7 minutos de leitura 11 set 2019
Vista aérea de uma autoestrada com neve e carros

Porque é que os intervenientes dos transportes devem olhar para além dos limites da cidade

por

John Simlett

EY Global Future of Mobility Leader

All things mobility. Innovative thinker. Entrepreneurial mindset. Strategic partner and consultant for the auto and transport industries.

7 minutos de leitura 11 set 2019
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O combate ao congestionamento, acidentes e emissões parece estar a conduzir a revolução Mobility-as-a-Service (MaaS) à medida que a urbanização assume o controlo. Mas será que nos falta compreender algo mais?

De acordo um estudo da Reports and Data, o mercado de MaaS, em grande parte urbano, deverá atingir os US$ 372 mil milhões até 2026. No entanto, acreditamos que este foco corre o risco de se sobrepor a oportunidades mais amplas no cenário extraurbano, que inclui vias rurais e autoestradas.

As sociedades são construídas sobre o comércio, o que requer mover bens e pessoas para o lugar certo no momento certo. A produção e o envio de alimentos frescos e processados, materiais comerciais e de construção, bens de consumo, máquinas e equipamentos são as partes menos visíveis — mas igualmente importantes — do cenário geral.

Devemos pensar no problema holisticamente, em como a tecnologia inteligente poderá ser aplicada não só à forma como os seres humanos se deslocarão no futuro, mas também a tudo o resto: movement-as-a-service, não apenas a mobilidade.

Caso não abordemos o movimento de bens e pessoas de forma integrada, iremos limitar a nossa capacidade de lidar com os problemas de congestionamento urbano e qualidade do ar, mas também poderemos perder novas e substanciais oportunidades de negócio extraurbanos. Estas oportunidades irão utilizar muitas das mesmas tecnologias e plataformas que estão a ser desenvolvidas para contexto urbano, mas poderão começar a proporcionar retornos comerciais reais mais rapidamente do que iniciativas de smart cities, de maior visibilidade e mais difíceis de exercer.

Carga inteligente

Pode não ter o apelo futurista do consumidor a passar no centro da cidade num táxi autónomo, mas acreditamos que o frete rodoviário estará entre os primeiros mercados a ser alterados pela disrupção através de veículos autónomos e tecnologias inteligentes no geral.

Não é difícil imaginar um mundo onde a carga é enviada de forma autónoma, por estrada entre centros de distribuição extraurbanos, e depois dividida em cargas menores para uma variedade de opções de entrega last mile. Os exemplos podem eventualmente incluir drones e unidades autónomas mais pequenas, como as que os operadores de comércio eletrónico testaram, bem como versões autónomas, elétricas e robotizadas das multi-drop vans que os supermercados e os transportadores de encomendas utilizam atualmente.

O business case já é claro, e mover carga através de camiões entre cidades é um problema tecnológico mais fácil de resolver – testes de comboios semi-automáticos, onde um camião mestre com motorista humano está conectado a vários outros veículos seguidores também autónomos já estão a acontecer em vários locais.

As grandes autoestradas têm um ambiente mais controlado, o que é menos desafiador para as primeiras gerações de tecnologia de condução autónoma do que as ruas urbanas mais movimentadas. As faixas exclusivas para veículos autónomos em autoestradas estão muito mais próximas de se tornarem uma realidade prática do que os veículos que efetivamente se conduzem sozinhos, capazes de partilhar, com segurança, vias congestionadas do centro da cidade com motoristas humanos, ciclistas e peões. Da mesma forma, em ambientes georreferenciados como grandes áreas industriais, instalações fabris e aeroportos, os veículos autónomos já estão a dar provas de que podem maximizar o uso eficiente do espaço rodoviário existente e minimizar os custos.

Mas, para realmente colher todas as recompensas da carga inteligente, a própria carga — não apenas os veículos — precisará de ser autónoma. A tecnologia de identificação digital e os smart contracts alimentados por soluções de blockchain, como o OpsChain Tesseract, podem permitir que os contentores possam criar os seus próprios conhecimentos de embarque, por exemplo, reduzindo significativamente os custos e o atrito dos processos tradicionais em armazéns e além das fronteiras nacionais. 

Agricultura autónoma

A agricultura pode não ser considerada o setor mais tecnologicamente avançado, mas os urgentes desafios de custo e produtividade estão a levar a uma nova onda de inovação. Segundo estimativas da ONU, a população global atingirá 8,5 mil milhões até 2030 (pdf) e 815 milhões de pessoas já passam fome todos os dias.

Tal como os transportadores de mercadorias, os agricultores trabalham num ambiente naturalmente propício à tecnologia autónoma. Os campos são geralmente livres de tráfego e áreas seguras de operação podem ser prontamente cercadas. Estão a ser feitos testes de tratores autónomos e outras máquinas agrícolas em mercados tão diversos como o Sul da Califórnia e a Índia, e de acordo com o Market Study Report o mercado global de equipamentos agrícolas autónomos irá atingir os US$ 180 mil milhões até 2024.

