3 minutos de leitura 24 set 2021
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E agora África?

por Bruno Dias

Consulting Leader, Ernst & Young, Lda.

Casado. Pai de três filhos e um apaixonado por África.

3 minutos de leitura 24 set 2021
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A economia de África está a evoluir numa era de mobilidade acentuada, em que a combinação de tecnologia, globalização e demografia tem o potencial de aumentar substancialmente a sua produtividade e permitir à sua economia saltar degraus na sua trajetória normal de crescimento.

O mundo mudou em Março de 2020. De forma muito rápida, a pandemia asfixiou sistemas de saúde até a um ponto de ruptura, causou um hiato na economia mundial e transformou radicalmente as normas de interacção social.

Aconteceu um reset global em que muitos de nós fomos compelidos a adoptar trabalho remoto, aprendizagem virtual e realizar compras online. O interessante é que, esta mudança, em muitas situações provou ser mais eficiente e sustentável … e meus caros, é muito provável que prevaleça e se torne sustentável no longo prazo.

À medida que a sociedade se adapta a este “novo normal”, vão emergir oportunidades de repensar e alterar o futuro. Para identificar o caminho correcto, as organizações terão de pôr em causa pressupostos sobre a experiência de clientes, as estratégias associadas à sua força de trabalho, quem é e será a concorrência e de onde virá o seu crescimento.

Algumas questões pairam agora sobre nós que aqui vivemos: E África? O que se passará em África? Será este contexto uma ameaça ou uma oportunidade?

Esta questões foram alvo de reflexão no nosso relatório “EY Megatrends 2020” e trago-vos algumas ideias ali partilhadas e algumas outras que gostaria de acrescentar.

Têm sido realizados grandes prognósticos sobre África nos últimos anos em média credíveis enunciando títulos como “Porque África pode prosperar como a Ásia” ou “África está a tornar-se a nova China ou Índia”, e fazem o apanágio do enorme potencial que tem este continente.

Até agora estes prognósticos têm-se revelado incorrectos, ou muito optimistas, mas acredito que podem estar a ser criadas agora condições, neste contexto, para um outro desfecho.

Mas porque será diferente desta vez? Porque a economia de África está a evoluir numa era de mobilidade acentuada, em que a combinação de tecnologia, globalização e demografia tem o potencial de aumentar substancialmente a sua produtividade e permitir à sua economia saltar degraus na sua trajetória normal de crescimento. Para as empresas, esta trajetória dita muitas oportunidades e também desafios.

Existe sem dúvida uma oportunidade para tirar partido de sinergias e da capacidade de 1.2. biliões de pessoas para desenvolver soluções inovadoras, não só para este continente, mas para o resto do mundo. As estratégias empresarias de sucesso passam por encontrar modelos de negócio sustentáveis para elevar o tecido empobrecido em África e torná-los em clientes com potencial de medio-longo prazo.

Na EY em Moçambique temos feito deste desígnio uma máxima e desenvolvemos em 2020 a génese de uma equipa de entrega de serviços nearshore de TI. Esta equipa prevê-se que cresça até a um mínimo dez elementos até ao final de 2021, e focar-se-á na entrega de serviços de cibersegurança, data & analytics, automação de processos e desenvolvimento de aplicações. Numa primeira instância estará focada nos mercados Português, Angolano e Moçambicano, mas o desígnio é mais alargado.

Neste momento os actuais cinco elementos desta equipa têm feito projectos em recorrência nestas três geografias e em todos os domínios técnicos mencionados, fundamentalmente de forma remota e … sim meus caros, com muito bons níveis de qualidade atestados quer pelos clientes, quer pelas equipas internas.

Este é um exemplo claro que os jovens Moçambicanos têm potencial de se afirmar além-fronteiras desde que com as devidas condições estruturais montadas e com um sentido de aposta na sua formação. Estamos a fazer crescer esta pirâmide desde a sua base, e estou certo de que, com o trabalho em equipas mistas de várias geografias, e com o devido acompanhamento, vão poder dar cartas neste mercado globalizado. Os últimos seis meses têm-no provado e este é um bom exemplo de como, no furacão da pandemia, surge uma oportunidade forte de trabalho de elevado valor acrescentado desde um País África no.

Enquanto esta confluência de factores sugere que a ascensão de África está, finalmente, a tornar-se eminente, não nos enganemos … os desafios são enormes. Apenas com governos estáveis, transparência e um ambiente amigável de negócios será possível atrair investimento directo estrangeiro e manter os financiamentos das multilaterais que serão chave para catalisar este desenvolvimento.

O continente tem recursos abundantes e uma população jovem e crescentemente educada que está desejosa de ultrapassar os níveis de pobreza actuais e de tornar África um actor de importância planetária.

O sucesso requer a compreensão e acção adequada dos governos que são clientes, parceiros e reguladores simultaneamente.

Uma última nota para dizer que, independentemente da evolução, convém não esquecer o papel de África em desígnios colectivos globais, como as alterações climáticas, a biodiversidade e a densidade populacional. Não nos podemos esquecer que África é chave no futuro deste Planeta.

Há que saber aproveitar este contexto como uma oportunidade para potenciar o crescimento económico e empresarial também de Moçambique. O poeta Espanhol António Machado dizia que “o caminho faz-se caminhando”. Há que fazer este caminho com resiliência. Querem juntar-se?

Resumo

Até 2050, África terá a maior força de trabalho jovem do mundo, facultando uma oportunidade de crescimento para as empresas com a visão de investir em África por forma a criar as capacidades necessárias para actuar a nível global.

Sobre este artigo

por Bruno Dias

Consulting Leader, Ernst & Young, Lda.

Casado. Pai de três filhos e um apaixonado por África.

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