Pode um relatório corporativo inovador criar confiança num mundo volátil?

A função financeira desempenha um papel fundamental para transmitir confiança aos investidores sobre os dados financeiros.

A confiança das organizações está a ser perturbada. Num mundo hiperconetado como o nosso, o impacto reputacional de escândalos como violações de dados e condutas antiéticas pode ser catastrófico. A confiança pode ser destruída para sempre se as organizações não corresponderem às novas expetativas do público em relação a um comportamento corporativo aceitável ou se aquelas não salvaguardarem os dados pessoais.

Contactámos mais de 1.000 CFOs ou controllers de grandes organizações para entender os desafios que enfrentam quanto ao relato financeiro. As nossas conclusões mostram que para gerir o risco e criar confiança, os líderes e o relato financeiro devem explorar duas áreas críticas:

1. A análise avançada de dados e as tecnologias integradas — ou “Finance 4.0” — podem ser a fonte de confiança de um grupo mais vasto de intervenientes internos e externos — tais como os conselhos de administração e as autoridades reguladoras — em torno da informação financeira e não financeira.

2. Repensar as abordagens tradicionais de controlo corporativo pode dar aos comités de auditoria e aos conselhos de administração as competências e os conhecimentos sofisticados de que necessitam para assegurar uma supervisão eficaz e assegurar compliance e controlo.

Um ambiente de relato incerto: os riscos tecnológicos, políticos e sociais estão a aumentar

Dois fatores importantes estão a mudar o relato corporativo e o governance. Em primeiro lugar, tecnologias inovadoras e análises sofisticadas estão a tornar-se fundamentais para gerir riscos e volatilidade crescentes, ajudando as organizações a cumprir requisitos de conformidade cada vez mais exigentes.

Em segundo lugar, à medida que o ambiente político e social muda, as regras e as normas das empresas — regulamentares, contabilísticas, protocolos legais e regimes éticos — estão a evoluir em resposta. 

Estas tendências afetam o relato corporativo em duas áreas: a forma como as demonstrações financeiras são preparadas e o nível de supervisão assegurado pelos comités de auditoria e pelos conselhos fiscais. 

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Preparação de demonstrações financeiras: tecnologia inovadora baseada em dados é essencial para governance e supervisão

A análise de dados e as novas tecnologias inovadoras — um elemento importante a que chamamos “Finance 4.0” — pode ajudar a função financeira a operar de forma diferente, agregar significativamente mais valor ao negócio e tornar-se o fornecedor de confiança a um grupo vasto de stakeholders em relação a informação não financeira.

Isto deve ser feito em tempo real, a um custo muito reduzido, com um controlo mais automatizado e menor risco. No entanto, os líderes financeiros enfrentam desafios significativos neste domínio: tem de haver uma abordagem eficaz à gestão de dados e há o desafio permanente da integração dos sistemas.

Ficar à frente

Normalmente, as equipas focam-se em duas áreas para ultrapassarem os obstáculos em matéria de inovação tecnológica e relato financeiro:

1. Colaboração com toda a organização

Com o benefício de uma compreensão mais ampla das complexas dependências entre os riscos e as iniciativas de gestão de risco de informação, uma abordagem integrada de governance da informação pode ajudar a resolver áreas complexas tais como:

  • Responder aos requisitos regulamentares. Requisitos rigorosos de compliance podem incluir normas internacionais, tais como leis da União Europeia ou regulamentos emitidos pela U.S. Securities and Exchange Commission (SEC).
  • Aumento dos fluxos globais de dados. À medida que o volume aumenta e se adquirem novos sistemas de informação, a informação pode mudar em todo o mundo. Enquanto isto acontece, as organizações tendem a perder o conhecimento e o controlo do local onde a informação é armazenada. Isto introduz riscos quando têm de aplicar políticas de retenção de registos, responder a pedidos de descoberta ou de regulamentação e determinar o compliance com os requisitos de privacidade. Se as empresas não conseguirem identificar os dados e eliminá-los de acordo com as políticas de retenção, esses dados poderão ser descobertos.
2. Gerir os desafios de compliance das novas tecnologias

A nossa pesquisa revela que 87% das organizações inquiridas planeiam aumentar o seu investimento em tecnologias de relato ao longo dos próximos dois anos. Contudo, mesmo com um forte compromisso de investimento, as organizações enfrentam obstáculos significativos na implementação de sistemas inovadores. Em particular, as preocupações relativas aos riscos de compliance na cloud são o principal obstáculo à inovação tecnológica no setor financeiro, afirmam os CFOs inquiridos.

