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Como o Corporate Venture Capital (CVC) e a inovação aberta estão redefinindo valor no Brasil?

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Empresas e investidores elevam o rigor na escolha de oportunidades, priorizando escala, eficiência e resultados concretos.

Por: Juan Warley, Gerente Sênior de Transactions & Corporate Finance da EY, e Mariana Romani, Diretora Executiva de Transactions & Corporate Finance da EY


Em resumo

  • O fluxo de recursos se concentrou em negócios mais preparados para ampliar operações e entregar resultados sustentáveis.
  • Tecnologias inteligentes e soluções financeiras estruturadas ampliaram sua relevância entre as principais apostas do período.
  • Grandes organizações reforçaram o uso de parcerias e aquisições para acelerar transformação e ampliar capacidades estratégicas.

O segundo trimestre de 2026 reforçou uma tendência que já vinha se consolidando no ecossistema brasileiro de inovação: o mercado continua investindo, mas de forma cada vez mais criteriosa. Em um cenário caracterizado por maior disciplina na alocação de capital, investidores e corporações priorizam ativos capazes de demonstrar escala, eficiência operacional e potencial concreto de geração de valor.

De acordo com o relatório Q2 de 2026 Ecossistema de Inovação Aberta & CVC no Brasil, realizado pela Sling Hub, o volume total investido em startups brasileiras alcançou US$ 1,71 bilhão no segundo trimestre, representando crescimento de 98% em relação ao trimestre anterior e de 83% quando comparado ao mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, o número de rodadas foi de 78 operações, volume ainda significativamente inferior ao registrado um ano antes, evidenciando um ambiente mais seletivo e concentrado em empresas com maior maturidade.

Baixe o relatório completo para mais detalhes.

Menos transações, mais qualidade

Os dados revelam uma mudança estrutural importante no comportamento dos investidores. O crescimento expressivo do capital investido ocorreu sem uma expansão proporcional no número de rodadas, indicando que recursos estão sendo direcionados a empresas mais consolidadas e com maior capacidade de execução. Essa dinâmica reflete um mercado mais racional e orientado por fundamentos.

O trimestre foi marcado ainda pela combinação de crescimento significativo do volume financeiro transacionado e redução do número de operações quando comparado ao ano anterior, reforçando a percepção de que investidores têm concentrado recursos em ativos de maior qualidade, escala e potencial de geração de valor.

Esse movimento tem sido acompanhado pelo aumento da relevância de instrumentos alternativos de financiamento, especialmente estruturas como FIDCs, que vêm assumindo papel importante na composição do volume total investido.

Seletividade, IA e consolidação continuam liderando a agenda
O segundo trimestre de 2026 se encerrou com crescimento do volume financeiro transacionado, avançando 98% em relação ao trimestre anterior (QoQ) e 83% na comparação anual (YoY). Em contrapartida, o número de transações, apesar da recuperação de 13% no QoQ, registrou queda de 32% frente ao mesmo período do ano anterior. Esse movimento evidencia um mercado mais seletivo, no qual investidores têm priorizado ativos de maior qualidade e escala, resultando em menos transações, porém com tickets médios mais elevados, além da crescente participação de estruturas alternativas de financiamento, como os FIDCs.

Entre os destaques do trimestre, observamos a consolidação de tendências que acompanhamos ao longo dos últimos meses: o fortalecimento do interesse por ativos relacionados à inteligência artificial e o aumento da atratividade de soluções ligadas a crédito alternativo. Ambos os segmentos continuam atraindo capital e sustentando uma parcela relevante da atividade de investimentos.

Sob a ótica corporativa, seguimos observando estratégias de consolidação e fortalecimento de plataformas. Empresas como Visma e Evertec expandem suas ofertas financeiras, enquanto Senior, iFood e Sankhya reforçam seus ecossistemas por meio de aquisições e investimentos estratégicos. Para os próximos trimestres, esperamos a manutenção desse cenário, com disciplina na alocação de capital, busca por escala e fortalecimento de ecossistemas impulsionando transações estratégicas, especialmente em software, infraestrutura financeira e inteligência artificial.

Inteligência artificial continua atraindo capital

Outro destaque do trimestre é a consolidação da inteligência artificial como um dos principais vetores de investimento do mercado.

Os ativos relacionados à IA continuam atraindo atenção significativa de investidores, seja por seu potencial de transformação operacional, seja pela capacidade de criação de novos modelos de negócio. O interesse crescente por empresas classificadas como AI-Enabled ou AI-First aparece de forma consistente entre as principais rodadas do período. 

