Quando a IFRS 17 entrou em vigor, em 2023, trouxe consigo uma verdadeira revolução na contabilidade do setor segurador. A promessa era clara: mais transparência, mais comparabilidade. Mas a realidade também foi exigente — investimentos pesados em sistemas, processos e competências. Hoje, três anos depois, já não estamos na fase de implementação. O desafio é outro: integrar a IFRS 17 com Solvência II e ganhar eficiência num cenário regulatório cada vez mais complexo.
Os primeiros ciclos de reporte mostraram avanços evidentes na qualidade da informação. Mas também expuseram fragilidades. IFRS 17 e Solvência II coexistem, mas falam linguagens diferentes: Contractual Service Margin de um lado, fundos próprios do outro. Esta dualidade obriga a reconciliações constantes, prolonga prazos de fecho e aumenta a pressão sobre equipas financeiras e atuariais.
Relatórios da EIOPA e da ASF confirmam: a transparência melhorou, mas os custos operacionais continuam elevados. Estudos da EY revelam que muitas seguradoras ainda dependem de processos manuais para consolidar dados entre frameworks. Isto limita a agilidade e aumenta o risco de erro. E como se não bastasse, surgem novas exigências — DORA, AI Act — que pedem resiliência digital e uso responsável da inteligência artificial. A integração tecnológica deixou de ser uma opção; é uma necessidade.
O caminho para responder a este desafio passa por eficiência. Automação e inteligência artificial são hoje ferramentas-chave para reduzir custos e acelerar processos. Dashboards integrados, que conciliam métricas financeiras e prudenciais, começam a aparecer em grupos europeus, oferecendo uma visão única para gestores e órgãos de decisão. Esta integração não é apenas técnica; é estratégica. É o que garante governança sólida e capacidade de resposta perante supervisores e investidores.
Para quem lidera o setor, a prioridade é clara: investir em plataformas que eliminem redundâncias, reforçar a qualidade e granularidade dos dados e criar indicadores que permitam monitorizar, em simultâneo, performance económica e solvência. IFRS 17 e Solvência II não devem ser encaradas como normas isoladas, mas como pilares complementares para uma gestão mais robusta e transparente. Num contexto onde a regulação evolui rapidamente e a digitalização redefine processos, quem conseguir harmonizar estas normas e antecipar novos requisitos estará melhor preparado para garantir estabilidade e confiança.
O futuro do setor segurador será definido pela capacidade de integrar normas, otimizar processos e responder com rapidez a um ambiente regulatório em constante mudança. Três anos depois da IFRS 17, já não se trata de implementar — trata-se de simplificar, automatizar e garantir que a informação certa chega no momento certo.
É hora de transformar compliance em vantagem competitiva. Quem conseguir integrar normas e acelerar processos não estará apenas a cumprir regras — estará a liderar o futuro do setor.