5 minutos de leitura 9 jun 2020
EY co-workers checking the coal mine in Cargo container

Rethinking Sustainability: Condições de trabalho e licença social para operar

por

Manuel Mota

Partner, Assurance Services, Energy, Ernst & Young Audit & Associados – SROC, S.A.

Casado e pai de 4 crianças. Adora velejar.

5 minutos de leitura 9 jun 2020

A pandemia colocou às empresas perante novos desafios nas áreas da sustentabilidade e alterações climáticas. Segundo artigo da série "Rethinking Sustainability".

Oregresso ao trabalho, que se começou a ensaiar desde o início deste mês em Portugal, com a entrada na terceira fase do plano de desconfinamento, coloca às organizações um conjunto de desafios que determinarão no curto prazo a continuidade do negócio, mas também e mais importante, influenciarão a sua resiliência futura, em aspetos como a sua atratividade em termos de capital humano, a retenção de talento e, no limite, a sua licença social para operar.

Enquanto algumas organizações têm conseguido demonstrar a sua resiliência com sucesso, muitas outras terão que definir o seu "novo normal" e de que forma irão proteger os seus trabalhadores, fornecedores e clientes, de riscos relacionados com a COVID-19, ao mesmo tempo que tentam refazer e manter a sua atividade. Os líderes precisam de planear como retomar a sua atividade tendo em conta este "novo normal".

Cada local de trabalho deve ter já definido um plano de saúde e segurança no trabalho (SST) ou um quadro de ação que defina quais os perigos que estão a ser geridos e quais os procedimentos associados, para manter os trabalhadores em segurança. No entanto, é essencial desenvolver um plano de SST completo e abrangente que identifique claramente de que forma os trabalhadores e a comunidade serão protegidos num contexto de gestão e de recuperação da pandemia global. A Direção Geral de Saúde e a Autoridade para as Condições de Trabalho, publicaram orientações específicas relacionadas com o desenvolvimento de planos dirigidos para a fase de recuperação da COVID-19. A ausência de um plano robusto de regresso ao trabalho pode pôr em risco a licença para operar de uma organização, caso as entidades fiscalizadoras, reguladores ou a própria comunidade, considerem que a organização está a colocar os seus trabalhadores ou a comunidade em risco. Nos pontos seguintes abordaremos alguns aspetos que as organizações deverão ter em conta no regresso ao trabalho.

Com tanto foco nas questões da COVID-19, estarão outros riscos a ser negligenciados?

À medida que atravessamos a fase de recuperação da COVID-19, torna-se necessário garantir que os restantes riscos também estão a ser geridos de forma adequada. A tradicional abordagem à gestão do risco é bem familiar: identificar, avaliar e controlar, consultar e comunicar com os trabalhadores. Mas com a mudança de foco, dando prioridade à redução da transmissão da COVID-19, estaremos a deixar para trás outros riscos não tão óbvios? Não é difícil perder de vista outros riscos que tenham surgido ou aumentado durante esta pandemia. Alguns destes riscos incluem a fadiga, riscos associados a uma força de trabalho em contingência e todo o conjunto de riscos biopsicossociais. Neste momento, é crítico que as organizações revisitem os seus perfis de riscos SST de modo a garantir que estão a ser considerados não só os novos riscos e controlos associados à COVID-19, mas também que os já existentes sejam reavaliados quanto à possibilidade de terem sido impactados e que sejam considerados novos riscos.

Monitorizar a saúde dos trabalhadores

Uma questão crítica à manutenção da licença para operar será a promoção de condições de auto - monitorização de sintomas por parte dos trabalhadores. As organizações deverão implementar processos para gerir estes procedimentos, caso ainda não o tenham feito, por forma a garantir a segurança dos trabalhadores no local de trabalho e determinar de que forma a informação sensível é tratada, monitorizada e avaliada. As organizações deverão equacionar também o recurso a ferramentas digitais de rastreamento. A capacidade de rastrear a movimentação dos trabalhadores, dentro dos locais de trabalho, de forma segura e atualizada ao momento, será importante no evento do surgimento de um foco de infeção entre os trabalhadores.

A comunicação é chave

Assim que exista concordância num plano de SST para a recuperação, é essencial que todas as partes interessadas tenham esse conhecimento. Neste sentido, devem ser incluídos não só os trabalhadores próprios, mas também subcontratados, fornecedores, voluntários e clientes. A informação relevante deve ser comunicada de forma compreensível para todos, através de linguagem simples e clara, apoios visuais e traduções se necessário. Uma comunicação eficaz deve ainda explicar o "porquê" de as pessoas estarem a ser instruídas para determinada ação.

No que toca à gestão de riscos de SST, uma abordagem correta passa pela formação com acompanhamento. Agora, mais que nunca, no contexto da COVID-19, em que o conhecimento e as circunstâncias podem mudar de dia para dia, é importante garantir o acompanhamento das pessoas, revendo a adequabilidade e eficácia do plano de SST regularmente. Numa fase inicial, este acompanhamento poderá ter que ser feito diariamente ou semanalmente.

Concluindo, a gestão eficiente dos riscos e seus impactos, onde se incluem novos riscos e riscos emergentes associados à COVID-19, permanecerá um desafio durante os próximos tempos. É, assim, importante, que cada organização, tendo em conta as suas especificidades e contexto, se questione de forma regular se conseguiu proceder à identificação de todos os riscos associados à COVID-19, se os controlos implementados são adequados e eficientes e sobretudo procure manter uma elevada flexibilidade e adaptabilidade, revisitando o seu perfil de risco de forma regular e tendo em consideração as constantes mudanças ao nível dos requisitos de controlo da pandemia.

Artigo escrito em coautoria com Bernardo Rodrigues Augusto, EY Manager, Climate Change and Sustainability Services

Resumo

O regresso ao novo "normal" coloca às organizações desafios em matéria de saúde e segurança no trabalho que determinarão a sua resiliência futura e, no limite, a sua licença social para operar.

A ausência de um plano robusto de regresso ao trabalho pode pôr em risco a licença para operar de uma organização, caso as diversas partes interessadas, considerem que a organização está a colocar os seus trabalhadores ou a comunidade em risco. No segundo artigo da série “Rethinking Sustainability” abordaremos alguns aspetos que as organizações deverão ter em conta no regresso ao trabalho.

Sobre este artigo

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Manuel Mota

Partner, Assurance Services, Energy, Ernst & Young Audit & Associados – SROC, S.A.

Casado e pai de 4 crianças. Adora velejar.