5 minutos de leitura 9 abr 2020
Noite de chuva em Tóquio

De que forma podem as seguradoras entender, planear e preparar-se para a eliminação progressiva da IBOR

5 minutos de leitura 9 abr 2020

Para as seguradoras, o tempo poderia agora ser bem gasto – sem arrependimentos – quantificando o impacto da IBOR e identificando onde está o maior risco.

As taxas IBOR impactam biliões de dólares em instrumentos financeiros em todo o mundo. Embora o prazo para a eliminação progressiva da IBOR não esteja fixado, a IBOR poderá deixar de existir, tanto para os contratos antigos como para os novos, nos mercados de derivados e de dívida, até ao final de 2021.

Reconhecendo a dimensão da mudança, a transição da IBOR está agora em movimento em todo o setor financeiro. A questão parece ser mais urgente para alguns setores em específico. É natural, por exemplo, que as empresas do lado da compra permitam que entidades e instituições do lado da venda assumam a liderança – na clarificação de incertezas, no desenvolvimento de normas e na conceção de novos produtos.

Todavia, é importante que as seguradoras monitorizem os desenvolvimentos e se envolvam conforme necessário, estando preparadas para influenciar a agenda para evitar que fiquem em desvantagem concorrencial. O valor em risco é potencialmente elevado, pelo que as seguradoras têm de garantir que não acabam do lado errado de qualquer transferência de valor, particularmente em alterações na liquidez do mercado.

Compreender os impactos dos seguros

A transição da IBOR é claramente uma questão muito relevante para o setor bancário, e está a tornar-se um importante ponto da agenda dos Conselhos de Administração. A magnitude e a complexidade do desafio da transição da IBOR que as seguradoras enfrentam pode não ser tão grande, mas existem potenciais impactos a considerar. O valor está em risco do ponto de vista do ativo e passivo incluindo os contratos de derivados.

Por exemplo, embora as seguradoras sejam normalmente proprietárias de ativos de taxa fixa, há montantes crescentes de ativos a taxa variável, particularmente em formato de empréstimo ilíquido. Em termos de passivos, a maior incógnita é a futura taxa de desconto regulamentar aplicável – que poderá ter um impacto significativo nas avaliações do balanço e nas posições de solvência. Especialmente no caso das seguradoras do ramo vida com passivos antigos, uma pequena alteração da taxa de desconto poderá ter um impacto significativo na posição do capital. Em terceiro lugar, a maioria das seguradoras está exposta a um potencial impacto através dos extensos programas de derivados que mantêm para gerir o seu risco de taxa de juro e para fazer o match entre ativos e passivos.

À medida que as avaliações são afetadas, o mesmo acontece com as posições de capital regulamentar e com os modelos. Não são só os bancos que precisam de monitorizar estas situações, mas também as seguradoras. Os modelos podem ser afetados, não só pela migração da própria IBOR, mas também pela disponibilidade limitada de dados históricos sobre as novas taxas de referência alternativa (ARRs).

As seguradoras também precisam de compreender o impacto operacional da transição da IBOR. Talvez seja claro que, os contratos, os produtos e os investimentos que usam como referência a IBOR tenham que efetuar a transição. Qualquer contrato ou produto do tomador que dependa da IBOR como parte dos benefícios, ou onde exista dependência indireta, como por exemplo através de rolling up payments, benchmarks em fundos de terceiros ou contas correntes, terá de ser endereçado. Do ponto de vista do resseguro, os contratos terão de ser renegociados ou reestruturados se a IBOR for utilizada na mecânica dos acordos de garantia.

Uma resposta "sem arrependimentos"

No setor de seguros, a consciencialização do front office e do Conselho de Administração sobre as grandes implicações da transição da IBOR é forte ou crescente. O tempo poderia ser bem gasto - sem arrependimentos – ao analisar de forma pormenorizada as repercussões - identificando exatamente onde é que o valor de risco é mais elevado e quantificando o seu impacto. Esta avaliação do impacto financeiro pode expandir o que a transição da IBOR pode realmente significar para o setor segurador.

