4 minutos de leitura 26 ago 2020
Plataforma offshore de produção de petróleo

Como é que o segundo trimestre de 2020 aborda a questão dos preços historicamente baixos do petróleo e do gás

por Andy Brogan

EY Global Oil & Gas Leader

Oil & Gas sector leader, speaker and industry advocate, optimist, music addict and avid traveler.

4 minutos de leitura 26 ago 2020
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Os preços caíram na sequência da redução da procura relacionada com a pandemia e do excesso contínuo de oferta.

Resumidamente
  • A procura do petróleo caiu em 10 milhões de barris/dia entre o primeiro e segundo trimestres e os preços caíram abaixo dos 20 dólares USD/barril.
  • Com perdas garantidas, os analistas focaram-se nos custos e nos balancetes.
  • A diversificação em alternativas energéticas foi um tema-chave, à medida que a transição energética se aproxima.

Este artigo faz parte do conjunto das Tendências Trimestrais do sector do Petróleo & Gás.

O segundo trimestre de 2020 foi o primeiro trimestre completo desde o início da crise da COVID-19, tendo sido marcado por um declínio sem precedentes na procura e nos preços do petróleo e do gás. As oil majors/grandes empresas petrolíferas contabilizaram 65 mil milhões de dólares USD de prejuízos durante o segundo trimestre. A reavaliação dos activos foi responsável por mais de três quartos deste valor, à medida que as empresas começaram a lidar com as consequências a longo prazo da redução da procura e com a iminente transição energética causadas pela COVID-19. 

Entre o primeiro e o segundo trimestres, a procura do petróleo diminuiu em cerca de 10 milhões de barris por dia. Os preços do petróleo bruto desceram abaixo dos 20 dólares/barril em Abril, tendo depois subido de forma constante, resultando num preço médio do petróleo bruto de 29 dólares USD/barril para o trimestre. No entanto, este número ainda está muito abaixo da média de 48 dólares USD/barril do primeiro trimestre.

A redução da procura agravou as situações de excesso de oferta existentes nos mercados do gás, levando os preços para mínimos históricos. Durante o trimestre, o índice Henry Hub front-month futures, em média, valeu apenas US$1.70/MMBtu, o valor mais baixo dos últimos 25 anos. A refinação também foi extremamente afectada, uma vez que os valores de crack spreads nos EUA e na Europa caíram para quase 50% dos seus valores do ano anterior.

Balancete e perspectivas de gastos

Uma vez que as perdas eram um dado adquirido, os analistas concentraram-se em questões financeiras mais abrangentes, incluindo gastos e balancetes. As empresas relataram que os cortes nos gastos foram a ferramenta escolhida para gerir o fluxo de caixa, sendo que o número de plataformas de petróleo activas estão no nível mais baixo dos últimos 15 anos.

Procura de petróleo

10 milhões

perda da procura de barris por dia entre o primeiro e segundo trimestres de 2020.

Os analistas também examinaram as necessidades de capital a longo prazo para sustentar o negócio, tendo referido a preocupação de que os actuais níveis baixos de capex das empresas podem comprometer a realização dos seus objectivos de produção e de fluxos de caixa a médio prazo. 

Nestas análises, o ambiente macro e os cenários da procura foram os principais temas abordados. A redução dos valores contabilísticos dos activos baseou-seno pressuposto de que os preços do petróleo voltariam a níveis mais sustentáveis. No entanto, os analistas questionaram como é que as empresas iriam reagir se o petróleo continuasse a permanecer abaixo dos 40 dólares USD/barril a médio e a longo prazo.

Dividendos e imparidades

A recente crise provocou uma reavaliação das políticas de dividendos dos retalhistas em todo o sector e o assunto esteve novamente em destaque nas análises do segundo trimestre. Algumas empresas reformularam as políticas de dividendos para que estes pudessem acompanhar os preços do petróleo em vez de permanecerem fixos. Nesse sentido, os analistas quiseram compreender os factores que levaram a mudanças.

