Seis em cada dez gestores de riscos de bancos estão preocupados com risco de crédito

08 jun. 2026

Essa situação, conforme aponta estudo da EY e do IIF, é reflexo do crescimento da inadimplência de consumidores e empresas, como tem sido observado no Brasil

O risco de crédito ocupa a segunda posição em um ranking formado por 14 riscos identificados para os bancos nos próximos 12 meses, tendo sido escolhido por 62% dos entrevistados na edição deste ano do estudo global da EY e do IIF (Institute of International Finance) com CROs (Chief Risk Officers) de instituições financeiras.

“Isso é reflexo do crescimento da inadimplência de pessoas físicas e jurídicas, movimento que tem sido observado, por exemplo, no Brasil”, diz Rui Cabral, sócio-líder de risco e finanças para o setor financeiro da EY Brasil. “O país está neste momento com quase 83 milhões de inadimplentes, o equivalente a 50,5% da população adulta. Ao analisar esse número com o de recuperações judiciais e extrajudiciais que temos visto entre as empresas, é possível dizer que há elementos mais do que suficientes para essa preocupação com o risco de crédito registrada pelo estudo”, completa.

Três em cada dez respondentes apontam que o principal risco financeiro está no risco de crédito do varejo para os próximos 12 meses. Essa mesma proporção tem uma percepção diferente, considerando que está espalhado por todos os setores. Entre os CROs de G-SIBs, classificação que reúne as maiores e mais complexas instituições financeiras do mundo, consideradas grandes demais para falir (da expressão em inglês “too big to fail”), 50% apontam que o risco de crédito geral – ou seja, espalhado em todos os setores – representa o principal risco financeiro para esse período, enquanto 17% dizem que se trata do risco de crédito de varejo. Para 83%, ainda segundo a pesquisa, as condições macroeconômicas, como inflação e taxa de juros, representam a principal força externa que está influenciando a agenda dos CROs. 

“A geopolítica tem participação relevante na instabilidade macroeconômica global, com necessidade de manter juros mais altos para controlar os efeitos inflacionários causados pela guerra dos Estados Unidos e de Israel com o Irã. O estudo ressalta que os CROs veem a geopolítica como um elemento transversal que potencializa diversos riscos, como o de crédito”, explica Cabral. No momento de realização da pesquisa, a guerra dos EUA e de Israel com o Irã ainda não tinha começado, mas o tarifaço já tinha sido aplicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, tendo sido capturado pelos resultados. “É preciso acompanhar esses desdobramentos para a indústria financeira, já que conflitos militares e mudanças nas relações comerciais entre os países afetam a economia como um todo, especialmente setores sensíveis a essas mudanças como o financeiro. Os reflexos geopolíticos de médio a longo prazo continuam incertos, o que traz apreensão para os mercados”, observa.

Participaram do estudo da EY, em parceria com o IIF, 101 bancos de 31 países, por meio das respostas de CROs. Os bancos contemplados são diversos em termos de tamanho de ativos e alcance geográfico, com 10% deles na categoria G-SIBs. As instituições pesquisadas têm suas sedes na América do Norte, representando 30% do total, seguidas por Ásia-Pacífico com 20%; Europa com 20%; América Latina com 20%; e Oriente Médio e África com 10%.

Impactos da geopolítica

Como principal impacto geopolítico, os executivos apontam mudanças nas políticas de comércio e nas tarifas, como restrições ou sanções econômicas, com 74% das respostas. Na sequência, com 68%, aparecem as ameaças de cibersegurança e as hostilidades digitais. A terceira e quarta posições são ocupadas por mudanças na política fiscal, como nível de endividamento do país, com 53%, e instabilidade política ou de governo, com 36%. Já em relação a como responder a esses impactos, mitigando os efeitos geopolíticos, 82% dos entrevistados apontam fortalecimento dos planos de resiliência e 67% das medidas de cibersegurança.

“Os CROs nas instituições financeiras consideram que as condições em 2026 vão continuar incertas, da mesma forma que nos anos anteriores. Nesse contexto, eles têm investido tempo e recursos para entender como seus bancos podem se adaptar a esse ambiente mais restritivo para investimentos”, diz Cabral. “Isso exige, entre outras ações, a análise criteriosa do crédito concedido a consumidores e empresas, o chamado crédito privado, mitigando assim o risco de inadimplência, que se encontra em patamar mais elevado do que em outros períodos”, finaliza.

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