O movimento é apenas um dos aspetos da agricultura inteligente — o verdadeiro objetivo é ter uma exploração agrícola totalmente baseada em tecnologia Internet of Things — mas acreditamos que os veículos autónomos serão a primeira peça do quebra-cabeças a ser adotada. Equipados com os sensores necessários, acabarão por se tornar vitais na rede de quintas do futuro. Para países onde a agricultura constitui uma parte significativa da economia, as oportunidades para a tecnologia de veículos inteligentes e conectados para melhorar a produtividade e reduzir os custos são substanciais.

Fazer uso mais eficiente dos recursos também ajudará a reduzir o impacto climático da agricultura. A Food Climate Research Network da Universidade de Oxford estima que a produção de alimentos é responsável por 20%–30% de todas as emissões de carbono geradas pela atividade humana. 

Novos modelos de propriedade

Tal como acontece com a MaaS urbana, aproveitar ao máximo a mudança para o movement-as-a-service em ambientes extraurbanos exigirá uma adaptação a novos modelos de propriedade. Mas esta mudança poderia ser mais rápida em aplicações B2B do que B2C, pois a propriedade partilhada pode abordar diretamente muitos dos pain points financeiros atualmente sentidos tanto pelos transportadores rodoviários quanto pelos agricultores, particularmente em relação à utilização de ativos. 

O transporte rodoviário de carga, os custos e os atrasos associados ao backhaul são um problema perene. O que fazer com um camião que entregou a sua carga, mas que agora está longe do próximo trabalho disponível? É uma escolha entre correr em vazio para fazer uma nova recolha, ou esperar que ela se materialize localmente; de qualquer forma, isso resulta numa utilização subaproveitada dos ativos.  

Da mesma forma, na agricultura, máquinas e equipamentos especializados que podem custar centenas de milhares de dólares podem ser utilizados apenas por um operador individual durante algumas semanas do ano, permanecendo paradas durante a maior parte do tempo. 

Em ambos os casos, a propriedade partilhada permitiria níveis de utilização muito mais elevados. Um camião partilhado usado por um operador poderia ser recolhido por outro operador; assim, não seria necessário esperar por um backhaul ou que o camião volte vazio. Os agricultores poderiam partilhar a propriedade de equipamentos e máquinas especializadas, reduzindo tanto a dimensão média das frotas necessárias quanto os custos de capital para as gerir.

Plataformas e mercados

Plataformas e mercados destinados a aplicações urbanas inteligentes poderiam funcionar igualmente bem para estas oportunidades alternativas e potencialmente proporcionar retorno sobre o investimento mais rapidamente. As identificações digitais podem ser anexadas a camiões e tratores tal como podem ser anexadas a táxis e carros. Os smart contracts capacitados para o blockchain podem ser aplicados à quilometragem de carga e à lavoura, tal como para uma viagem até ao aeroporto ou à estação ferroviária.

Se cada camião tiver uma identificação digital e for registado no blockchain, o transporte de mercadorias seria ponto-a-ponto em vez de ida e volta. Tal como as plataformas permitem reservar um carro para uma viagem só de ida, os novos mercados e plataformas B2B permitiriam reservas de carga só de ida.

Oportunidades e desafios do mercado

Num mercado de mobilidade fragmentado, os intervenientes podem lutar para proteger ou aumentar a sua margem. As soluções certas envolvem pensar além da automação dos veículos.

Tal como os fabricantes automóveis, os fabricantes de equipamento original de veículos comerciais e agrícolas (OEM) terão de se adaptar a um novo mundo baseado não em produtos, mas sim em serviços. Muitos dos desafios em torno de quem possui as frotas de veículos, quem é dono da relação com o cliente, e de onde virão as receitas futuras são comparáveis.

Mas também existirão oportunidades. As novas frotas de veículos terão de ser construídas, operadas e mantidas, e novos serviços terão de ser desenvolvidos. Serão necessários agregadores para o transporte de mercadorias e serviços agrícolas – sistemas de gestão de rota B2B de alta tecnologia e aplicativos de comparação que utilizarão blockchain e smart contracts para corresponder, criar e satisfazer as necessidades individuais dos clientes de forma barata, rápida e em escala.

Algumas destas oportunidades estão abertas a OEMs e fornecedores de nível 1 e 2, mas também estão preparadas para os novos participantes. Estas oportunidades estão abertas a todos — os vencedores e perdedores neste novo mundo do MaaS ainda estão por determinar.

Falta de investimento

Resumidamente, a oportunidade apresentada pela revolução dos transportes inteligentes é muito mais do que mover as pessoas de forma eficiente. Trata-se da movimentação de tudo o que precisa de ser movimentado — pessoas, cargas, equipamentos e mercadorias. Estas são oportunidades de negócios muito diferentes, mas interligadas a uma escala global substancial. Mas, de momento, apenas uma delas — as pessoas — está a ser tratada de forma adequada. Chegou a altura de deixar de falar sobre MaaS e começar a falar de movement-as-a-service.

Resumo

A oportunidade apresentada pela revolução do transporte inteligente é sobre o todo o tipo de movimento — pessoas, carga, equipamentos e mercadorias. A menos que o movimento das coisas e das pessoas seja abordado, as empresas não só limitarão a sua capacidade de resolver os problemas do congestionamento urbano e da qualidade do ar, como também perderão novas oportunidades de negócios extraurbanos. É altura de mudar o foco de mobility-as-a-service para o movement-as-a-service.  

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