Ao ter uma visão mais ampla, um próximo passo útil será compreender a provável abordagem necessária para enfrentar o desafio da transição da IBOR e o tempo que ela pode levar. Isso inclui considerar as dependências envolvidas – os detalhes que precisarão de ser esclarecidos por outras partes, e quando é que isso poderá acontecer. Que detalhes do negócio terão de estar envolvidos? Qual é o prazo provável para resolver corretamente todos os problemas antes que o uso de novos ARRs se torne um padrão?

A transição da IBOR afeta as entidades seguradoras desde o front ao back office. O programa de transição da IBOR implicará o envolvimento de diferentes funções, incluindo front office, finanças, tesouraria, risco, TI e operações, governance e equipas jurídicas. Facilmente podem surgir obstáculos neste programa, uma vez que os recursos de TI e financeiros podem estar com elevada procura. A implementação do programa pode ainda não ser necessária, mas o desenvolvimento de um plano claro em termos de ações necessárias, por quem e quando, deve ajudar a evitar problemas e atrasos desnecessários. O ano de 2021 pode surgir confortável no futuro, mas os programas podem acabar por estar sob um prazo curto de tempo se não forem claramente mapeados e geridos adequadamente.

Uma maior perceção conseguida através dos dois passos anteriores – compreender o impacto e desenvolver um plano de ação claro – pode melhorar o entendimento de um terceiro passo potencial no período que antecede a transição da IBOR. As seguradoras e o setor segurador precisam de se manter ao corrente dos desenvolvimentos e considerar se em algum momento devem estabelecer a sua própria agenda – talvez para mitigar riscos emergentes ou capitalizar as oportunidades de negócios. Embora seja sensato que os bancos e as organizações do lado comprador assumam a liderança na transição da IBOR, uma maior compreensão das ramificações nos seguros pode inspirar um envolvimento proativo nos desenvolvimentos em fases futuras.

Interação com a IFRS 17

A migração da IBOR não é o único desafio das seguradoras. Para as empresas europeias, a implementação da nova norma contabilística IFRS 17 é uma prioridade atual muito maior do que a preparação para a transição da IBOR. Muitas seguradoras têm programas importantes em curso para assegurar a adoção adequada da IFRS 17, absorvendo recursos financeiros e atuariais substanciais.

Dado que estes programas estão em funcionamento, uma ação prioritária poderia consistir na compreensão da extensão de qualquer convergência entre a IFRS 17 e a transição da IBOR. Por exemplo, a valorização do balanço a mercado está no centro da IFRS 17 – este tem uma gama de impactos de balanço e de resultados semelhante à identificada na transição da IBOR, mas particularmente no passivo. Por isso, as seguradoras poderiam considerar de que forma é que os seus programas IFRS 17 e IBOR poderiam coexistir de forma produtiva. Podem ser obtidas sinergias úteis através de uma abordagem coordenada aos dois desafios da transição.

Os programas da IFRS 17 já estão ativos – ao passo que o planeamento de transição da IBOR ainda não foi geralmente iniciado. Esta é outra razão que justificaria o esforço investido para esclarecer o impacto da transição da IBOR e elaborar um plano de ação. Tais conclusões poderiam ser tidas em conta no trabalho da IFRS 17, ao ajudar a reduzir o risco de revisitar e repetir o trabalho em poucos anos, quando a necessidade de mudar para ARRs se tornar uma prioridade real.

Olhando para o futuro

Embora existam algumas oportunidades de criação de valor para as seguradoras, a transição da IBOR é mais uma questão de gestão da mudança. É importante que as seguradoras passem de hipóteses de alto nível para avaliações de impacto quantificadas e planos documentados para se prepararem e alcançarem uma transição suave para as novas ARRs.

Resumo

À medida que nos afastamos das taxas interbancárias (IBOR), as seguradoras podem, justificadamente, aguardar clarificação por parte das instituições do lado vendedor que parecem estar a assumir a liderança. Embora o prazo para a eliminação progressiva da IBOR não esteja fixado, é importante começar a compreender a dimensão do desafio – e começar a tomar medidas com uma resposta “sem arrependimentos”.

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