A Soberania Tecnológica Europeia não se decreta. Constrói-se.

A soberania tecnológica europeia exige investimento, escala e execução. Portugal tem condições para desempenhar um papel estratégico.


Nos últimos anos, “Cloud Soberana” subiu na prioridade da agenda da transformação tecnológica das empresas e dos governos. Esse foi, em muitos casos, o ponto de entrada para uma discussão mais ampla. Hoje, porém, o tema já não pode ser limitado à cloud. A verdadeira questão é a soberania tecnológica europeia: a capacidade de desenvolver, operar, controlar e escalar componentes críticos da economia digital, da cloud à inteligência artificial, dos dados aos semicondutores, da cibersegurança à conectividade. Dados recentes ilustram esta dependência tecnológica europeia: os hyperscalers americanos controlam cerca de 70% do mercado europeu de cloud, a maioria dos dados ocidentais permanece alojada em infraestruturas dos EUA, a Europa representa apenas 7% do investimento global em Inteligência Artificial e produz apenas cerca de 10% dos semicondutores mundiais, onde Taiwan e China dominam o mercado.

A verdade é simples: conseguir-se uma posição de autonomia nos temas tecnológicos é sinonimo de conseguir ser dono do crescimento económico, da garantia da defesa do território e da evolução da sociedade europeia de uma forma geral. A tecnologia deixou de ser apenas um instrumento de eficiência, assumindo uma dimensão geopolítica de particular relevância.

E é precisamente aí que o debate deveria começar.

Porque a questão não é se Portugal ou a Europa devem ter uma estratégia de soberania tecnológica porque a resposta é, obviamente, sim. A questão é saber como fazer os investimentos, desenvolver as competências e criar as condições necessárias para competir num mercado onde os atuais líderes investem dezenas de milhares de milhões de euros por ano em plataformas, capacidade computacional, inteligência artificial, software, chips, cibersegurança e infraestruturas digitais, enquanto o retorno das decisões, em particular as que têm uma dependência política, ainda se mede demasiadas vezes no imediatismo da opinião pública.

A administração pública, a saúde, a energia, as telecomunicações, o sistema financeiro e, cada vez mais, a própria indústria, funcionam sobre plataformas digitais que são hoje tão importantes como as redes elétricas, os portos ou as autoestradas. Mas essas plataformas dependem de várias camadas: data centers, redes, software, dados, modelos de inteligência artificial, semicondutores, sistemas de segurança, capacidade de integração e talento especializado.

É por isso que a discussão sobre soberania tecnológica europeia não deve ser confundida com protecionismo. O objetivo não é substituir todos os grandes fornecedores globais nem fechar a Europa sobre si própria. O objetivo é reduzir dependências excessivas e garantir que existe capacidade própria para suportar atividades críticas, proteger dados estratégicos e desenvolver novas cadeias de valor digitais, recorrendo a modelos previsíveis na evolução, nos custos e sobre os quais existam níveis de controlo estratégico adequados.

Como acontece recorrentemente, em particular em temas tecnológicos, a existência da oferta não é, só por si, garante da sua utilização. Neste caso, existe a necessidade de gerar e acompanhar a procura, adaptando o serviço e os níveis de competitividade às exigências do mercado e às características da concorrência. Por essa razão, a soberania tecnológica europeia não pode ser uma iniciativa exclusivamente política. Por todo o racional já apresentado, tem de ser um veículo efetivo para resolver problemas reais e criar valor económico. Não basta proclamar soberania; é necessário complementar essa característica da oferta com desempenho, segurança, inovação, interoperabilidade e competitividade.

A pergunta relevante não é “como construir uma soberania tecnológica europeia?”, mas sim “como construir um ecossistema tecnológico europeu que seja suficientemente atrativo para empresas, governos, investidores, talento e cidadãos?”. E isso exige uma combinação de fatores raramente discutida em conjunto.

Exige desde logo as questões básicas como data centres, energia para os alimentar e conectividade internacional. Mas também exige talento e exige investigação. Exige capacidade computacional para inteligência artificial que exige disponibilidade de semicondutores. Exige software e plataformas para desenvolver as soluções necessárias a cada objetivo, com os níveis de proteção e cibersegurança adequados. A criação destas capacidades exige a criação de um ecossistema que funcione de forma alinhada de operadores de telecomunicações, fornecedores tecnológicos, startups, universidades, empresas e serviços públicos. E exige ainda e em particular, uma administração pública a criar as políticas que fomentem todo este desenvolvimento e que não o impeçam por troca de controle desnecessário. Finalmente, exige ainda uma estratégia de comunicação que explique a real importância de conseguir esta soberania tecnológica mesmo que os impactos não sejam populistas e de curtíssimo prazo.

