Impactos da natureza e do clima nos negócios assumem protagonismo nos debates da London Climate Week Action
 

02 jul. 2026

América Latina teve papel ativo nos debates climáticas como peça importante nas soluções da agenda climática em um mundo de incertezas e conflitos geopolíticos

A agenda climática deixou a seara das pautas apartadas para se consolidar como o novo pilar de competitividade, atração de capital e infraestrutura econômica global. Essa é a principal avaliação de Ricardo Assumpção, sócio líder de sustentabilidade e CSO LATAM da EY, que esteve na London Climate Week Action, em junho.

O executivo detalha como a urgência climática — materializada por uma onda histórica de calor na capital britânica — está redesenhando as cadeias de valor, abrindo uma janela de oportunidade inédita para o Brasil "vender" seus ativos integrados e transformando discussões de sustentabilidade em pautas obrigatórias para CEOs e CFOs. 

Além disso, o cenário global fragmentado por tensões geopolíticas e barreiras comerciais, coloca holofote na América Latina e, em especial, o Brasil como possíveis líderes naturais na transição para uma economia de baixo carbono.

Ao contrário de edições anteriores, o protagonismo migrou das discussões isoladas sobre o meio ambiente para a prática de projetos "investíveis". Para Assumpção, o Brasil vive um momento de pujança no mercado de carbono e na integração de seus ativos naturais, mas precisa acelerar o passo: "Neste momento, precisamos de menos promessa e mais entrega".

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

1) Quais foram as principais mensagens dessa edição do evento?

Ricardo: O eixo central dessa London Climate Week foi que a agenda climática não entra só na agenda de risco, mas na agenda de negócios, de competitividade e de capital. Ela sai definitivamente daquela lógica que a gente viu nos últimos anos de serem apenas compromissos para temas que são fundamentais como resiliência, financiamento seguro e mercado de carbono, por exemplo. E, no final, tudo isso é infraestrutura econômica para a transição. 

A gente vê o clima ser infraestrutura econômica para a transição. Lá em Londres, tivemos uma onda de calor bem grande, que trouxe ainda mais materialidade para debatermos sobre o clima. Deu para ver, na prática, os impactos físicos do calor. Isso afetou desde os trilhos dos trens que dilataram e impactaram no funcionamento até a saúde e a produtividade das pessoas. No geral, isso é bem característico do que o clima faz com a economia.

Tivemos um desenho da nova fase da agenda climática, que é, definitivamente, uma agenda de ação, precificação de risco e mobilização do capital, remunerando o capital, protegendo os ativos e mantendo as empresas que investirem nisso mais competitivas.

2) Quais foram os temas bem endereçados e quais pontos ficaram de fora? 

Ricardo: O que mais vimos foram discussões sobre financiamento, resiliência, seguros, ativos que são seguráveis, mercado de carbono, energia. E, sobre todas elas, tivemos insights sobre qual vai ser o papel da IA nessas frentes. Também tivemos menos foco em frameworks e mais na prática em si de projetos ‘investíveis’, com risco alocado, retorno mensurável e escala em setor.

Citando alguns temas bem endereçados, a conexão entre clima e economia está muito clara, principalmente sob o aspecto do que um ativo precisa ter para ser assegurado do ponto de vista de seguro, além do custo do capital para a agenda do clima. Temos que pensar em ‘quais são os instrumentos que vão remunerar bem o dinheiro na agenda do clima?’. Outro tema foi mercado de carbono, mas com menos foco no volume de créditos disponíveis no mercado, e mais na parte de rastreabilidade, demanda, regra de uso e como a política pública afeta isso.

Pensando no que faltou, podemos citar que tivemos poucas discussões dos pipelines bancários, ou seja, como é que a gente reduz o custo de capital, principalmente para o sul global, que ainda tem um custo alto por conta dos juros, como o Brasil, por exemplo. Mais um pouco que precisamos endereçar melhor é como as pequenas e médias empresas, que fazem parte das grandes cadeias, vão entrar em definitivo no jogo.

3) De que forma as questões geopolíticas impactam nas negociações climáticas?

Ricardo: Os impactos são no coração das negociações. Primeiro, porque a energia limpa passou a ser, por um lado positivo, uma agenda de segurança energética, soberania industrial e competitividade. 

Segundo, porque as políticas industriais, de subsídio, tarifa, barreira comercial vão reorganizando as regras do jogo. Ou seja, as empresas passam a não ir para o mais barato, e sim para o mais seguro, mais resiliente, e isso envolve sustentabilidade. 

Terceiro é que existe uma tensão grande entre o Norte e o Sul Global, principalmente na parte de destino do dinheiro, adaptação e transferência de tecnologia. 

