Estudo de impacto das energias renováveis em Portugal


Portugal avança com 66% de eletricidade renovável em 2024. Inovação e políticas estratégicas impulsionam um futuro seguro.


O novo contexto político global, marcado por tensões no Médio Oriente, com impacto no estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo e gás mundial, veio reacender preocupações sobre segurança energética e vulnerabilidade económica e política, já expostas pela guerra na Ucrânia. A transição energética está em curso, mas permanece condicionada por dependências estruturais que continuam a expor o sistema a riscos geopolíticos.

Por outro lado, a procura energética deverá crescer significativamente até 2050, pressionada pela digitalização, nomeadamente centros de dados e inteligência artificial. Este contexto reforça o papel estratégico da energia na geopolítica global.

Os conflitos geopolíticos reforçam a perceção de que as energias renováveis são não só uma solução climática, mas também uma resposta estratégica para garantir estabilidade económica e geopolítica. Neste novo contexto, países com recursos renováveis abundantes, como Portugal, ganham vantagem competitiva e podem posicionar-se como líderes na nova ordem energética.

Atendendo à crescente importância das energias renováveis no panorama energético global e nacional e o seu papel vital na transição para uma economia mais verde e sustentável, a EY-Parthenon apoiou a APREN no desenvolvimento de um estudo que fornece dados quantitativos e qualitativos que permitem uma compreensão clara do estado atual das energias renováveis em Portugal, das suas perspetivas futuras e dos impactos associados, bem como recomendações estratégicas para otimizar o seu desenvolvimento e maximizar os benefícios socioeconómicos e ambientais associados.

No contexto mundial, o aumento do consumo global de eletricidade (Figura 1) foi impulsionado por fatores como a crescente procura por arrefecimento devido a temperaturas extremas, o aumento do consumo por parte da indústria, a eletrificação dos transportes e a expansão do setor de data centers.

Em 2024, 80% do crescimento da geração de eletricidade a nível global foi assegurado por fontes renováveis e energia nuclear. Juntas, contribuíram com 41% da geração total pela primeira vez, com as renováveis, por si só, a fornecerem 32%.

Figura 1. Geração de eletricidade no mundo por tipo de energia (TWh) | 2022-2024

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À medida que o mundo faz a transição para fontes mais limpas, o capital está a fluir para tecnologias que apoiam a descarbonização. De facto, o petróleo e o gás natural registam quedas notáveis no investimento, de 34% e 19% respetivamente, ao longo da década (Figura 2). O crescimento de 109% do investimento nas energias renováveis destaca a aceleração da transição mundial dos combustíveis fósseis para a geração de energia sustentável. É ainda de destacar que a eletrificação deverá subir 131%. Ainda mais impressionante é o aumento de 367% nos combustíveis de baixas emissões. Estas categorias, embora menores em termos absolutos, indicam a direção dos futuros sistemas energéticos.

Figura 2. Investimento global na energia (mil milhões USD) | 2015-2025

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No contexto europeu, o consumo de energia final verificou uma queda em 2020, fruto da pandemia Covid-19, tendo recuperado o crescimento em 2021 (Figura 3). Contudo, em 2022 e 2023 voltou a diminuir. Em 2024, o consumo de energia final na UE parece ter retomado uma trajetória de crescimento. Os biocombustíveis e feedstock, bem como a energia eólica, solar, entre outras renováveis foram os únicos tipos de energia a ter uma taxa de variação média anual positiva no período em análise. Destaca-se ainda o peso de 47,5% das renováveis no consumo de eletricidade.

Figura 3. Consumo de energia final na UE-27 por tipo de energia (ktoe) | 2019-2024

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Adicionalmente, destaca-se que, em 2024, a energia renovável representou cerca de 25% da energia consumida na UE, sendo os países europeus com maior incorporação de energia renovável no consumo de energia a Islândia, a Noruega e a Suécia (Figura 4). Relativamente à contribuição das FER (Fontes de Energia Renovável) para a produção de eletricidade, destaca-se o peso de 47,5% na UE, mas mais impressionante ainda são os casos da Noruega, Albânia e Islândia com uma contribuição superior a 100% - isto significa que produziram mais eletricidade a partir de fontes renováveis do que o total de eletricidade que consumiram em 2024, resultando assim numa quota superior a 100%.

Quanto à contribuição das FER no aquecimento e arrefecimento, na UE tiveram um peso de 26,7%, destacando-se, novamente, o caso da Islândia, Montenegro e Suécia (Figura 4). Já a contribuição das FER no transporte não é tão significativa, tendo um peso de 11,2% na UE, sendo a Noruega, a Suécia e a Finlândia os países onde as FER mais contribuem para os transportes.

Figura 4. Contribuição das renováveis (%) na UE-27 e top-3 de países europeus | 2024

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Voltando o foco para Portugal, nos últimos anos começou-se a verificar um aumento do contributo das FER, possivelmente motivado pela pandemia de Covid-19 e da invasão russa à Ucrânia, que levou a uma mudança nas dinâmicas energéticas globais, reforçando a necessidade urgente de reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Em 2024, a quota das FER no setor da eletricidade foi de 66% (Figura 5), sendo a hídrica e a eólica as que mais contribuem.

Figura 5. Contribuição das renováveis (%) em Portugal | 2024

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A potência instalada de origem hídrica continua a ser a mais representativa em Portugal, apesar do seu decréscimo no peso da potência elétrica instalada renovável: a potência elétrica instalada de origem fotovoltaica é a que apresenta o maior crescimento, tornando-se a segunda potência elétrica instalada renovável com maior peso (Figura 6).

