IReF: um shift na transformação do reporte para a transformação dos dados

Porque o novo framework do BCE representa muito mais do que uma evolução regulatória — exige uma resposta estratégica das instituições.


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Mais do que uma alteração de requisitos de reporte, o IReF representa uma transformação estrutural na forma como os bancos produzem, governam e utilizam dados. O adiamento da sua implementação não deve ser interpretado como um simples ganho de tempo, mas como uma oportunidade para preparar uma transformação simultaneamente regulatória, tecnológica e organizacional.

 Uma nova lógica regulatória baseada em dados

O IReF pretende substituir diversos frameworks estatísticos, incluindo BSI, MIR, SHS e AnaCredit, por um modelo integrado suportado por um dicionário comum de dados e por regras harmonizadas.

No centro desta transformação está uma mudança de paradigma: deixar de reportar informação agregada para passar a disponibilizar dados granulares ao nível da operação individual. A visão do BCE assenta no princípio de “Define Once, Report Once”, segundo o qual uma única base de dados deverá responder a múltiplas necessidades regulatórias e analíticas.

Neste contexto, o foco deixa de estar na produção dos reportes e passa a centrar-se na qualidade, consistência, rastreabilidade e reutilização dos dados.

Da qualidade do reporte à qualidade dos dados

Num modelo baseado em dados granulares, a qualidade deixa de poder ser assegurada apenas no momento do reporte. Tem de estar garantida desde a origem dos dados, exigindo uma evolução das práticas de Data Governance, maior controlo sobre o data lineage, regras de qualidade mais robustas e responsabilidades claramente definidas ao longo da organização.

A capacidade de produzir dados completos, consistentes e auditáveis deixará de ser apenas um requisito regulatório para se tornar uma competência estratégica.

Muito além do compliance

Para a maioria das instituições, o desafio do IReF vai muito além da implementação de novos requisitos de reporte. Implica harmonizar modelos de dados, modernizar arquiteturas, reforçar mecanismos de controlo e aproximar os domínios financeiro, de risco e regulatório.

Ao mesmo tempo, abre uma oportunidade única para resolver desafios estruturais que muitas organizações acumulam há anos, nomeadamente a fragmentação de dados, a duplicação de processos e as inconsistências entre diferentes fontes de informação.

As instituições que adotarem uma visão estratégica poderão utilizar o IReF como catalisador para uma transformação mais ampla da sua capacidade de gestão de dados.

IReF como acelerador de inovação

Existe ainda uma dimensão frequentemente subestimada. A normalização e harmonização dos dados criam condições particularmente favoráveis para iniciativas de automação, analytics avançado e Inteligência Artificial.

Dados mais consistentes e melhor governados constituem a base necessária para extrair valor destas tecnologias, permitindo que um programa regulatório se transforme também num impulsionador da inovação.

Um ponto de inflexão para o setor

Apesar do adiamento da implementação, os desafios permanecem os mesmos e exigem decisões desde já. Os bancos deverão aproveitar esta janela temporal para avaliar o impacto do IReF, reforçar os seus modelos de governação de dados e definir a arquitetura necessária para suportar o novo paradigma regulatório.

O IReF representa muito mais do que uma nova obrigação de reporte. É uma oportunidade para redefinir a forma como as instituições gerem dados, suportam a tomada de decisão e preparam o futuro.

Em última análise, o IReF não é apenas uma transformação do reporte regulatório. É uma transformação da própria fundação de dados do setor bancário europeu.

artigo escrito por João Marques  

Resumo

A recente publicação do plano de implementação do Integrated Reporting Framework (IReF) pelo Banco Central Europeu (BCE) veio clarificar uma mensagem importante: apesar do ajustamento do calendário, o IReF continua a ser o destino inevitável do reporte regulatório europeu.

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