Estratégia das empresas frente à reforma tributária deve ser diferente para cada período até fim da transição

21 set. 2026

Em um ambiente dinâmico e incerto como o da reforma, com dificuldade de mensurar os impactos para os negócios, faz sentido traçar estratégias distintas durante o período da transição e depois dele, de acordo com executivos reunidos pela EY

As empresas têm se convencido de que o melhor caminho é contar com diferentes estratégias para o período de transição da reforma tributária e posterior a ele. O motivo é que, além do ambiente tributário dinâmico e das incertezas desse começo de implementação da reforma, as mudanças impactam o negócio como um todo. Isso significa que elas trazem reflexos para diversas áreas, como compras, jurídica, financeira e tecnologia, alterando desde a negociação diária com fornecedores até acordos comerciais de longo prazo. Como parte dessa transformação, é crucial acompanhar a movimentação dos concorrentes e das outras empresas da cadeia. 

O resultado disso está na dificuldade de manter uma estratégia tributária atualizada para todo o período da reforma, contemplando ao mesmo tempo a transição e a pós-transição. Essa foi a constatação dos executivos tributários de varejo presentes em evento da EY em São Paulo sobre os impactos da reforma para esse setor. 

“Há quem já conte com três estratégias diferentes: 2027/2028; 2029 a 2032; e a partir de 2033. Isso significa definir, por exemplo, os clientes que a empresa vai absorver mais margem e aqueles que ela vai monetizar mais em cima da reforma, podendo alterar essa dinâmica ao longo dos anos”, disse Natália Sperati, sócia de Consumer Products e Business Transformation da EY-Parthenon. “Essa definição de estratégias é necessária para alterar o foco das empresas em relação aos clientes, dependendo de como as margens de lucro se comportarem ao longo da transição”, completou. Ao fazer isso, ainda de acordo com a executiva, as empresas podem capturar o maior valor possível, separando aquelas que apenas estarão em conformidade com a reforma das que efetivamente sairão dela em um patamar superior de mercado.

Projeções

Para ajudar a mensurar esses impactos da reforma tributária, a EY desenvolveu uma calculadora que permite a visualização rápida e fácil do comportamento da empresa ao longo dos anos. No centro das simulações está o desafio da precificação, com a calculadora auxiliando a mensurar os impactos graduais até 2033, que marca o primeiro ano da reforma totalmente implementada, e permitindo projetar, no nível de cliente e produto, como as margens e a receita vão se comportar a cada ano. 

As simulações da calculadora permitem avaliar cenários distintos, como a manutenção do preço bruto pelo fornecedor (com absorção da carga tributária) ou o travamento do preço líquido (com repasse de impactos no fluxo de caixa e custos a partir de 2027). Essa precisão no detalhamento da "cascata de preço" se mostra vital porque contratos com diferentes clientes, como grandes redes varejistas, têm particularidades de descontos e majorações que afetam o resultado final.

“Por meio de uma base de dados parametrizada de acordo com as características da empresa, o usuário consegue ter visibilidade dos impactos em preço, em valor líquido do fornecedor, em custo, em comportamento da carga tributária e na majoração ou não de créditos tributários”, disse Jessica Boturão, gerente sênior de tributos indiretos da EY Brasil. Ela complementou dizendo ser possível visualizar o comportamento da empresa com os tributos atuais, o que é aproveitado de crédito e como vai ficar ao longo dos anos da transição. 

Negociação com fornecedores

Esses insumos da calculadora podem resultar em condições mais favoráveis para as empresas na negociação com fornecedores. O primeiro passo que tem sido dado pelas empresas é a realização de diagnósticos internos para mapear os impactos em cada etapa da operação. Nesse cenário, o setor de compras está entre os mais afetados, motivo pelo qual tem sido treinado pelas organizações para lidar com essas mudanças. O objetivo é que esses profissionais deixem de focar apenas no menor valor de entrada e passem a dominar a melhor estratégia tributária junto ao preço. 

“Buscamos primeiro fazer com que toda a empresa entendesse que a reforma não depende apenas do fiscal. Sendo assim, promovemos um diagnóstico com todas as áreas, como a de compras, identificando onde a reforma tem maior impacto em cada momento. Desse diagnóstico saiu nosso plano de ação, que está sendo aplicado neste semestre”, disse Sara Paiva, especialista fiscal da Fini Company, que participou do evento da EY. Para Gabriela Felipe, gerente fiscal da Fini Company, a revisão contratual está sendo desafiadora. “O jurídico tem nos ajudado nessa análise dos contratos com clientes, que têm uma série de particularidades. Para esse e outros desafios, está claro que o profissional de Tax precisa ter conhecimento cada vez mais abrangente, além de dominar a tecnologia, com destaque para IA”, afirmou.

Entre as preocupações trazidas pela reforma está a responsabilidade compartilhada introduzida por mecanismos como o split payment. Para mitigar riscos e evitar assumir multas e juros por inadimplência de terceiros, as empresas estão incluindo ou revendo as cláusulas de conformidade tributária nos contratos com fornecedores. “Em cada uma dessas ações voltadas para a reforma tributária, fica evidente a necessidade de conectar a visão dos profissionais tributários com a do CEO e dos C-Levels de cada área do negócio. As empresas que começaram bem na conformidade com a reforma estão priorizando isso”, concluiu Waine Peron, sócio-líder de impostos da EY Brasil, que também participou do evento da EY.

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