À medida que as empresas enfrentam uma pressão cada vez maior para medir a criação de valor a longo prazo, o principal desafio é como extrair significado de seus dados.
Houve um tempo em que um relatório anual demonstrava o valor de uma empresa para seus acionistas por meio de uma carteira de pedidos sólida, um balanço patrimonial saudável e um histórico de dividendos atraentes. Mas o cenário mudou nos últimos anos, e as empresas agora enfrentam a necessidade de expressar o valor corporativo em um nível mais amplo.
Está ocorrendo uma transição do capitalismo dos acionistas (em que a prioridade absoluta é proteger o valor para os acionistas) para o capitalismo das stakeholders, no qual o foco está em demonstrar a um público muito mais amplo — incluindo clientes, funcionários, investidores e órgãos reguladores — que a empresa está criando valor a longo prazo.
Seja porque a geração millennial está impondo uma mudança de valores em direção a uma abordagem empresarial mais responsável e socialmente consciente, seja como consequência de falências corporativas de grande repercussão, o foco mudou. Já não se trata apenas de maximizar os lucros; a transparência, a sustentabilidade e a inclusão fazem cada vez mais parte dos critérios gerais de avaliação do sucesso.
A não consideração desses elementos ao avaliar o valor a longo prazo poderia afetar os investimentos, o recrutamento, a reputação e, em última instância, a produtividade e o lucro. Vivemos em um ambiente cada vez mais participativo, no qual as stakeholders exigem mais informações em um leque mais amplo de assuntos. E, em um mundo digital, eles querem que esses dados sejam atualizados a cada minuto e estejam prontamente disponíveis.
Níveis de dados
De acordo com o Embankment Project for Inclusive Capitalism (EPIC), os indicadores-chave de desempenho (KPIs) para medir o valor a longo prazo basear-se-ão cada vez mais em quatro áreas principais: talento; inovação e tendências de consumo; sociedade e meio ambiente; e governança. As stakeholders desejam clareza sobre como esses KPIs podem orientar o planejamento estratégico, a gestão de riscos, a remuneração dos executivos, as operações sustentáveis, o crescimento dos negócios e o valor corporativo de longo prazo.
No entanto, um dos desafios enfrentados pelas empresas que buscam apresentar relatórios sobre o valor de longo prazo é a enorme quantidade de dados disponíveis e a forma de extrair significado deles. Para compreender a magnitude desse desafio, considere que os dados em nosso universo digital global estão dobrando de tamanho a cada dois anos¹.
Nesse contexto, a inteligência artificial (IA) poderia vir a ser o fator decisivo, com a capacidade de interpretar esses dados e identificar indicadores significativos. Por meio da IA, a análise de quantidades colossais de informações poderia ser instantânea e personalizada.
A mineração de dados pode ajudar a analisar grandes volumes de dados e a classificar informações. Por exemplo, ele pode ser utilizado para analisar um grande volume de patentes e classificá-las em “agrupamentos qualitativos”: incrementais, adjacentes, disruptivas e assim por diante. A análise preditiva também poderia ajudar a analisar o comportamento do mercado e dos consumidores, além de fornecer tendências e previsões.
O fato de as empresas poderem utilizar essa tecnologia para avaliar, em tempo real, aspectos de suas atividades, tais como valor financeiro, produção, desempenho da equipe, gestão de custos e sustentabilidade, representa um enorme avanço. No passado, medir o valor era extremamente oneroso e demorado. Os dados fornecidos aos analistas apresentavam qualidade variável e, muitas vezes, não havia estrutura ou parâmetros definidos para o processo. No futuro, as empresas deverão poder utilizar KPIs em tempo real, o que resultará em resultados em tempo real.
A IA como facilitadora
Mas a IA não é a “solução milagrosa”; trata-se, simplesmente, de um facilitador para apoiar a geração e a análise de novas métricas.
Além disso, as empresas ainda se encontram em um estágio muito inicial no que diz respeito à definição de sua abordagem em relação aos indicadores de valor de longo prazo. Eles devem encontra rum equilíbrio viável entre os KPIs táticos e estratégicos; os KPIs operacionais e financeiros; e os KPIs que reflitam efetivamente o momento atual, ao mesmo tempo em que antecipem o futuro.
No momento, há uma dúvida quanto ao grau de preparação das empresas para adotar novos indicadores de governança corporativa, confiança do consumidor, inovação, talentos e meio ambiente, entre outros aspectos. Muitas organizações ainda não dispõem da “estrutura” adequada, dos recursos de coleta e agregação de dados, nem dos sistemas de geração de relatórios necessários.