I&D e Inovação na Interceção: Construir o Futuro com Mais Impacto 

Apesar dos progressos das últimas décadas, Portugal mantém-se no grupo dos inovadores moderados na Europa. O desafio não está apenas em investir mais em I&D, mas em orquestrar melhor os ecossistemas de inovação e acelerar a sua valorização económica.


A criação de valor e as condições de vida no mundo são fortemente influenciadas pelo desempenho inovador dos países, independentemente da sua dimensão. 

O Global Innovation Index, publicado anualmente pela WIPO, avalia 139 economias com base em 80 indicadores agrupados em inputs e outputs de inovação, e evidencia precisamente esse facto. Países de menor dimensão em milhares de habitantes – como a Suíça, Suécia e Singapura – lideram em inovação, demonstrando que o que verdadeiramente distingue os países é a sua capacidade de mobilizar, articular e valorizar economicamente o conhecimento que produzem.

Neste ranking, Portugal apresenta um índice de 43,9, ocupando a 31ª posição. O posicionamento de Portugal em inovação supera o seu posicionamento económico em PIB per capita ajustado por paridade de poder de compra (38ª posição). Este desfasamento, para além de evidenciar um sistema de inovação mais robusto do que o seu nível de riqueza faria antecipar, sinaliza uma margem relevante para valorização económica do investimento em I&D que está ainda por capturar.

No panorama europeu, o European Innovation Scoreboard confirma esta leitura. Desde 2018, Portugal apresenta um paradoxo de melhoria do índice de inovação em termos absolutos, acompanhado por perda de posição em termos relativos. Esta dicotomia coloca em destaque a dificuldade estrutural do país em acompanhar as economias mais avançadas, o que tem impossibilitado a transição do grupo dos inovadores moderados para outros de performance superior.

O sistema português apresenta forças relevantes, nomeadamente, ao nível do apoio governamental à I&D empresarial (1º lugar na EU), das vendas de inovações novas para o mercado e para a empresa (4º) e a produtividade de CO2 baseada na produção (6º). No entanto, estas forças coexistem com fragilidades persistentes, em particular na despesa em inovação por pessoa empregada (23º), nas exportações de serviços intensivos em conhecimento (22º) e de produtos de média e alta tecnologia (21º). Assim, apesar da forte aposta na criação de inputs de inovação, o país enfrenta ainda dificuldades na sua conversão eficaz em outputs de mercado.

Esta performance nacional esconde assimetrias territoriais significativas, com a Grande Lisboa a ser a única região portuguesa a superar a média europeia, integrando o grupo dos inovadores fortes.

Ainda assim, quando comparada com as regiões europeias onde se encontram algumas das principais capitais — Estocolmo, Copenhaga, Helsínquia, Berlim, Paris ou Bruxelas —, a Grande Lisboa mantém um posicionamento intermédio, refletindo um potencial ainda por capturar.

Visão setorial sobre I&D e Produtividade

Um zoom-in nacional ao nível setorial revela que a relação entre intensidade em I&D e produtividade do trabalho é tendencialmente positiva, no entanto, esta vantagem encontra-se concentrada em poucos setores.

Os setores de Consultoria Técnica e Científica (M), Informação e Comunicação (J) e Indústrias Transformadoras (C) surgem em destaque, tendo sido os únicos capazes de superar a média nacional em intensidade em I&D em 2024 (2%).

Em particular, dentro da indústria transformadora, a Fabricação de Produtos Farmacêuticos (C21) e a Fabricação de Equipamentos Informáticos (C26) apresentam as intensidades em I&D mais elevadas. Contudo, a visão global do comportamento das indústrias transformadoras revela a persistência generalizada de um enorme défice de valorização económica do investimento em I&D. Esta fragilidade é ainda acentuada pela ausência de uma relação clara entre a intensidade de I&D e intensidade exportadora das indústrias.

Dinamismo empresarial em I&D

Não obstante, Portugal apresenta um tecido empresarial dinâmico, que tem sido o principal motor do crescimento das despesas em I&D nos últimos 40 anos.

Ainda assim, este dinamismo encontra-se ainda concentrado num grupo restrito de empresas, com o top 5 das 100 empresas com mais despesas em I&D a ser responsáveis por 13% do total do conjunto. Adicionalmente, entre as 54 empresas que autorizaram divulgação, apenas 21 têm atividades em setores (industriais) transacionáveis e apenas 10 são PME.

O ranking é dominado por grupos de telecomunicações, energia, distribuição, banca e tecnologias, reforçando o retrato de concentração em setores de reduzida exposição concorrencial internacional.

O ecossistema português de inovação

A análise do ecossistema mais alargado de inovação em Portugal tem estado em constante evolução: desde as fundações iniciais nos anos 80, com universidades e centros de I&D como atores principais, até à atual fase de consolidação de políticas de missão, que conta como redes de interface (CoLAB, CTI e Clusters), consórcios e plataformas de inovação. No entanto, apesar deste progresso institucional, persistem fragilidades estruturais e uma excessiva fragmentação de players, que tem aumentado ao longo dos vários ciclos de programação da política de coesão europeia.

Em particular, as empresas continuam a atuar muito sozinhas no processo de inovação, financiando cerca de 87% da sua própria I&D, em contraste com os setores não empresariais, que dependem excessivamente do financiamento público.

Ainda assim, apesar da elevada proporção de empresas na rede global de inovação em Portugal, as entidades académicas e de interface desempenham papéis centrais na rede, ao assegurarem a articulação entre atores. Este enquadramento reforça o facto de o desafio de Portugal residir, não tanto no investimento em I&D isoladamente, mas sim na colaboração efetiva entre empresas e sistema científico e tecnológico.

À luz da análise da evolução dos níveis de TRL (Technology Readiness Level) e IRL (Innovation Readiness Level) ao longo do ciclo de maturidade, a progressão de uma dada tecnologia está associada a menor risco tecnológico e a um maior relevo do risco de mercado. É nesta transição, da prova de conceito à escala industrial e adoção comercial, que Portugal continua a perder valor. É fundamental passar a centrar muito mais as políticas de C&T, I&D e Inovação no “Innovation Readiness Level” e nas suas falhas de mercado, focando a sua atuação em “novos” mecanismos de financiamento, designadamente em “venture capital”, “private equity” e acesso ao mercado de capitais.

Este desafio levanta questões críticas que merecem reflexão e que colocam a lente de análise focada na necessidade de desenvolver capacidades para transformar, difundir e financiar a inovação ao longo do ciclo.

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Resumo

Portugal tem hoje um ecossistema de inovação mais maduro, com progressos indiscutíveis no financiamento empresarial em I&D, na formação avançada de recursos humanos, e na estruturação de um sistema de interface robusto. Ainda assim, as fragilidades estruturais da rede – assimetrias regionais, concentração setorial da I&D e insuficiente articulação entre empresas e entidades científicas e tecnológicas impedem a aproximação às economias líderes e a conversão eficaz de inputs em outputs de inovação.

O desafio central deixou de ser o volume de investimento em I&D, para passar a ser a sua valorização económica, sendo para isso fundamental a adoção de uma ação concertada e coordenada entre políticas públicas, ecossistema de interface e tecido empresarial.

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