5 minutos de leitura 1 fev 2019
Mulher a utilizar um tablet juntamente com os seus dois filhos

Como manter a confiança no ecossistema digital dos bancos globais

À medida que a tecnologia transforma o ecossistema bancário, a confiança torna-se uma questão bidirecional.

Apenas 36% dos europeus confiam nos bancos, em comparação com 54% nas economias emergentes da Ásia-Pacífico. Dado que estas economias se caracterizam pelo ambiente regulatório menos maduro e com muitos indivíduos ainda sem banco, podemos concluir que a inovação na banca está em rápida expansão, construindo marcas com as quais os consumidores se identificam. 

Tijolos, cimento e património não vão ajudar: segundo a maioria dos consumidores, os serviços digitais são tão ou mais importantes do que as filiais físicas. Isto cria oportunidades para as FinTech inovadoras, bem como para os fornecedores de serviços globais e centrados no cliente – assim como desafios para os bancos tradicionais.

Os bancos precisam de agir rapidamente para mudar as perceções se quiserem manter a quota de mercado – e crescer. À medida que as manchetes sobre cibercriminalidade aumentam, os bancos terão de se concentrar não só em deter o fluxo de lavagem de dinheiro e corrupção, mas também em serem encarados como detentores confiáveis dos dados e do dinheiro dos seus clientes.

Homem sentado num sofá a trabalhar num computador portátil
(Chapter breaker)
1

Capítulo 1

Como os criminosos financeiros procuram explorar a banca sem atritos

A digitalização exige um tratamento de dados rápido e infalível, o que cria novos desafios relacionados com a criminalidade financeira.

Para os bancos, a questão da confiança tem dois sentidos: porque é que o seu banco deve confiar em si? 

Diariamente, 1,2 mil milhões de transações ocorrem no sistema bancário global, desde transferências e pagamentos até à abertura de novas contas e aprovações de empréstimos. Ou seja, são 1,2 mil milhões de oportunidades para cometer crimes financeiros, tais como a lavagem de dinheiro, o suborno, a fraude fiscal e o financiamento do terrorismo.

Crime financeiro

0.2%

dos 2-4 mil milhões de USD de fundos ilícitos em circulação é recuperado.

Mas a confiança é uma questão bidirecional, e os bancos estão-se a tornar cada vez mais inteligentes na promoção dos benefícios das suas salvaguardas para com os seus parceiros e clientes.

As práticas de Know Your Customer (KYC) são essenciais não só para que os bancos confiem nos seus clientes, mas também para construir confiança no ecossistema digital. A tecnologia digital está a ajudar os bancos a tornarem-se cada vez mais seguros, desde o passaporte digital a outras formas de verificação de identidade mais sofisticadas, tais como o reconhecimento de voz e imagem. 

Nenhum banco opera por conta própria. A colaboração com parceiros para partilhar dados através de Interfaces de Programação de Aplicações (API) abertas, e escrutiná-los em redes privadas virtuais, permite aos prestadores de serviços financeiros respeitar a regulamentação de privacidade e, em simultâneo, manter o dinheiro e os dados dos clientes seguros. 

Como resultado, os utilizadores podem transferir dinheiro entre eles através dos seus smartphones, enquanto que as pequenas e médias empresas (PME) podem obter financiamento sem o incómodo de agendar reuniões com os gestores bancários. 

No entanto, a tecnologia financeira é tão transformadora para os criminosos como para os consumidores e exige respostas rápidas. Os bancos digitais podem, por exemplo, ser vítimas de abuso por parte de criminosos que rapidamente são capazes de abrir múltiplas contas falsas e lavar dinheiro de origem ilícita em todo o mundo. A intervenção planeada no Reino Unido para fazer corresponder os nomes com o detalhe das contas no momento da transferência é uma das medidas de KYC que os bancos estão a pôr em prática para gerir este risco.

Apesar do aumento no orçamento dedicado à prevenção do crime financeiro, os níveis globais de fraude e corrupção não diminuíram nos últimos dois anos (pdf). Para os bancos, esta situação levou a níveis sem precedentes de multas dos governos do Brasil, Holanda, Reino Unido, EUA, Suíça e Suécia – na verdade, os bancos nórdicos com políticas de lavagem de dinheiro e crimes financeiros foram alvo de críticas por parte das autoridades suecas e britânicas que os levaram a unir-se no desenvolvimento de uma nova joint venture KYC, a Nordic KYC Utility.

