O capitalismo tem se mostrado eficaz na mobilização de investimentos, na promoção da inovação e no aumento da eficiência. A pressão competitiva e os sinais de preço incentivam as empresas a inovar, reduzir custos e alocar recursos para seus usos mais produtivos. Entretanto, quando o valor é de longo prazo, difuso ou difícil de monetizar, ele pode levar a um subinvestimento em resiliência, sustentabilidade, capital humano e infraestrutura social. Isso não é uma falha do capitalismo, mas um reflexo de como as estruturas de incentivo atuais moldam o comportamento. Há cada vez mais dúvidas sobre se a estrutura de incentivos para o capitalismo é adequada ao propósito.
A resposta não é substituir o capitalismo por um sistema alternativo. Trata-se de reconhecer onde o equilíbrio se deslocou demais e como os incentivos podem ser redesenhados para restaurar o equilíbrio. A questão não é se o capitalismo deve se adaptar, mas como e quando. Isso leva a uma questão prática, e não filosófica: se o sistema atual fornece exatamente o que seus incentivos recompensam, como esses incentivos poderiam mudar – para empresas, investidores e governos – para alocar capital e recursos de forma diferente?
Há várias maneiras pelas quais os incentivos poderiam ser alterados para levar a diferentes sistemas econômicos. Em um cenário extremo, o aumento da desigualdade, a dinâmica do "quem ganha leva" impulsionada pela IA, os choques climáticos e a erosão da confiança institucional levam a protestos sociais e revoluções políticas – e, por fim, ao colapso do sistema capitalista. Essa mudança abrupta destrói grande parte do valor que foi criado.
Em outro cenário, os governos buscam as metas de segurança econômica e autossuficiência de forma mais significativa. A intervenção do governo nas economias – inclusive por meio de políticas industriais, restrições comerciais e de investimento e a criação de campeões nacionais e empresas estatais – em todo o mundo pode continuar a crescer. Isso poderia levar a um sistema capitalista estatal no qual os governos dirigem a atividade econômica ou têm recursos produtivos significativos, com o setor privado desempenhando um papel menor na criação de valor.
O caminho do capitalismo reequilibrado
Há um terceiro caminho. Os incentivos poderiam ser adaptados, introduzindo novos e aposentando os ultrapassados, para aproveitar parte do impulso já existente em direção a uma alocação mais diversificada de capital e a investimentos de base ampla em capital financeiro, humano e natural.
Esse capitalismo reequilibrado preservaria o papel central dos mercados e dos preços e, ao mesmo tempo, expandiria as partes do sistema que são precificadas nesses mercados. E expandiria os incentivos em torno da alocação de capital para otimizar tanto o lucro de curto prazo quanto a criação de valor de longo prazo.
*Este artigo faz parte da série EY Megatrends. As megatendências são rupturas macroeconômicas impulsionadas pela intersecção de duas ou mais forças primárias, como tecnologia, demografia, sustentabilidade e geopolítica.