Quatro formas de as empresas nos mercados emergentes darem prioridade à integridade

12 minutos de leitura 1 mar 2021
por Arpinder Singh

EY Global Markets and India Leader, Forensic & Integrity Services

Leading forensic accountant and veteran expert witness. Advising global clients on compliance, anti-corruption and corporate governance. Disruptive thinker. Technology aficionado. Author.

12 minutos de leitura 1 mar 2021
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Descubra como podem as organizações que operam em mercados emergentes reduzir a má conduta, construir confiança e criar valor a longo prazo.

Este artigo apresenta o Global Integrity Report da EY na perspetiva dos mercados emergentes.

Sumário Executivo
  • Os desafios da integridade e as quebras de confiança nos mercados emergentes estão a criar ansiedade nos líderes empresariais que neles investem e operam.
  • As empresas estão a colocar a integridade no topo da agenda, encorajando a denúncia de irregularidades, concentrando-se na proteção de dados e abordando questões de integridade com terceiros.
  • Mas ainda há muito trabalho a fazer, e um relatório da EY deixa recomendações importantes para melhorar.

A integridade e as questões de má conduta são motivo de preocupação para as empresas em qualquer parte, mais ainda nos mercados emergentes. O último Global Integrity Report da EY – perspetiva dos mercados emergentes (pdf) ilustra a extensão deste problema e disponibiliza algumas recomendações de melhoria.

O relatório questionou administradores, gestores e funcionários em 21 países com mercados emergentes. Aproximadamente um terço (32%) dos inquiridos dos mercados emergentes dizem que o suborno e as práticas corruptas representam o maior risco para o sucesso a longo prazo dos seus negócios e pouco mais de um quarto (27%) apontam para a fraude. Além disso, quase um terço (30%) acredita que o risco de um ciberataque e de ser vítima de ransomware é uma ameaça relevante.


            Comparação entre Mercados Emergentes e Desenvolvidos

Outro fator a ser considerado é a disrupção económica e a incerteza causada pelo surto da COVID-19. O Banco Mundial espera que as economias em desenvolvimento diminuam pela primeira vez em seis décadas, à medida que encaixam os custos da pandemia.1 Isto agrava a questão, pois há uma expetativa de que as práticas éticas fiquem sob pressão em tempos de crise. Isto é evidenciado pelo relatório da EY, onde se sugere que standards e boas práticas tendem a ser ignoradas quando os tempos são desafiantes.

Contudo, as organizações que operam em mercados emergentes estão a dedicar e a concertar esforços para reduzir a má conduta. Estão a adotar quatro medidas, em particular:

  1. Colocar a integridade empresarial no topo da agenda de gestão 
  2. Encorajar os empregados a denunciar más condutas
  3. Aumentar o enfoque na proteção de dados e de ataques informáticos
  4. Abordar as questões de integridade dos parceiros externos

            Os maiores fatores e riscos para o sucesso a longo prazo

Aproximadamente um terço dos inquiridos nos mercados emergentes afirmam que o suborno e as práticas corruptas representam o maior risco para o sucesso a longo prazo dos seus negócios e pouco mais de um quarto dos inquiridos apontam para a fraude.

1. Colocar a integridade empresarial no topo da agenda da gestão

De acordo com o relatório da EY (pdf), mais de metade (55%) dos inquiridos nos mercados emergentes dizem que a gestão comunica frequentemente a importância de trabalhar com integridade, em comparação com apenas 39% nos mercados desenvolvidos. Esta proporção varia significativamente nos mercados emergentes, com 76% dos gestores a comunicarem frequentemente a importância da integridade na China, em comparação com apenas 25% nos Emirados Árabes Unidos.


            Comparação entre países que mantêm a integridade como prioridade

Falar de integridade empresarial ajuda a construir uma cultura de confiança e integridade em toda a empresa. No entanto, as ações são muito mais importantes do que as palavras. Os gestores devem apoiar as proclamações sobre integridade, dando exemplos visíveis e dispondo de indicadores-chave de desempenho (KPIs) claros para medir o impacto das suas iniciativas.

