A “geopolítica e comércio internacional” representa o terceiro maior risco para empresas inseridas nas cadeias agrícolas brasileiras, de acordo com a percepção dos executivos entrevistados no estudo “Top 10 riscos e oportunidades no agro em 2026”, elaborado pela EY. Apesar desse risco considerado elevado, o assunto é classificado por esses mesmos entrevistados como tendo ainda baixo nível de preparação das empresas para lidar com suas consequências.
“Episódios como a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros pelo governo dos Estados Unidos e as retaliações do governo chinês sobre produtos agrícolas estadunidenses evidenciam como disputas entre grandes economias podem reconfigurar, em pouco tempo, fluxos de comércio, preços relativos e competitividade do agronegócio”, diz Otavio Lopes, sócio-líder de agronegócio da EY.
É por isso que o executivo destaca a relevância de incorporar risco geopolítico e de comércio internacional à matriz de riscos corporativos e ao planejamento estratégico, simulando cenários de tarifas, embargos, choques de insumos e realocação de demanda global para embasar decisões sobre mercado-alvo, investimento em novas regiões, parcerias e contratos de longo prazo. “Em um cenário em que o Brasil é protagonista nas exportações agrícolas, mas opera em um ambiente sujeito a disputas comerciais, conflitos, choques de insumos e novas exigências regulatórias, a capacidade de ler a geopolítica e traduzir essa leitura em decisões de portfólio, contratos e mitigação de risco torna-se fator crítico de competitividade”, completa.
Nas últimas décadas, o Brasil se consolidou como uma potência exportadora de produtos agrícolas, liderando o saldo comercial em diversas cadeias e fazendo do agronegócio o principal responsável pelo superávit da balança comercial do país. Segundo a OMC (Organização Mundial do Comércio), o Brasil detém o maior saldo comercial agrícola do mundo, com superávit de cerca de US$ 143 bilhões em 2024, enquanto países como China, Japão, Reino Unido e Coreia do Sul registram grandes déficits, com destaque para a China, cujo déficit agrícola alcança US$ 190 bilhões.
“Esse avanço ocorre tanto pelo aumento da produção quanto pela abertura de novos mercados, aproveitando o crescimento do consumo global de alimentos, especialmente na China, que hoje responde por mais da metade das exportações agrícolas brasileiras, com destaque para soja e carne bovina. A contrapartida desse sucesso é um grau elevado de dependência das exportações e do ambiente geopolítico”, observa Otavio.
Ainda segundo o levantamento da EY, outro desafio enfrentado pelo Brasil é a dependência de insumos importados críticos para o agronegócio, como fertilizantes e defensivos, que podem sofrer restrições de fornecimento por causa de conflitos, sanções e choques geopolíticos. “A guerra na Ucrânia, por exemplo, reduziu a produção agrícola local e, combinada à ameaça de sanções à Rússia, impactou diretamente o mercado global de fertilizantes”, finaliza o executivo.
Como responder a esses desafios
O estudo da EY traz algumas medidas para que o agronegócio responda a esses desafios próprios da geopolítica. Estão entre eles a diversificação de mercados, origens e fornecedores; a incorporação de cláusulas de regionalização e flexibilidade contratual; e o fortalecimento da rastreabilidade e conformidades sanitária e ambiental.
Ao fazer isso, as empresas reduzem a exposição excessiva a poucos mercados compradores e a um número restrito de fornecedores de insumos críticos, diversificando destinos de exportação, locais de produção e fontes de suprimento para aumentar a resiliência a choques geopolíticos. Além disso, ao adicionar previsão de embargos sanitários regionais, elas evitam que incidentes localizados resultem em bloqueio em todo o país. Por fim, para evitar embargos como esse, o investimento em rastreabilidade e em aderência rigorosa a requisitos sanitários e ambientais dos países importadores contribui para reduzir o risco de barreiras não tarifárias, melhorando a eligibilidade a mercados exigentes e ampliando a capacidade de resposta a novas exigências.