Os empreendedores tendem a recorrer a transações para criar opções. Desinvestimentos, carve-outs, vendas a investidores e alianças seletivas podem simplificar os negócios, liberar capital, reduzir a complexidade da gestão ou criar um novo caminho para o crescimento. A comparação com os CEOs é útil neste contexto. Os CEOs de grandes empresas tendem muito mais a buscar fusões e aquisições (M&A), alianças e joint ventures, enquanto os empreendedores dão mais ênfase às opções relacionadas à alienação de ativos e à flexibilidade de capital.
Isso não significa que os empreendedores sejam menos estratégicos. Isso significa que a lógica de transações dessas empresas é mais sensível ao capital. Ao avaliarem aquisições ou alienações, a exposição a riscos geopolíticos ou regulatórios, a qualidade das margens, a tecnologia e a capacidade em inteligência artificial, as sinergias, a intensidade de capital e a avaliação ocupam posições muito próximas na hierarquia de prioridades. Essa tendência aponta para uma abordagem disciplinada na gestão de portfólio, mesmo entre as empresas mais jovens. Os empreendedores estão se perguntando não apenas como crescer, mas também que tipo de crescimento é viável em termos de financiamento, resiliente e gerenciável.
Mas é a lacuna nas joint ventures e nas alianças estratégicas que mais preocupa. Os CEOs de empresas consolidadas são muito mais propensos a buscar alianças estratégicas, 57% contra 32% no caso dos empreendedores, e joint ventures, 45% contra 26%. No entanto, as empresas empreendedoras podem ser exatamente aquelas com as quais as grandes empresas buscam estabelecer parcerias.
Para os empreendedores, os argumentos a favor das parcerias não se limitam apenas ao acesso ao mercado. Uma aliança bem estruturada com uma empresa de maior porte pode ajudar a preencher as lacunas de capacidade que, muitas vezes, se tornam mais visíveis à medida que a empresa cresce. Entre elas estão a experiência em regulamentação, a disciplina em compras, vendas, resiliência na produção, maturidade cibernética, infraestrutura financeira e de prestação de contas, distribuição internacional, gestão de riscos e governança de IA. Para uma empresa em expansão, esses recursos podem ser caros e demorar muito para serem desenvolvidos por conta própria. Uma parceria pode proporcionar acesso a esses recursos sem a perda de controle que pode advir de uma venda ou a intensidade de capital que pode estar associada a uma aquisição.
Há também um benefício cultural e relacionado ao modelo operacional. Os empreendedores trazem agilidade, proximidade com o cliente, foco no produto e disposição para experimentar. As grandes empresas trazem consigo processos, governança, disciplina em matéria de conformidade, capacidade financeira e experiência na expansão para diversos mercados. As parcerias eficazes não tentam diluir nenhuma das partes. Elas criam uma estrutura na qual a agilidade empreendedora é preservada, ao mesmo tempo em que a disciplina corporativa é incorporada de forma seletiva. Isso pode ser particularmente valioso em áreas como a IA, onde muitos empreendedores estão investindo pesado, mas ainda não dispõem de métricas consistentes para avaliar o valor da empresa. Um parceiro corporativo pode ajudar a transformar projetos-pilotos em casos de uso regulamentados, mensuráveis e escaláveis.
O contexto político também está evoluindo nessa direção, principalmente na Europa. O relatório de Mario Draghi sobre a competitividade na Europa 5 defende que o continente não carece de potencial empreendedor. Conforme afirmado no relatório: “O problema não é que a Europa careça de ideias ou de ambição.” A questão é a próxima etapa, na qual a inovação deve ser comercializada, financiada e ampliada. O relatório de Enrico Letta6 chega a uma conclusão semelhante sob a perspectiva do Mercado Único. O documento argumenta que o modelo europeu “se baseia na ligação vital entre grandes e pequenas empresas” e que o Mercado Único deve apoiar melhor a expansão e o crescimento das empresas europeias.
Isso levanta uma questão importante para os empreendedores. Se governos, grandes empresas e investidores estão todos buscando maneiras de acelerar os ecossistemas de scale-up, por que os empreendedores não estão apostando mais em alianças e joint ventures? Uma resposta pode estar no controle. Os fundadores podem temer que as parcerias corporativas retardem a tomada de decisões, desviem a atenção da administração ou criem dependência em relação a uma contraparte muito maior. Esses riscos são reais. Alianças mal concebidas podem se tornar complexas, desiguais e causar distrações.
Essa abordagem cautelosa em relação às parcerias reflete a pressão que muitos fundadores enfrentam para agir rapidamente, preservar a agilidade e manter o controle, ao mesmo tempo em que operam com equipes mais enxutas e recursos gerenciais limitados.
Mas os riscos podem ser administrados. Os empreendedores devem abordar as alianças com a mesma disciplina que aplicam ao capital. Uma parceria deve ter uma tese de valor definida e um número reduzido de indicadores que demonstrem se ela está aumentando a receita, reduzindo custos, acelerando o tempo de lançamento no mercado, melhorando a resiliência ou fortalecendo a posição estratégica da empresa.
Os empreendedores já estão usando transações para terem mais flexibilidade. O próximo passo é usar as parcerias de forma mais estratégica para trabalhar com um alcance maior. Para muitas empresas em crescimento, a aliança estratégica adequada pode ser menos uma opção de recurso e mais uma peça que falta no modelo operacional.