As organizações devem liderar a partir do topo, em matéria de integridade empresarial. Os colaboradores devem compreender que agir com integridade é a coisa certa a fazer e que tal comportamento diferencia a sua empresa de outras, e isso não acontece apenas porque a regulação local ou global assim exige que o negócio aja desta forma. O segundo passo é que programas formais, formação, procedimentos e políticas sejam postos em prática pelos líderes seniores e comunicados claramente a toda a empresa. É também essencial que os líderes seniores sejam vistos a seguir estas regras. É seu dever trilhar o caminho para que outros o sigam. 

A importância de operar com integridade

55%

dos inquiridos nos mercados emergentes dizem que a sua gestão comunica frequentemente a importância de operar com integridade.

2. Encorajar os colaboradores a denunciarem a má conduta

As vozes dos colaboradores devem ser ouvidas em qualquer organização. Isto pode ser conseguido criando uma cultura que "fale sobre" e que "escute ativamente". No entanto, alertar sobre más condutas ou comportamentos antiéticos pode ser considerado arriscado, para aqueles que temem retaliações – tanto a nível profissional como pessoal. Mais de um terço dos inquiridos nos mercados emergentes dizem que não relataram apreensões sobre integridade por estarem preocupados com a progressão na carreira. Uma estatística preocupante é que quase 3 em cada 10 empregados mantiveram as suas preocupações privadas, por temer pela sua segurança pessoal.

A pesquisa mostra, no entanto, que as empresas nos mercados emergentes estão a fazer esforços para facilitar a denúncia de irregularidades. Quase metade (44%) dos inquiridos afirmam que se tornou mais fácil para os colaboradores denunciarem as suas preocupações nos últimos três anos, em comparação com apenas 34% nos mercados desenvolvidos.


            Gráfico que reflete as razões pelas quais as preocupações não são comunicadas

As empresas devem fazer com que os colaboradores sintam que podem denunciar condutas incorretas com segurança, que na prática é possível e que é do melhor interesse da empresa. Devem estar disponíveis múltiplos canais para comunicar estas preocupações, para que os colaboradores tenham a opção de escolher aquele com que se sentem confortáveis. É também extremamente importante que as empresas protejam os denunciantes de retaliações.

Estes objetivos podem ser alcançados com o enquadramento de governance correto, que incute e assegura independência e confidencialidade. É necessário criar programas de formação e sensibilização para facilitar uma cultura aberta e transparente. Os programas de denúncia constituem um pilar fundamental do quadro de governance empresarial da organização, e a gestão e supervisão do conselho de administração serão cruciais para o seu sucesso.

Os programas de denúncia constituem um pilar chave do quadro de governance empresarial da organização, e a supervisão da gestão e do conselho de administração será crucial para o seu sucesso.

3. Aumentar o foco na proteção de dados e de ataques informáticos

A COVID-19 tem aumentado o risco de falhas de segurança informática, dada a crescente dependência da Internet e do trabalho remoto, por parte das empresas. Esta dependência crescente pode levar os cibercriminosos a explorar as vulnerabilidades de redes fracas e a visar colaboradores insuspeitos. A proteção de dados surgiu assim como uma prioridade e a maioria das empresas internacionais está a implementar uma série de práticas e políticas de proteção de dados em conformidade com os regulamentos aplicáveis.

Em jeito de incentivo, o relatório da EY salienta que mais de metade (55%) das empresas em mercados emergentes oferecem formação aos colaboradores sobre como prevenir falhas de segurança nos dados – em comparação com apenas 45% das empresas em mercados desenvolvidos.


            Instrumentos em vigor no caso de existir qualquer violação de dados

Os governos estão a tomar medidas para introduzir legislação que delineia e clarifica as responsabilidades das empresas em matéria de proteção de dados e as sanções por não cumprimento.2 Este ano, por exemplo, entrou em vigor a Lei Geral de Proteção de Dados do Brasil. Visa unificar 40 estatutos diferentes que antes regiam dados pessoais online e offline.3 Entretanto, na Índia, estão em marcha propostas para uma Lei de Proteção de Dados Pessoais, uma lei importante para controlar o tratamento de dados dos cidadãos.4

As empresas em mercados emergentes precisam de estar na vanguarda do tratamento das questões de privacidade de dados e não apenas a reforçar controlos e processos, em linha com os mercados desenvolvidos. As organizações devem considerar a construção de uma framework de privacidade e proteção de dados, com uma forte orientação e apoio da direção e do conselho de administração. A comunicação e a sensibilização regulares devem ser levadas a cabo entre colaboradores, bem como com terceiros.

