Artigo: Capitalismo sob pressão precisa se reinventar em um mundo NAVI

22 mai. 2026

Crises recentes e percepção dos jovens de que capitalismo na sua forma atual mais prejudica do que beneficia exigem reformulação urgente do modelo em um mundo cada vez mais não linear, acelerado, volátil e interconectado

O capitalismo está prosperando. Ele está fazendo exatamente o que é incentivado a fazer. Ele aloca capital de forma eficiente para atividades que oferecem os maiores retornos financeiros de curto prazo. Ele recompensa a escala e o domínio de mercado. A longo prazo, o sucesso do capitalismo é inigualável. O mundo acaba de comemorar mais um aniversário da publicação do livro A Riqueza das Nações, de Adam Smith, que imaginou um sistema no qual o interesse próprio individual, disciplinado pela concorrência e pelo sentimento moral, poderia gerar prosperidade coletiva.

Pouco depois de sua publicação, após séculos de estagnação, o PIB per capita global começou a aumentar no início do século XIX, crescendo continuamente de US$ 1.500 em 1820 para mais de US$ 24.000 atualmente. Paralelamente, a pobreza global caiu de cerca de 87% da população global em 1820 para 16% atualmente. Mas, nas últimas décadas, as falhas no sistema tornaram-se visíveis. A crise financeira global de 2008-2009 destacou os riscos associados à engenharia financeira e falta de transparência. Com isso, os protestos populares contra o capitalismo e a desigualdade econômica ganharam apoio. Os esforços para deter as mudanças climáticas mostram como o capitalismo externaliza, ou até mesmo ignora, os custos que não são precificados pelos mercados.

E há indícios de que as novas gerações não apoiam o sistema atual. Na verdade, 55% dos jovens de 18 a 34 anos de idade em uma pesquisa em vários países dizem que o capitalismo prejudica mais do que beneficia em sua forma atual. Até mesmo nos EUA, frequentemente vistos como uma das principais economias capitalistas de livre mercado, apenas 43% dos que estão nessa faixa etária têm visão positiva do capitalismo.

Esses problemas do atual sistema capitalista exigem atenção urgente em um mundo cada vez mais não linear, acelerado, volátil e interconectado (NAVI). Nesse ambiente operacional, construir resiliência para potenciais choques é crucial. Mas os incentivos do capitalismo estão desalinhados com a resiliência e a criação de valor a longo prazo.

Esse desalinhamento acarreta um risco real. As cadeias de suprimentos são um exemplo. Na última década, sucessivos choques expuseram a fragilidade da economia global. A pandemia de COVID-19, os conflitos geopolíticos e as interrupções causadas pelo clima colocaram em dúvida o modelo de cadeias de suprimentos enxutas e just-in-time. As empresas aprenderam, muitas vezes de forma dolorosa, que a concentração excessiva em fornecedores ou regiões geográficas individuais cria vulnerabilidade sistêmica. Muitas reagiram diversificando as cadeias de suprimentos e trocando um pouco de eficiência por resiliência.

No entanto, outras partes da economia continuaram a se concentrar. O capital, a riqueza, o poder de mercado e os conjuntos de tecnologia são cada vez mais detidos por um conjunto restrito de empresas e indivíduos, deixando o sistema exposto a choques. Os 0,001% mais ricos possuem três vezes mais riqueza do que os 50% mais pobres da humanidade. As dez maiores empresas do MSCI (Morgan Stanley Capital International), que mede o desempenho de organizações de grande e médio portes com presença global, respondem por 25% da capitalização total do mercado.

Pressões crescentes

As pressões para fazer essas mudanças estão se intensificando. A fragmentação geopolítica se acelerou, com a intervenção comercial e a política industrial remodelando os fluxos globais de mercadorias, capital, talento e inovação. As realidades demográficas estreitam os mercados de trabalho em algumas regiões e restringem as oportunidades em outras. Atualmente, apenas 52% dos empregadores afirmam que é fácil para sua empresa encontrar o talento global necessário para atender às necessidades do negócio.

Os limites do clima e da biodiversidade estão sendo ultrapassados, transformando os riscos físicos em custos econômicos diretos. Eventos climáticos extremos custaram para a economia global mais de US$ 2 trilhões na última década. E a tecnologia, especialmente a IA, está ampliando os efeitos de rede da dinâmica do vencedor leva a melhor mais rapidamente do que as instituições podem responder. As "Magnificent 7" (as maiores empresas de tecnologia voltadas para IA) representaram 33% da capitalização de mercado da S&P 500 e mais de 40% de seus retornos em 2025.

Nos próximos artigos, apresentaremos um caminho pelo qual o capitalismo pode se adaptar e evoluir. Não se trata de descartar a ideia de maximização do lucro, mas de complementá-la. Os governos se concentrariam em investimentos de longo prazo em seus cidadãos, infraestrutura e economias. Os investidores alocariam o capital de forma mais ampla, com ênfase na diversificação, resiliência e ganhos de longo prazo. As empresas teriam a prerrogativa ampliada de maximizar o valor para todos os stakeholders. O resultado? Um sistema capitalista reequilibrado no qual o capital e os recursos são alocados para otimizar a criação de valor mais ampla a longo prazo.

*Este artigo faz parte da série EY Megatrends. As megatendências são rupturas macroeconômicas impulsionadas pela intersecção de duas ou mais forças primárias, como tecnologia, demografia, sustentabilidade e geopolítica.

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