Mas o real custo do crime financeiro e do crime cibernético é a perda de confiança do cliente; fortes práticas de KYC serão fundamentais para construir a confiança necessária na atividade bancária baseada em tecnologia.

Mulher a tirar uma fotografia com o telemóvel ao copo de café
(Chapter breaker)
2

Capítulo 2

Como é que a confiança nos procedimentos de KYC coloca os clientes no controlo

Divulgar a responsabilidade pela segurança pode ajudar a aliviar a pressão.

A democratização do acesso aos dados dos clientes através de open banking transformou o processo de KYC num serviço partilhado.

As plataformas descentralizadas estão a desempenhar um papel importante na monitorização das transações e na notação de risco. O KYC será fundamental para ajudar os bancos a gerir estes conjuntos de dados cada vez maiores de uma forma que cumpra a regulamentação, facilitando a partilha segura de dados com outras partes – mesmo concorrentes – de uma forma que proteja os clientes, beneficiando ao mesmo tempo todo o ecossistema. 

No entanto, a eficácia dos dados de KYC depende da sua precisão, pelo que a adesão do cliente é vital. 

O passaporte digital coloca as PME no controlo dos seus próprios dados e na gestão das permissões aos mesmos. As vantagens desta abordagem funcionam de ambas as formas e servem para criar confiança em todo o ecossistema.

Para as PME, manter as informações atualizadas na plataforma permite-lhes poupar em serviços administrativos e aceder mais rapidamente aos serviços. Para as instituições financeiras, o passaporte digital ajuda a fornecer dados precisos que podem permitir uma maior compreensão das necessidades dos clientes das PME. 

Numa perspetiva transversal do ecossistema, estes dados permitem que os bancos confiem nos seus clientes, alavancando numa colaboração inteligente que ajuda a evitar o crime cibernético. No entanto, no ecossistema bancário digital, é necessária uma maior uniformização para construir confiança à escala global.   

Mãos a arranjar a bancada de trabalho de tipografia
(Chapter breaker)
3

Capítulo 3

Porque é que o KYC precisa de uniformização

Uma abordagem homogénea aos procedimentos de KYC ajudará todos os intervenientes no ecossistema bancário a trabalharem em conjunto.

Um ecossistema bancário fragmentado corre o risco de criar complexidade em diferentes jurisdições. À medida que as novas tecnologias e as FinTech provocam disrupção no setor, os governos, as agências de segurança e os reguladores devem colaborar de forma próxima com a comunidade bancária e com empresas tecnológicas para definir estratégias que previnam a movimentação de dinheiro ilícito, porém, sem comprometer as expetativas dos clientes.

A uniformização dos procedimentos digitais de KYC permite alcançar um passo importante para uma partilha segura e colaborativa à escala global. O desenvolvimento de uma abordagem uniforme, à semelhança do passaporte digital, no que diz respeito aos dados que são necessários, bem como à forma como são recolhidos, validados e geridos entre instituições, assegura a confiança nos dados dos clientes partilhados em todo o ecossistema.

Para além de manter a confiança, os procedimentos de KYC podem trazer vantagens competitivas. A uniformização da tecnologia utilizada no processo de aceitação de novos clientes em termos de KYC e a continuidade do cumprimento das normas, constitui uma oportunidade para os bancos pouparem recursos significativos e rapidamente inovarem em novos mercados. O outsourcing de processos não competitivos permite aos bancos alocar recursos de forma mais estratégica.

Através da colaboração transversal no ecossistema, existe a oportunidade de se implementar tecnologia e práticas que podem reinventar os procedimentos de KYC para o mundo digital, criando confiança mútua – e bloqueando o caminho dos criminosos financeiros.

Resumo

À medida que os bancos aumentam a sua capacidade de fazer face ao desafio do crime financeiro, transformando as suas operações com salvaguardas tecnológicas, os seus parceiros e clientes procuram ser tranquilizados – tanto pela garantia de que as mais recentes salvaguardas estão implementadas, como as mesmas são adequadas ao propósito. A uniformização dos processos de KYC será um passo importante para uma partilha de dados segura e rentável para uma melhor segurança bancária.