecimento global acelerado pode levar a uma queda acentuada nos preços dos ativos, atingindo os balanços dos bancos e dos gestores de ativos e desestabilizando potencialmente todo o sistema financeiro. Além disso, o setor de seguros está sujeito aos riscos de perdas econômicas causadas por eventos climáticos extremos.

A gravidade dos riscos que enfrentam ajuda a explicar por que tanto as seguradoras quanto os proprietários e os gerentes de ativos financeiros registraram melhorias significativas ano a ano tanto na cobertura quanto na qualidade das suas divulgações relacionadas ao clima. Os gestores de ativos também percebem que ao dar um exemplo positivo, eles mesmos estão efetivamente pressionando as empresas nas quais investem para produzirem relatórios mais abrangentes sobre os riscos climáticos. "Oferecer melhores divulgações financeiras relacionadas ao clima é uma oportunidade para que os investidores 'dêem o exemplo' quando se trata de aumentar a qualidade dos relatórios climáticos", explica Emma Herd, Sócia de Sustentabilidade e Mudanças Climáticas na EY Oceania.

Fornecer melhores informações financeiras relacionadas ao clima é uma oportunidade para os investidores "entrarem na conversa" quando se trata de aumentar a qualidade dos relatórios climáticos.
Emma Herd
Sócia de Sustentabilidade e Mudanças Climáticas na EY Oceania

A atividade de análise de risco revela novas oportunidades

Quase metade (49%) das empresas pesquisadas no Barômetro deste ano revelaram que haviam realizado análise de cenários, um aumento significativo em relação aos 41% em 2021. Os cenários mais comuns mencionados foram o RCP 8.5 (um futuro com altas emissões) e o RCP 2.6 (um futuro de muito baixo risco), indicando que as empresas estão planejando quais seriam efetivamente o pior e o melhor cenário possíveis.

Três quartos (75%) das empresas pesquisadas haviam realizado análises de risco, com as empresas se concentrando quase igualmente nos riscos físicos e de transição. Quase dois terços (62%) das empresas haviam realizado análise de oportunidades, com "produtos e serviços" listados com maior frequência.

As empresas do setor energético são mais propensas a divulgarem suas estratégias de descarbonização do que as empresas de qualquer outro setor, refletindo o papel central da energia na transição para uma economia de baixo carbono. Mais de quatro quintos das empresas do setor de energia pesquisadas (81%) revelaram uma estratégia específica net-zero, plano de transição ou estratégia de descarbonização, em comparação com uma média de 61% entre os setores.  

As diretorias e equipes de gerenciamento sênior devem usar suas divulgações para informar seus stakeholders, particularmente seus investidores, sobre como eles estão entendendo e gerenciando seus riscos na prática.
Dr. Matthew Bell
Líder Global de Serviços de Mudança Climática e Sustentabilidade da EY

O impacto financeiro das revelações ainda está em seus primórdios

Enquanto as empresas estão melhorando a cobertura e a quantidade das suas divulgações climáticas, elas só estão fazendo progressos limitados na integração dos seus relatórios climáticos com as suas demonstrações financeiras. Essa descoberta-chave pode ajudar a explicar por que as revelações não parecem estar acelerando o processo de descarbonização: Sua relevância financeira não é clara. O Barômetro constatou que menos de um terço (29%) das empresas pesquisadas estão referenciando assuntos relacionados ao clima em suas demonstrações financeiras como aspectos tanto qualitativos quanto quantitativos. 

Há várias razões pelas quais as empresas podem estar relutantes em referenciar assuntos relacionados ao clima em suas demonstrações financeiras. Primeiro, as equipes financeiras podem não ter conhecimento para entender onde se situam os riscos climáticos no contexto das declarações. Em segundo lugar, há um certo descompasso nos horizontes temporais, uma vez que as demonstrações financeiras se referem a um horizonte de tempo relativamente curto, enquanto o risco climático é relevante para um horizonte de tempo muito mais longo. Finalmente, a incerteza e a variabilidade envolvidas nos cenários climáticos apresentam desafios quando se trata de incluir estes cenários nos modelos financeiros. Independente disso, as revelações oferecem um passo crítico adiante, observa o Dr. Matthew Bell, Líder de Serviços de Sustentabilidade e Mudanças Climáticas Global da EY. As diretorias e as equipes de gerenciamento sênior devem usar as suas divulgações para informar os seus stakeholders, particularmente os investidores, sobre como eles estão entendendo e gerenciando os seus riscos na prática.

Como os relatórios podem ajudar a acelerar a descarbonização

A prestação de contas é uma ajuda importante para o processo de descarbonização, pois permite que as empresas sejam responsabilizadas — por si mesmas e pelos outros. No entanto, ela não pode trazer a descarbonização por si só. A descarbonização depende, em última instância, da tomada de ações concretas e reais por parte das empresas, o que inclui:

  • Estabelecer metas significativas e acompanhar o progresso em relação a elas
  • Reavaliar a estratégia em uma base regular, utilizando análise de cenários para testar suposições de stress
  • Colaborar com parceiros para atingir metas ambiciosas de descarbonização
  • Explorar oportunidades para transformar carteiras de negócios e ao mesmo tempo reduzir emissões

Além disso, as empresas tem três maneiras específicas de usar os seus relatórios corporativos para apoiar as suas estratégias de descarbonização:

  1. Priorização da materialidade: Ao invés de tentar se concentrar em cada padrão e métrica, concentrar-se em contar uma história nítida e integrada sobre os riscos e as oportunidades financeiras que a mudança climática apresenta para o negócio.
  2. Divulgação de dados de referência contra "pares": Estude as divulgações de clientes, concorrentes e fornecedores para entender como eles estão respondendo às oportunidades e riscos apresentados pelas mudanças climáticas.
  3. Preparação para a implementação dos novos padrões da ISSB: garanta que a empresa tenha os processos e a governança adequados para responder aos níveis mais altos de exame que acompanharão a adoção internacional da linha de base global da ISSB de divulgação de informações sobre sustentabilidade.

Os esforços de descarbonização precisam ganhar tração

Atualmente, a divulgação do clima das empresas ainda não é tão abrangente quanto investidores, reguladores e outros stakeholders gostariam que fosse. Também não parece estar acelerando o processo de descarbonização.De fato, as emissões globais de dióxido de carbono relacionadas à energia aumentaram de 6% em 2021 para 36,3 bilhões de toneladas, o seu nível mais alto em todos os tempos, de acordo com a Agência Internacional de Energia.1

Para que as empresas possam atingir as suas ambiciosas metas de net-zero, elas precisam fechar o grande descompasso entre as divulgações que estão fazendo no âmbito do TCFD e as suas próprias jornadas de transformação. A divulgação dos riscos climáticos não deve ser um exercício de "box-ticking", mas uma base robusta para a transformação corporativa.

Resumo

As divulgações climáticas das empresas, com base nas recomendações do TCFD ainda não cobrem todas as informações que investidores, reguladores e outros stakeholders gostariam - e não estão em um nível suficientemente alto de qualidade. Além disso, elas não parecem estar acelerando o processo de descarbonização.

Se as organizações quiserem atingir as suas metas de net-zero, elas precisam tratar da maior desconexão entre as divulgações que estão fazendo e a sua transformação de descarbonização. 

Sobre este artigo

Por Matthew Bell

EY Global Climate Change and Sustainability Services Leader

Climate change and sustainability leader. Engaging in purposeful change and creating long-term value for global organizations. Savvy in science and technology.