Agora, o fato é que a América Latina tem uma vantagem enorme: ela está fora dos conflitos e está muito mais próxima do lado da solução. Se a gente pensar que a agenda de clima é uma agenda de economia e de segurança, este momento pode ter um holofote importante para nossa região.

4) Como o Brasil está posicionado diante das principais pautas? E como você percebe o engajamento da iniciativa privada brasileira?

Ricardo: O Brasil está bem posicionado e, pela primeira vez, a gente consegue mostrar a nossa habilidade de combinar os ativos naturais nas quatro agendas centrais: natureza, agricultura, energia limpa e mercado de carbono. Antes, não conseguíamos combinar esses ativos para ‘vender o Brasil’. Hoje, o cenário mudou e qual é a vantagem disso? A gente consegue, por exemplo, mostrar para o mundo que temos capacidade de estruturar políticas de longo prazo e isso reduz risco e custo de capital.

A agenda privada brasileira está muito mais engajada, principalmente finanças, seguro, agro, mineração. Conseguimos mostrar o papel do Brasil como exportador de commodity, por um lado, mas também como exportador de produtos de baixo carbono, usando a matriz energética para se reindustrializar. As grandes empresas já entenderam que isso é uma baita oportunidade.

Claro que a gente ainda precisa colocar isso implementado nas cadeias como um todo, mas o Brasil está muito bem posicionado. A gente precisa, nesse momento, de menos promessa e mais entrega. 

5) Tivemos avanços em relação ao mercado de carbono? E como o Brasil pode se beneficiar disso?

Ricardo: Tivemos sim e, principalmente não tivemos grandes mudanças, o que significa que estamos trabalhando para consolidar o que temos. Pela primeira vez, presenciei um debate real de uma certificadora brasileira com fungibilidade, com apoio dos bancos brasileiros e refletindo a realidade do mercado brasileiro.

Com esse amadurecimento, o foco passa a ser não só geração de ação de crédito de carbono, mas também de instrumentos e infraestrutura para você conseguir dar confiança e reconhecimento para esse mercado também, o que é altamente relevante para o Brasil. 

Falamos muito sobre mensuração, rastreabilidade, como ter ativos segurados, mas o ponto alto é estabelecer uma governança. Quando a gente fala de mercado de carbono, a gente está falando de um conjunto de coisas: o SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões), o mercado formal, além do mercado voluntário. 

Então, o Brasil tem alguns anos de pujança para se posicionar como líder no mercado de carbono global, que é o instrumento mais conhecido para conseguirmos entrar numa economia real de baixo carbono.

6) A natureza e os ativos naturais continuam como temáticas centrais na agenda?

Ricardo: Sim, mas o que eu mais gostei é que a discussão de clima e natureza não foi protagonista. Isso significa que o protagonismo ficou na discussão de negócio, setores, alocação de capital, retorno e como o clima impacta tudo isso. Então, não foram discussões isoladas de clima e de natureza, foram discussões integradas. A discussão passou muito mais por segurança hídrica, segurança alimentar, segurança energética, oportunidades de investimento e clima como a alavanca de adicionar ou destruir valor.

7) A inteligência artificial tem sido a grande pauta dos últimos anos. Como a IA foi integrada às discussões do evento? 

Ricardo: Sobre a IA, temos duas dimensões muito grandes: a primeira é como uma ferramenta para acelerar as soluções de modelagem climática, análise de risco físico, rastreabilidade de cadeia, eficiência energética e, claro, uma transformação completa na parte de reporting e de accountability. Tudo isso é fundamental para a tomada de decisão. Então, a IA vem como uma alavanca para melhorar muito a qualidade dos dados e velocidade para a tomada de decisão.

A segunda é o vetor de impacto. Os data centers consomem energia, água e território de uma forma absurda. Dessa forma, teve muita conversa em relação à isso, o tipo de governança que a gente precisa estruturar e como é que a gente consegue criar projetos que ajudam os clientes a serem mais eficientes nesses temas, o que também é uma ótima oportunidade para a EY.

8) Considerando os desdobramentos da LCAW, como a EY pode dar suporte aos seus clientes considerando o cenário atual e as tendências?

Ricardo: E, emendando com essa questão, hoje, mais do que nunca, a EY tem uma oportunidade enorme de ajudar os clientes a entenderem como é que os investimentos feitos em sustentabilidade estão retornando e impactando o balanço e o caixa da empresa. Trata-se de uma conversa que tem que sair do CSO e ir para o CFO e para o CEO. E, mais do que nunca, isso vai acontecer. 

Como eu falei, as discussões não podem mais girar em torno de clima e de natureza, elas têm que girar em torno dos negócios e como esses negócios são impactados por clima e por natureza. O papel da EY é ajudar os clientes a saírem da sustentabilidade como obrigação e entrarem na sustentabilidade porque é uma infraestrutura econômica de geração de valor e garantia de competitividade.

 

 

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