4 minutos de leitura 17 jun 2019
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Porque o sucesso da IA na auditoria começa por fazer as perguntas certas

Mesmo na era digital, a confiança desenvolve-se através de comportamentos humanos e da responsabilidade do auditor em fazer as perguntas certas.

Muitos continuam a referir-se à inteligência artificial (IA) como a tecnologia do futuro, mas esta tornou-se rapidamente uma tecnologia do presente – seguramente no mundo profissional. Como tal, o ritmo da evolução tecnológica e da digitalização dos processos de negócio está a levar as equipas financeiras e de auditoria a adaptarem-se rápida e continuamente.

De acordo com o Barómetro de Crescimento da EY, 73% dos CEO inquiridos em empresas de dimensão média já estão a adotar IA, ou planeiam fazê-lo nos próximos dois anos. A conclusão revela uma grande diferença em relação aos dados apurados na mesma pesquisa, dois anos antes, quando 74% afirmavam não ter nenhum plano estratégico que envolvesse IA.

Para compreender melhor onde a IA nos pode conduzir no futuro, algumas perguntas complexas, sobre os riscos e as capacidades destas tecnologias disruptivas, ainda têm de ser feitas: Será que um computador alguma vez será capaz de "pensar" como um humano? Como vamos equilibrar os riscos e as oportunidades que estas tecnologias disruptivas proporcionam?

E como será redefinido o próprio conceito de trabalho, se as máquinas podem fazer quase tudo?

Estas são perguntas que os analistas de todas as indústrias estão a fazer – não são apenas questões para filósofos, sociólogos e economistas responderem, mas para todos nós resolvermos.

Para uma profissão como a contabilidade, o potencial da IA é excitante. O crescimento das ferramentas que permitem gerar, armazenar e processar com grande rapidez e precisão grandes volumes de dados (big data), mostram como a IA está a libertar os profissionais de auditoria para centrarem atenções em tarefas de maior valor acrescentado. Por exemplo:


  • Analítica avançada – Ao usar ferramentas de analítica avançada, potenciadas pela IA, os auditores podem analisar volumes maiores de dados, num período de tempo mais curto. Podem entender melhor o negócio, estar melhor preparados para identificar riscos, questionar de modo mais certeiro as conclusões que vão apurando e, tirando partido espírito crítico que profissionalmente os carateriza, desafiar resultados da forma mais adequada.
  • Automação inteligente – As tecnologia de automação de processos robóticos (RPA na sigla em inglês) posicionam-se como uma força de trabalho virtual controlada pelas equipas de operações e podem automatizar rapidamente as tarefas mais demoradas, repetitivas, padronizadas e baseadas em regras. À medida que amadurecerem, estas tecnologias de RPA terão condições para gerir e realizar tarefas mais complexas, permitindo o desenvolvimento de uma força de trabalho digital mais rica em conhecimento.

  • Imagine um futuro onde a informação chega em tempo real, com as ferramentas certas para ser processada e analisada continuamente. Isso daria aos auditores acesso ao quadro completo da atividade de uma empresa, com um registo de dados completo e meios para uma análise ainda mais aprofundada.

    Para continuar a discutir este tópico, tive o orgulho de me juntar recentemente a um impressionante painel de políticos, académicos e auditores para uma conferência organizada pela Ernst & Young et Associés e a Association of Chartered Certified Accountants (ACCA). O grupo não era de tecnólogos, mas sim de profissionais curiosos e entusiasmados com o futuro, que fizeram as perguntas-chave que nós, contabilistas, devemos abordar.

    A discussão foi menos focada nas tecnologias por trás da IA e mais orientada para a necessidade crucial de confiança. Oportunamente, tendo em conta os resultados da pesquisa CIO Agenda 2018 da Gartner, segundo a qual, até 2020, 85% dos projetos de IA vão produzir resultados enganadores devido a erros e ao enviesamento de dados, algoritmos ou equipas de desenvolvimento.

    Uma evolução sustentável e bem-sucedida da IA tem de ser feita mantendo presente que as pessoas são uma peça fundamental da equação. Não apenas por causa das soft skills que só os humanos têm, como sejam a criatividade ou a liderança, mas também pelo espírito crítico e pela capacidade humana de julgar, que vão ser necessárias para responder aos novos riscos inerentes à adoção de tecnologias emergentes.

    Assim, à medida que tiramos partido dessas tecnologias disruptivas, como profissionais, temos de fazer aquilo que fazemos melhor: continuar a questionar, analisar e avaliar dados, de todas as perspetivas. A automação pode aliviar-nos de muitas tarefas repetitivas, mas a confiança na era digital ainda assenta nas decisões humanas e a nossa responsabilidade de também continuar a fazer as perguntas básicas e fundamentais permanece inalterada:


  • Como equilibrar riscos e oportunidades das tecnologias disruptivas? Tirar partido das tecnologias disruptivas traz grandes oportunidades, mas como devemos gerir os novos riscos que também representam?
  • Que estratégia de inovação devemos adotar e quando? Como podemos rentabilizar o uso destas tecnologias – especialmente numa organização com capacidade limitada para investir? Como vamos acelerar a necessária gestão da mudança?
  • Como vamos adaptar o nosso modelo de talento a um novo ambiente? Que competências novas é preciso recrutar? Como formar adequadamente atuais e novos profissionais?
  • Como gerir stakeholders internos e externos? Como potenciar a tecnologia respeitando os limites da regulação existente? Como ajustar políticas e standards a estas novas oportunidades?

  • Combinando as diferentes forças que impactam a função de auditor e as oportunidades proporcionadas pelas tecnologias disruptivas, imagino um futuro para a auditoria onde a qualidade sai melhorada e onde equipas e processos vão tornar-se mais eficientes, graças a uma adoção mais abrangente de IA. E com a lente de verdade e justiça do auditor, as respostas a questões, tanto complexas como básicas, poderão ser melhor endereçadas e criar uma experiência mais rica para o cliente.


    Resumo

    À medida que tiramos partido de tecnologias disruptivas, temos de continuar a fazer o que fazemos melhor: questionar, analisar e avaliar os dados em todas as perspetivas. A confiança na era digital ainda tem por base decisões humanas e a nossa responsabilidade em fazer as perguntas básicas e fundamentais permanece inalterada.

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