No final, a soberania tecnológica só se justifica com uma proposta de valor relevante em todas as dimensões.

Qualquer investimento em produtos ou serviços sem procura não passa de uma intenção. Uma estratégia de soberania tecnológica sem adoção real, sem modelo económico e sem escala europeia corre o mesmo risco.

O desafio europeu não é apenas criar infraestrutura. É criar um ecossistema capaz de competir. Sem capacidade europeia em inteligência artificial, processamento avançado, software industrial, dados, plataformas digitais e integração tecnológica, continuaremos dependentes de tecnologias críticas desenvolvidas, financiadas e monetizadas fora da Europa.

É aqui que Portugal pode ter uma oportunidade que muitos ainda subestimam.

Durante anos, o país foi visto como um mercado periférico na economia digital europeia. Hoje, essa visão já não corresponde à realidade. A localização geográfica de Portugal coloca o país numa posição única entre a Europa, África e as Américas. Num mundo em que o tráfego de dados cresce exponencialmente e em que os cabos submarinos, os hubs de conectividade, os grandes centros de processamento e a capacidade computacional para inteligência artificial ganham relevância estratégica, esta geografia deixa de ser um detalhe e transforma-se numa vantagem competitiva.

Portugal possui algumas das infraestruturas de telecomunicações mais avançadas da Europa, com níveis elevados de cobertura de fibra e redes móveis de última geração. Os operadores nacionais continuam a investir fortemente na modernização das redes e na evolução para plataformas digitais. Do ponto de vista energético, a estratégia de produção de energia verde tem um impacto critico no desenvolvimento destas capacidades.

Apesar dos desafios de quantidade, a qualidade técnica dos nossos recursos e a respetiva competitividade e flexibilidade devem ser assumidas como ativos estratégicos a desenvolver continuamente. A qualidade de vida no nosso país, é seguramente um fator de atração e retenção de talento que deve ser explorado, com alguns eventuais ajustes em termos fiscais e de acesso a habitação, por exemplo.

Também ao nível do governo, as recentes posições nos temas das GigaFactories ou o posicionamento assumido pela IP Telecom como agente neste contexto são exemplos da dinâmica que se pretende criar.

Se a Europa procura criar novos polos tecnológicos, Portugal pode posicionar-se como um dos seus nós estratégicos. Não apenas para alojar infraestrutura, mas também para desenvolver talento, criar serviços digitais avançados e participar na construção das futuras cadeias de valor tecnológicas europeias.

A questão é orquestrar a utilização destas vantagens. Mais do que assistir ao desenvolvimento dos grandes hubs digitais europeus, podemos assumir a ambição de ser uma das portas de entrada da economia digital do Atlântico, valorizar as nossas vantagens competitivas e assumir um papel estratégico nas iniciativas europeias.

A Europa fala hoje de soberania tecnológica porque percebeu que chegou atrasada a várias revoluções tecnológicas recentes. Chegou tarde às grandes plataformas digitais, aos hyperscalers e a uma parte significativa da economia dos dados. Está agora a tentar não chegar tarde à inteligência artificial, à computação avançada, aos semicondutores, à cibersegurança e à próxima geração de infraestruturas digitais. Acelerar o desenvolvimento e reduzir os gaps face aos Estados Unidos e à Ásia deve ser um desígnio de todos os países europeus. Portugal está mais do que a tempo de transformar as suas vantagens estruturais numa verdadeira oportunidade económica.

Mas essa oportunidade não será capturada através de declarações de intenção, nem através de wishful thinking, nem através da esperança de que sejam os outros a fazer o investimento necessário.

A soberania tecnológica europeia não se decreta. Constrói-se.

E construir implica escolher. Implica investir. Implica executar. Implica aceitar que a ambição tecnológica tem de ser acompanhada por modelos de negócio sustentáveis, procura real, escala europeia e colaboração entre setor público e privado.

Porque, no final, não vale a pena só desejar uma autonomia europeia para os temas tecnológicos. Se efetivamente acreditamos no princípio, teremos de agir como se ele fosse realmente importante.

Resumo

A soberania tecnológica europeia vai muito além da cloud e tornou-se uma questão estratégica para a economia, a segurança e a competitividade da Europa. O desafio passa por reduzir dependências tecnológicas externas e construir um ecossistema capaz de competir globalmente em áreas como inteligência artificial, dados, semicondutores e cibersegurança. Para isso, são necessários investimento, talento, inovação, infraestruturas e colaboração entre setor público e privado. Portugal reúne condições favoráveis, desde a sua localização estratégica até às infraestruturas digitais e energéticas, podendo afirmar-se como um dos principais polos tecnológicos europeus.

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