Comités de auditoria e conselhos de supervisão: procura de novas competências e insights orientados por dados

Os requisitos de informação dos comités e conselhos de auditoria estão a mudar de duas formas: onde focam a sua atenção e as competências de que necessitam para uma supervisão eficaz, e a fora como executam a sua função de supervisão, exigindo informações mais regulares, em tempo real e relevantes para desempenharem o seu papel de forma eficaz.

O que fazem os comités de auditoria

O ambiente atual, volátil e em rápida mudança, está a tornar cada vez mais importantes áreas como o controlo interno, a compliance e a prevenção da fraude. Quando pedimos aos inquiridos que selecionassem as principais prioridades do seu comité de auditoria e do conselho de administração quanto ao seu papel de supervisão, constatámos que a implementação de novas normas contabilísticas é a principal prioridade para as empresas públicas. Para as empresas privadas, a principal prioridade é a prevenção da fraude. 

Os membros do conselho e do comité de auditoria enfrentam expetativas cada vez maiores por parte do público e dos media na gestão de riscos-chave. Com um foco crescente nos desafios tecnológicos e de dados, os líderes financeiros acreditam que os membros do comité de auditoria precisarão de novas competências para cumprir, de forma eficaz, as suas funções de supervisão. 

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Como as comissões de auditoria procedem à supervisão

O aumento do volume de dados e os avanços nas ferramentas e capacidades analíticas transformaram o modo como as organizações geram insights. No entanto, as organizações devem questionar se as informações que apresentam aos comités e conselhos de auditoria acompanharam esta evolução. Com insights mais sofisticados, as organizações podem melhorar a qualidade do debate e da tomada de decisões, transformando a eficácia da supervisão.

A nossa pesquisa mostra que algumas organizações — particularmente as maiores— estão a fazer progressos. Apenas 19% das pequenas organizações (receitas anuais de até US$1biliões) concordam plenamente que estão a fornecer aos seus conselhos de administração um painel de gestão que fornece uma visão próxima à real do desempenho e da emissão de relatórios. Mas isso aumenta para 35% para grandes organizações (receitas anuais de mais de US$10biliões). Em geral, um terço das grandes organizações está a fazer progressos no uso de análises sofisticadas para fornecer relato inteligente aos conselhos de administração.

Um caminho a seguir: uma nova abordagem de governance baseada em na análise de dados e em novas tecnologias

A confiança numa organização depende de uma série de razões, desde o tom das suas comunicações até à integridade pessoal da equipa de liderança.

Mas a adoção de uma abordagem diferente na elaboração de relato corporativo e na governance será provavelmente um fator cada vez mais importante. Trata-se de conseguir que as equipas de relato, que se baseiam em dados multidimensionais, usem avanços tecnológicos, para fornecer os insights que os stakeholders que têm responsabilidades de governance, tais como os membros do conselho de administração, necessitam para cumprir o seu papel. Os membros do Conselho de Administração irão obter dados sofisticados, orientados para o futuro, que os ajudem a cumprir a sua visão de supervisão.

As organizações que desejarem fornecer estes insights devem considerar a gestão de dados como um ativo estratégico, mudar a mentalidade financeira para abraçar a inovação tecnológica e desafiar as estruturas tradicionais de governance.

Resumo

As equipas de relato devem basear-se em dados multidimensionais e em avanços tecnológicos para fornecer os insights que os stakeholders precisam para cumprir as suas tarefas.

Sobre este artigo

por

Peter Wollmert

EY EMEIA Assurance Leader

Senior Assurance leader. Promoting quality and effectiveness in corporate reporting and the audit. Advocate for the future of the accounting profession. Passionate runner and scuba diver.