Tendo em conta os cortes nos dividendos efectuados por várias empresas, os analistas mostraram-se cépticos quanto aos pagamentos que seriam efectuados a médio prazo e se as empresas poderiam regressar a um caminho de distribuição progressiva de dividendos. Ironicamente, foi pedido às empresas que têm sido capazes de sustentar dividendos elevados que os defendam, dadas as actuais condições do mercado.

Em relação às imparidades, os analistas estavam curiosos em conhecer a percentagem das imparidades totais que não foram desencadeadas pela COVID-19, bem como a razão pela qual as empresas esperaram até agora para as reconhecer. 

Preocupações estratégicas

Na frente estratégica, dominaram as questões relacionadas com a remodelação de portfólios. A obtenção de uma alta classificação dos portfólios estava no topo das prioridades, logo seguida pelo desinvestimento em activos e pela forma de alcançar uma combinação de activos adequada ao futuro.

A diversificação para as energias alternativas e os retornos desses negócios continuam a ser áreas de foco para os analistas. Pela primeira vez, os analistas colocaram várias questões relativas a planos de projectos de hidrogénio e qual o papel que se espera que este desempenhe nos portfólios das empresas a médio e longo prazo.

Ninguém sabe durante quanto tempo é que a procura do petróleo e do gás será afectada pela pandemia. E quando descobrirmos, a transição energética poderá já estar a decorrer a grande velocidade.

Além disso, os analistas estavam curiosos sobre a potencial concorrência entre o hidrogénio, o gás natural e o gás natural liquefeito. Os analistas pediram uma projecção sobre a consolidação das operações com baixo teor de carbono, as quais poderiam permitir às empresas dar maior visibilidade em torno da força e da importância desse negócio. 

As empresas foram questionadas sobre as suas perspectivas actuais relativas a M&A e se existiam quaisquer lacunas nos seus portfólios que estivessem dispostas a preencher com transacções. Foi perguntado às empresas recentemente activas no mercado de M&A como é que os activos adquiridos se relacionavam com os seus portfólios globais e quais as razões para escolherem determinados activos.

Em termos operacionais, o interesse dos analistas centrava-se no impacto dos cortes prolongados das despesas de capital na produção. Os analistas queriam compreender as prioridades em torno das decisões finais de investimento e a capacidade de sustentar a produção a médio prazo.

Por último, os analistas questionaram em relação a quaisquer questões que as empresas estivessem a enfrentar nos projectos em curso, a sua abordagem em relação à remobilização da sua força de trabalho e qual o risco persistente de atrasos em projectos.

Gráfico das tendências do segundo trimestre

Olhando para o futuro

Ninguém sabe durante quanto tempo é que a procura do petróleo e do gás será afectada pela pandemia. E quando descobrirmos, a transição energética poderá já estar a decorrer a grande velocidade. As empresas continuam a procurar um equilíbrio entre efectuar injecções de capital nos seus negócios core, de forma a mantê-los vivos ou em utilizar esse capital para financiar alternativas. Os analistas irão continuar a procurar informações detalhadas sobre o retorno desses investimentos e as respostas serão cada vez mais importantes para o sector em geral.

  • Âmbito, limitações e metodologia

    O objetivo desta análise é estudar os temas-chave decorrentes das questões colocadas pelos analistas durante a época de prestação de contas do segundo trimestre de 2020 entre 12 companhias mundiais de petróleo e gás. A identificação dos três temas principais baseia-se exclusivamente na análise das transcrições das reuniões de discussão de resultados financeiros da empresa. Para esta análise, foram incluídas as seguintes empresas:

    • BP plc
    • Chevron Corporation
    • ConocoPhillips
    • Eni SpA
    • Exxon Mobil Corporation
    • Husky Energy Inc
    • Repsol SA
    • Royal Dutch Shell plc
    • Equinor ASA
    • Suncor Energy Inc
    • TOTAL S.A.
    • Woodside Petroleum Ltd

Resumo

Num mercado tradicionalmente desafiante, as empresas petrolíferas e de gás estão a tentar manter as suas principais empresas a funcionar mesmo quando traçam um caminho alternativo.

Sobre este artigo

por Andy Brogan

EY Global Oil & Gas Leader

Oil & Gas sector leader, speaker and industry advocate, optimist, music addict and avid traveler.

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