Pressão sobre as empresas do varejo não se limita à reforma tributária

23 set. 2026

Embora a reforma esteja entre as principais preocupações neste momento, o setor também busca reagir aos impactos geopolíticos; alto endividamento das famílias; e efeitos da tecnologia, com destaque para a inteligência artificial

A reforma tributária tem pressionado as empresas de varejo a rever todo seu negócio em um esforço que vai muito além do departamento fiscal. As equipes tributárias vêm atuando com a alta liderança e os C-Levels para tomar as melhores decisões sobre precificação, margem e estratégias comerciais. 

“Com o avanço da reforma tributária, que entrou em vigor neste ano, torna-se crucial mapear os impactos em preços; malha operacional, como a localização de fábricas, centros de distribuição e armazéns; capital de giro; entre outros aspectos de negócio”, disse Waine Peron, sócio-líder de impostos da EY Brasil, que participou do evento da EY em São Paulo para executivos tributários de varejo. Só que os desafios não se resumem à reforma, já que outros eventos também têm preocupado o setor do varejo, como instabilidade geopolítica, alto endividamento das famílias e dificuldade para usar a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, para obter resultados produtivos.

“O varejo é muito sensível ao nível de endividamento das famílias, que está muito alto. O Brasil tem trabalhado mais para trazer segurança ao credor na concessão do crédito do que para resolver o problema do endividamento dos consumidores. As classes C e D especialmente estão pagando juros mensais elevadíssimos em modalidades como o rotativo do cartão de crédito”, disse Cristiane Amaral, sócia da EY e líder do segmento de consumo, produtos e varejo para América Latina, que palestrou no evento. O endividamento em nível crítico, segundo a executiva, impossibilita qualquer repasse pelo varejo para o preço dos produtos ou serviços vendidos ao consumidor, que está sofrendo com o orçamento estrangulado. “Isso significa adicionar esse ponto de atenção ao planejamento de precificação em resposta à reforma tributária”, completou.

Em relação à geopolítica, com o fechamento do Estreito de Ormuz, o custo e o tempo de chegada dos insumos das matérias-primas aumentaram no mundo inteiro. “Para a indústria de beleza, esse tempo de chegada é crítico para a operação”, disse Cristiane, que destacou a necessidade de pelo menos 18 meses para a retomada do fluxo e preço normais depois da reabertura do Estreito. “Essa situação, no entanto, não dá indicação de que vá acontecer, motivo pelo qual as empresas, inclusive do varejo, devem estar preparadas para atuar nesse novo contexto econômico”, concluiu.

Por fim, a executiva chamou a atenção para a dificuldade do varejo de converter em vendas o alto investimento em IA. “Toda aquela história da personalização, com os algoritmos recomendando compras pela internet para os consumidores, não está até o momento entregando o ROI esperado pelas empresas”, disse Cristiane. Há ainda, na visão dela, um aspecto relevante de que, diante da perda gradual de benefícios fiscais por causa da reforma, que pode chegar a 5% ao ano, a compensação ocorra via ganhos reais de produtividade na operação. “No entanto, esse ganho de eficiência não ocorre do dia para a noite, dependendo da operacionalização digital e do uso das tecnologias voltadas a fábricas inteligentes, cujos resultados em ganho de escala costumam levar de seis meses a dois anos para se materializarem”, finalizou.

Para Fernanda Santos de Oliveira, head de Tax no Brasil da Sonepar, que também participou do evento, a reforma tributária se estende a todo negócio, relacionando-se inclusive com essas outras fontes de pressão sobre o varejo. “Temos feito acompanhamento e conscientização com todas as frentes do grupo, contando com o apoio da liderança. Esse alinhamento de comunicação garante que a reforma seja efetivamente trabalhada por todas as áreas”, disse. 

É o profissional tributário, na visão dela, que ocupa o papel de orquestrador da reforma nas empresas, precisando contemplar as mudanças não apenas da própria reforma ao longo dos anos de implementação como os impactos das transformações econômicas e tecnológicas nesse processo de conformidade. “Por esse motivo, o profissional de Tax precisa ser cada vez mais multidisciplinar e conhecedor de diversos mercados”, afirmou.

Busca por rentabilidade

As empresas de varejo precisam se voltar, na visão dos executivos que participaram do encontro da EY, para aumentar a rentabilidade dos seus negócios, utilizando a reforma tributária como uma oportunidade para isso. “O foco deixa de ser a receita por metro quadrado para se concentrar no maior valor extraído de cada real investido no ecossistema. Nesse modelo, por exemplo, as empresas colaboram e compartilham estruturas logísticas para a entrega de produtos de terceiros, gerando receitas adjacentes”, disse Cristiane.  Além disso, o setor tem investido no fortalecimento de marcas próprias para alavancar a frequência de compras e o tíquete médio, bem como em programas de fidelização diferenciados que oferecem serviços agregados.

Por fim, Carlos Fan, sócio de consultoria para bens de consumo da EY Brasil, que também palestrou no encontro da EY, destacou que as empresas precisam trabalhar com duas prioridades. “A primeira está no presente e se concentra em responder à seguinte pergunta: o que fazer agora para proteger minha operação, melhorando e otimizando o caixa e sendo relevante para meu cliente?”, disse. “A outra diz respeito ao futuro com a seguinte indagação: quais são as novas fontes de valor no mercado em que atuamos e como podemos nos preparar para aproveitá-las, inclusive do ponto de vista de novas tecnologias, a fim de ganhar participação de mercado?”, finalizou.

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