Entre os maiores investimentos de equity do trimestre estão empresas como Enter, Pax, Jota e CodeJobs, várias delas posicionadas em segmentos altamente impactados pela adoção de inteligência artificial.

A tendência reforça uma mudança de percepção do mercado: a IA deixa de ser vista apenas como diferencial tecnológico e passa a ser considerada infraestrutura estratégica para crescimento, eficiência e competitividade.

Crédito alternativo e infraestrutura financeira ganham relevância

Além da inteligência artificial, o relatório destaca o fortalecimento de soluções ligadas à infraestrutura financeira e crédito alternativo. Como analisado, essas verticais seguem atraindo capital e sustentando parcela relevante da atividade de investimentos no país.

Boa parte do crescimento do trimestre foi impulsionada por operações estruturadas de grande porte, com destaque para a captação de US$ 1,07 bilhão da CloudWalk via FIDC — a maior captação desse tipo já registrada no Brasil. Também se destacaram operações envolvendo Meu Tudo, iCred e Sol Agora, reforçando a importância crescente desse instrumento para financiamento de empresas de tecnologia e serviços financeiros.

O papel estratégico das corporações continua evoluindo

Embora o trimestre tenha apresentado redução na participação corporativa em investimentos, as corporações seguem desempenhando papel relevante na evolução do ecossistema. 

A participação corporativa respondeu por aproximadamente US$ 70,1 milhões do volume total investido, equivalente a 4% do mercado no período. 

Mais importante do que o volume investido, porém, é a forma como as empresas estão utilizando inovação aberta para acelerar estratégias de crescimento e fortalecimento de ecossistemas.

Observa-se um movimento crescente de consolidação por parte de empresas que buscam ampliar capacidades por meio de aquisições estratégicas e investimentos direcionados. Companhias como Visma, Evertec, Senior, iFood e Sankhya aparecem como exemplos dessa estratégia de fortalecimento de plataformas e expansão de ofertas. 

As transações de M&A registradas no trimestre confirmam essa tendência. Foram contabilizadas 31 operações envolvendo startups brasileiras, das quais seis contaram com participação corporativa. Entre os destaques estão as aquisições da Salú pela Senior Sistemas, da BBChain pela Evertec, da Dootax e Pag Útil pela Visma, além da aquisição da Get In pelo iFood. 

Open Innovation como mecanismo de geração de valor

Outro indicador relevante é o aumento dos casos de contratação de startups por grandes empresas, evidenciando a maturidade crescente da agenda de inovação aberta.

Durante o trimestre, iniciativas envolvendo Anglo American, ENGIE e Cemig demonstraram como tecnologias desenvolvidas por startups estão sendo aplicadas diretamente em operações corporativas para geração de eficiência, automação de processos e melhoria de tomada de decisão. 

Esse movimento reforça uma mudança importante na lógica da inovação corporativa. Mais do que realizar provas de conceito isoladas, as organizações buscam resultados mensuráveis e impacto operacional concreto.

Perspectivas para os próximos trimestres

A leitura do mercado para os próximos meses permanece positiva, embora marcada por disciplina e seletividade.

A expectativa é de continuidade da busca por escala, fortalecimento de ecossistemas e realização de transações estratégicas, especialmente nos segmentos de software, infraestrutura financeira e inteligência artificial.

Nesse contexto, Corporate Venture Capital e Inovação Aberta tendem a assumir papel cada vez mais integrado às estratégias de crescimento das organizações. O foco deixa de ser apenas acompanhar tendências emergentes e passa a ser criar vantagens competitivas sustentáveis por meio da combinação entre tecnologia, capital e capacidade de execução. Em um contexto de mercado volátil e de elevado custo de capital, o crescimento é direcionado com disciplina na decisão de capital e execução à frente da expansão a qualquer custo. O M&A continua na agenda, mas essa passa a ser mais criteriosa, com o foco em valorizar mais a capacidade estratégica que o ativo agrega: sinergias, gestão, tecnologia e escala qualificada.

Em um mercado onde o capital se torna mais seletivo, a diferenciação passa a depender menos do acesso a recursos financeiros e mais da capacidade de transformar inovação em valor tangível para clientes, acionistas e para o negócio como um todo.

Resumo

A dinâmica do mercado brasileiro de startups entra em uma nova fase, marcada por escolhas mais estratégicas e foco em resultados de longo prazo. O avanço de soluções baseadas em inteligência artificial, a expansão de mecanismos alternativos de financiamento e o fortalecimento da atuação corporativa revelam um ambiente mais maduro, no qual competitividade, capacidade de execução e captura de valor ganham protagonismo nas decisões de investimento e crescimento.

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