Quando o digital está no chão de fábrica, porque razão é que o valor não está sempre debaixo da linha?

por

António Oliveira

Diversified Industrial Products Leader, Strategy and Transactions, Ernst & Young, S.A.

20 anos de experiência em consultoria financeira. Pai de dois filhos, tem como hobbies o squash, natação e música.

4 minutos de leitura 17 abr 2020

Um estudo que temos em curso sobre a digitalização na indústria transformadora confirma o que, em princípio, já se sabe... , mas avança também alguns resultados surpreendentes.

Grande parte dos negócios está a implementar projetos de transformação digital de um ou outro tipo. É uma caraterística chave dos negócios no século XXI. Algumas transformações são específicas e direcionadas; outras são mais abrangentes e incidem sobre todas as áreas de atuação das empresas. Mas existe um aspeto que permanece constante a todas as empresas na Era da Transformação Digital: o sucesso não é garantido. Milhares de milhões de dólares foram gastos sem promover qualquer tipo de criação de valor sustentável ou tornar as empresas mais capazes para lidar com as contínuas disrupções de hoje.

As equipas da EY querem saber o porquê. Por isso, lançamos um estudo sobre a reinvenção da Produção Avançada. E o que estamos a descobrir é ... complicado. Três coisas que aprendemos até agora que podem ser úteis.

Não existe apenas um caminho para o topo

Uma das abordagens para analisar os dados da inquirição é organizar as empresas com base no seu desempenho financeiro e, em seguida, posicioná-las em relação a vários comportamentos e características para ver que conclusões podemos tirar na comparação entre as empresas melhor sucedidas e as menos bem-sucedidas.

O estudo mostra que certas características estão correlacionadas com as empresas melhor sucedidas. Estas dedicam mais recursos a iniciativas de melhoria contínua. Possuem sistemas de informação e tecnologia integrados que dão suporte às operações diárias, realizam avaliações mais frequentes, possuem menores taxas de rotatividade e são melhores a alcançar e sustentar melhorias.

Era o que esperava ver, certo? No entanto, também encontramos empresas de primeira linha com pontuações baixas em características predominantes das empresas de segunda linha. Por exemplo:

  • Algumas empresas de primeira linha têm uma rotatividade de pessoal de produção entre 16%–20%, enquanto a taxa de rotatividade em empresas de segunda linha é inferior a 5%
  • Existem tanto empresas de primeira linha como de segunda linha que chegam ao intervalo de 51%–75% para alcançar e sustentar melhorias

Podemos, então, concluir que não existe uma solução única. A solução passa por encontrar formas de minimizar as falhas e alavancar seus pontos fortes, uma vez que cada empresa tem o seu caminho próprio para o sucesso.

O digital é a resposta ... a não ser que não seja

O digital torna a empresa média mais rápida, mais precisa, mais inovadora, mais ágil, mais eficiente e mais custo-efetiva. Nas operações de produção, o digital pode melhorar, de forma mensurável, a manutenção e a confiabilidade, a qualidade, as operações e a gestão de energia e outras utilities. Os benefícios potenciais são enormes e generalizados.

Mas o digital não é uma varinha mágica. Todas as empresas inquiridas num survey que realizamos recentemente estão envolvidas em algum tipo de iniciativa de transformação digital – mais de 78% colocam um ênfase alto ou muito alto na melhoria da produção. No entanto, existe um conjunto de empresas que atingiram menos de 25% dos seus objetivos de melhoria em cada um dos últimos três anos e um número semelhante que não conseguiu alcançar melhorias em cinco anos. E o avanço na digitalização mostra-se particularmente ineficaz no desempenho do seu potencial quando a principal pergunta que as empresas fazem é” Qual deve ser a nossa estratégia de digitalização da produção?” Em vez da pergunta real e essencial: “O que devemos fazer para melhorar e sustentar o desempenho da produção?"

A digitalização e a conexão de funções não transformam a sua empresa num líder industrial da noite para o dia. Existe a possibilidade de tal não acontecer, caso a empresa não disponha de um objetivo abrangente de melhoria assente em métricas facilmente quantificáveis, como a produtividade global dos equipamentos, a qualidade de base ou o tempo médio entre falhas. Primeiro, crie uma base estratégica para a transformação digital, customizada de acordo com as características e oportunidades únicas da sua empresa e com a dinâmica do mercado – só depois conhecerá qual a melhor estratégia de digitalização para si, sendo que tenderá a ser melhor sucedido durante o processo.

O "I" na sigla CIO (Chief Information Officer) deve descrever – melhoria.

Os CIOs são naturalmente focados em tecnologia. Todavia, a tecnologia é uma tática, não uma estratégia. Nos últimos anos, as empresas norte-americanas gastaram milhares de milhões de dólares por ano na transformação industrial. No entanto, o nosso estudo demonstra que quase 37% das empresas alcançaram menos de metade dos objetivos anuais de melhoria dos processos produtivos nos três últimos anos – e mais de 28% não conseguiu suportar os objetivos de melhoria que alcançaram.

Porém, não se trata apenas do que se deseja alterar – “vamos executar esta operação manual e implementar esta tecnologia de automação” – mas o que se deseja melhorar. Como tal, uma estratégia para alcançar este tipo de melhorias envolve muito mais que investimentos em tecnologia seguido pela sua integração no sistema. Uma estratégia sólida de reinvenção produtiva deve alinhar-se à estratégia de negócios, focar-se nas competências e habilidades da força de trabalho e abordar a cibersegurança, sendo estas as áreas onde os entrevistados destacaram oportunidades de melhoria. A estratégia deve orientar o negócio para melhorias e resultados e não, apenas, para a introdução e implementação de uma determinada tecnologia. É crucial concentrar a atenção no valor e nas oportunidades a ser desbloqueadas.

Faça o teste!

As inscrições para o Digital Manufacturing Survey ainda estão abertas. Os participantes recebem um documento de benchmarking com o seu posicionamento em relação aos resultados gerais. Por favor, entre em contacto com Mark Heidenreich caso tenha interesse em participar.

Resumo

O estudo da EY sobre a produção avançada – atualmente em curso – pode finalmente confirmar o que já sabe: o futuro pertence a quem está conectado digitalmente. As tecnologias emergentes permitem vantagens competitivas extraordinárias e a adoção de uma cultura empresarial ágil marcará o mundo empresarial nos próximos anos. Mas saber o que precisa de fazer não se traduz automaticamente em fazê-lo – ou fazê-lo com sucesso. Para extrair o máximo de valor, olhe para além da sua  lista de tarefas digitais: importa também incluir os aspetos mais analógicos da sua organização. Estes aspetos podem ajudar ou perturbar os seus projetos de digitalização. 

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António Oliveira

Diversified Industrial Products Leader, Strategy and Transactions, Ernst & Young, S.A.

20 anos de experiência em consultoria financeira. Pai de dois filhos, tem como hobbies o squash, natação e música.