A partir do segundo semestre, o Brasil estará sujeito a um dos cenários de El Niño mais intensos já registrados, de acordo com a previsão do Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (BESM 3.0), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). A entidade aponta para aquecimento excepcional das águas do Pacífico Equatorial até o fim deste ano. Esse evento trará repercussões sobre o índice pluviométrico e as temperaturas em diferentes regiões do país. Com a mudança desses padrões, o agronegócio será bastante impactado, podendo resultar em quebra de safra. As mudanças climáticas representam a maior ameaça neste momento, com 79% dos executivos do setor entrevistados pelo estudo “Top 10 riscos e oportunidades no agro em 2026”, elaborado pela EY, avaliando esses riscos como altos ou muito altos e com o tema aparecendo como aquele em que se sentem menos preparados para responder.
“É justamente essa capacidade rápida e estruturada de resposta que será determinante para que as empresas do agro permaneçam competitivas no Brasil e no mundo”, diz Otavio Lopes, sócio-líder de agronegócio da EY. “Eventos como o El Niño não podem ser encarados como novidade em um contexto de aumento da temperatura global de forma consistente nos últimos anos. No ano retrasado, a média de temperatura ficou cerca de 1,82°C acima da registrada no século XX. Foi o nível mais alto da série histórica desde 1850, mesmo com o avanço de iniciativas de redução de emissões de gases de efeito estufa”, completa. No caso do El Niño, há um desafio adicional de seus efeitos não serem uniformes no Brasil, com algumas regiões enfrentando secas prolongadas e calor mais intenso, enquanto outras ficam mais expostas a enchentes e deslizamentos.
Ainda segundo o levantamento da EY, secas, enchentes, geadas, furacões e granizo, que afetam sistemas agrícolas em diversas regiões, contribuem para a elevada volatilidade dos mercados agrícolas internacionais por impactarem margens de produtores e empresas ao longo das cadeias. “Isso pode gerar inclusive perturbações no sistema alimentar global, ameaçando o bem-estar social e a estabilidade dos países, além de criar desafios para cadeias como alimentos e biocombustíveis, que dependem de produtos agrícolas como insumos”, observa Otavio.
Dificuldade de financiamento
Há ainda o impacto gerado sobre crédito, seguros e acesso a mercados. “O maior risco de quebra de safra tende a encarecer crédito e seguro agrícola”, diz o executivo. Com o crédito mais caro, cresce a preocupação de como os produtores agrícolas vão financiar suas atividades. Além disso, Otavio pontua que políticas ambientais; exigências ligadas a emissões e desmatamento; e a possibilidade de disrupções logísticas podem restringir ou encarecer o acesso a mercados e afetar operações industriais e comerciais das empresas do agronegócio.
Para responder a esses desafios criados pelas mudanças climáticas, o estudo da EY traz cinco ações que devem ser realizadas pelas empresas do setor. A primeira diz respeito ao ajuste ou revisão das práticas de produção, por meio do investimento em manejo de solo, irrigação e adaptação de variedades para mitigar os efeitos do clima sobre a produtividade e reduzir as vulnerabilidades a eventos extremos.
“A segunda sugestão de ação traz o aspecto da integração entre os negócios, por meio da criação de respostas conjuntas entre produtores, indústrias, tradings, distribuidores e outros elos, já que muitas medidas mitigadoras dependem de decisões compartilhadas e investimentos coordenados”, observa Otavio. Na sequência, como terceira ação, o levantamento traz a estruturação da gestão de risco climático. A incerteza própria desse contexto de mudanças climáticas precisa ser transformada em cenários e métricas, incorporando assim o risco climático à análise de viabilidade e às decisões sobre seguros, crédito e investimentos em novas regiões ou tecnologias.
A quarta ação é a revisão do financiamento e seguros sob a ótica climática. Para isso, é preciso considerar como o aumento de risco climático afeta custos e disponibilidade de crédito e seguro, buscando modelos que reconheçam práticas de mitigação e adaptação, bem como reduzam a exposição a ciclos de encarecimento ou restrição de financiamento.
Por fim, a agenda de descarbonização não pode ser desprezada. “Para isso, as empresas do setor precisam aproveitar políticas de mitigação de emissões, geração de créditos de carbono e expansão da demanda por biocombustíveis, como etanol, diesel e SAF (Combustível Sustentável de Aviação) para criar fontes de receita e diferenciação competitiva para cadeias agrícolas de menor impacto ambiental”, finaliza o executivo.