Depois de décadas de expansão sustentada, a indústria global do luxo está a recalibrar-se. Na sequência do abrandamento de 2024, 2025 trouxe sinais de estabilização, mas de forma desigual entre regiões, categorias e segmentos de cliente, num contexto marcado por incerteza macroeconómica, instabilidade geopolítica, pressões inflacionistas e oscilações na confiança do consumidor. Mais do que uma travagem cíclica, o que se observa é uma mudança na forma como o cliente decide. Mas uma coisa é certa: o desejo pelo luxo mantém-se.
Foi neste contexto que a EY desenvolveu o EY Luxury Client Index 2026, um estudo que auscultou 1.631 consumidores de luxo aspiracionais em 11 mercados, analisando motivações, barreiras, canais de compra e expectativas futuras.
A recuperação assimétrica está a acentuar a polarização do mercado. O core de maior rendimento mantém-se resiliente, enquanto a base aspiracional surge mais exposta à inflação de preços, às preocupações com valor e aos trade-offs no consumo discricionário. O cliente aspiracional questiona hoje mais o que compra, onde compra e se o produto ou a experiência justificam o investimento.
Para as maisons, o resultado é um duplo desafio: proteger aquilo que torna o luxo distintivo – excelência de produto, craftsmanship, heritage, exclusividade e ressonância emocional – e, em simultâneo, responder a expectativas em evolução, com maior orientação para valor, novos comportamentos de compra, jornadas omnicanal, personalização e novas formas de acesso e engagement. As conclusões do estudo são inequívocas: a inovação só cria valor quando reforça os fundamentos do luxo.
A essência do produto continua a decidir a compra
Apesar de perfis distintos, os clientes aspiracionais partilham uma exigência comum: o luxo tem de demonstrar valor. E é no produto que essa demonstração começa. A qualidade dos materiais é o principal fator de compra (65%), seguida da tradição da marca (52%) e do craftmanship (50%). A valorização da qualidade é especialmente elevada entre os baby boomers (80%).
No plano das motivações pessoais, o desejo de possuir artigos de elevada qualidade lidera, à frente da recompensa por conquistas pessoais e da expressão de estilo de vida, sucesso ou identidade. Esta hierarquia confirma o deslocamento do luxo enquanto sinal exterior para o luxo enquanto escolha justificada.