Figura 6. Potência elétrica instalada por tipo de energia renovável (MW) | 2018-2025

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A evolução futura do setor das energias renováveis em Portugal pode ser analisada através do cruzamento de dois eixos: Eixo A. Ambição política e regulatória e Eixo B. Avanço e integração tecnológica. Os dois eixos de análise dão origem a 4 cenários de evolução futura do setor das energias renováveis, uns mais favoráveis do que outros (Figura 7). O detalhe de cada cenário pode ser consultado no estudo.

Figura 7. Cenários de evolução futura

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A análise realizada permitiu a identificação de diversos impactos das energias renováveis, nomeadamente impactos socioeconómicos (no PIB, emprego, remunerações e receita fiscal), impactos no mercado de eletricidade, impactos ambientais e na dependência energética.

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Figura 8. Impactos socioeconómicos

 

O setor das FER gera impactos económicos e sociais relevantes, refletidos no contributo para o PIB, na criação de emprego, nas remunerações e na receita fiscal.

Os impactos económicos das FER têm uma dimensão territorial relevante, uma vez que os projetos se localizam maioritariamente fora dos grandes centros urbanos, contribuindo para a dinamização das economias regionais, a criação de emprego local e o reforço da coesão territorial.

O impacto das FER no PIB apresenta uma trajetória de crescimento significativa, passando de 5,3 mM€ em 2024 para 32,3 mM€ em 2040, refletindo o aumento da capacidade instalada e da produção renovável ao longo do período. Em paralelo, o impacto no emprego cresce de forma expressiva, de 62 mil empregos em 2024 para 419 mil em 2040.

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Figura 9. Efeitos diretos, indiretos e induzidos
 

Os impactos económicos das energias renováveis são calculados através da decomposição em efeitos diretos, indiretos e induzidos. Os efeitos diretos resultam da atividade das empresas do setor, os indiretos decorrem das cadeias de fornecimento 

associadas e os induzidos refletem o aumento do consumo gerado pelos rendimentos criados na economia.

Entre 2024 e 2040 observa‑se um reforço do peso dos efeitos indiretos e induzidos nos impactos económicos do setor das FER, refletindo a maior maturidade do setor e a sua crescente integração nas cadeias de valor nacionais. À medida que a fase inicial de investimento dá lugar à consolidação da capacidade instalada e da operação, os impactos propagam‑se de forma mais ampla pelo tecido económico, traduzindo‑se num efeito multiplicador mais elevado sobre o PIB, o emprego, as remunerações e a receita fiscal.

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Figura 10. Impacto ambiental
 

Para o cálculo das emissões evitadas pelas fontes de energia renovável (FER) assumiu-se que toda a produção elétrica renovável é substituída por combustíveis fósseis e importações de Espanha.

Para determinação das emissões evitadas foram consideradas emissões de CO2 e emissões equivalentes de CO2: emissões de CH4 e N2O com potencial equivalente de aquecimento global.

Perspetiva-se que as emissões evitadas continuem a aumentar com o crescimento da produção renovável até 2040 (o RNC2050 estima que a incorporação renovável na produção de eletricidade seja de 94% em 2030 e 97% em 2040).

Prevê-se um aumento significativo da contribuição das FER nos custos evitados com licenças de CO2 em 2040, fruto do aumento esperado da produção de eletricidade FER.

A continuação do aumento previsto dos preços das licenças (107 €/t em 2030 e 220 €/t) também contribui para o aumento estimado dos custos evitados.

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Figura 11. Impacto na dependência energética

 

Quanto maior for a integração da eletricidade proveniente de fontes renováveis no mix energético nacional, maior será a redução das importações de combustíveis fósseis e, consequentemente, da dependência energética externa.

Como resultado do aumento previsto para a produção FER, estima-se que, em 2040, as importações evitadas ascendam a 95 188 GWh, mais do dobro do que em 2025.

A produção de eletricidade renovável resultará em poupanças significativas, prevendo-se que alcance cerca de 7,7 mil milhões de euros em 2040, referentes a importações de combustíveis fósseis evitadas.

Em 2030, estima-se que sem FER a taxa de dependência energética alcance 86,3%, quase 30 p.p. superior ao valor estimado com FER.

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Figura 12. Impacto económico da PRE (Produção em Regime Especial) renovável
 

A existência de eletricidade produzida a partir de fontes renováveis tem impacto em diferentes parcelas das tarifas de eletricidade, destacando-se o efeito que estas tecnologias têm na formação do preço de mercado grossista diário de eletricidade, pelo facto de apresentarem custo marginal tendencialmente nulo; e os diferenciais de custo associados às tarifas feed-in.

As FER influenciam positivamente a formação do preço de mercado da eletricidade transacionada no MIBEL devido ao seu baixo custo marginal e ao efeito da ordem de mérito, tendo permitido uma poupança acumulada de cerca de 41,9 mil milhões de euros entre 2018 e 2025.

Sem a PRE renovável o preço do mercado diário da eletricidade aumentaria. Sem a PRE renovável o diferencial de custo com a PRE não existiria.

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Resumo

O contexto global atual reforça a importância das energias renováveis para segurança energética e estabilidade. Portugal destaca-se com 66% de eletricidade renovável em 2024, gerando benefícios económicos, sociais e ambientais. O estudo recomenda investir em inovação, modernizar redes e simplificar processos para potenciar o setor renovável no país.

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