Devem também aproveitar as tecnologias certas como parte dos seus quadros de governance da informação, abrangendo dados de identificação, categorização, retenção ou eliminação e consolidação de dados. Os ataques podem ser desencadeados externamente ou através de falhas internas e as empresas precisam de adotar as mais recentes tecnologias e ferramentas para ajudar a identificar problemas e melhorar a vigilância.  

Mais de metade das empresas em mercados emergentes oferecem formação aos empregados sobre prevenção de falhas de segurança de dados – em comparação com apenas 45% das empresas em mercados desenvolvidos.

4. Abordar questões de integridade com parceiros externos

Os esforços das empresas para melhorar a integridade serão colocados em risco se os parceiros externos se envolverem em práticas pouco integras. Os dados do relatório revelam que as empresas que operam nos mercados emergentes estão cientes desta ameaça. Apenas 35% das empresas nos mercados emergentes estão muito confiantes de que os seus parceiros externos operam com integridade; na Malásia, esse número reduz para 25%. Com o trabalho remoto, operações e mobilidade limitadas, a COVID-19 tornou mais difícil avaliar riscos com terceiros.


            Comparação sobre integridade e diligência com terceiros

Conduzir a due diligence adequada antes de embarcar na ligação a um novo fornecedor externo é fundamental para mitigar riscos a longo prazo e cumprir com as normas legais. Estas verificações devem normalmente abranger informações recolhidas de fontes disponíveis ao público para verificar relatórios com resultados negativos na avaliação da integridade tais como envolvimento em litígios, incumprimento de empréstimos, falência, incumprimento regulatório e atividades criminosas. Pode-se assinalar potenciais áreas de preocupação, como sejam a omissão de diretores ou acionistas relevantes, informação limitada ou falta de histórico disponível e irregularidades em processos.

Parceiros externos que operam com integridade

35%

das empresas nos mercados emergentes estão muito confiantes que os seus parceiros externos operam com integridade.

As organizações devem fazer da due diligence com parceiros externos um exercício periódico e não apenas uma atividade pontual, uma vez que a natureza, tipo de riscos e âmbito regulatório vai evoluir continuamente com o tempo.

Os processos de integração de terceiros também devem ser considerados numa perspetiva de risco através de um contrato adequado, com direitos de auditoria contratual adequados. É também vital para as empresas fornecer formação contínua a terceiros sobre as leis e políticas a que devem aderir, incluindo certificações de conformidade nas suas jurisdições.

  • Sobre o estudo

    Entre janeiro e fevereiro de 2020, as nossas equipas de investigação — a agência global de estudos de mercado Ipsos MORI – realizaram 2.948 inquéritos na língua local, com membros de direções, gestores de topo, gestores e colaboradores numa amostra das maiores organizações e organismos públicos em 33 países e territórios em todo o mundo. Destes, 1.730 inquéritos foram conduzidos em 21 países com mercados emergentes, incluindo: Brasil, China, Índia, Quénia, México, Nigéria, Polónia, Rússia, Arábia Saudita, Singapura, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Argentina, Chile, Colômbia, Malásia, Turquia, Lituânia, Letónia, Estónia e Peru. Outros 600 inquéritos foram realizados em abril de 2020 utilizando o mesmo perfil de inquiridos em toda a China e Índia, assim como na Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA já durante a pandemia da COVID-19.

Resumo

A generalização das questões de má conduta nos mercados emergentes estão a criar ansiedade nos líderes empresariais que investem e operam em todas estas geografias. De acordo com o último Global Integrity Report da EY – uma perspetiva dos mercados emergentes (pdf), as empresas que operam em mercados emergentes estão a fazer um esforço concertado para reduzir a má conduta e enfrentar os desafios de integridade. Contudo, existe uma necessidade ética, estratégica e financeira de fazer mais para estabelecer uma cultura de integridade.

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por Arpinder Singh

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