Embora a IFRS 18 passe a valer para períodos iniciados a partir 1º de janeiro de 2027, as companhias terão de apresentar dados comparativos do respectivo período de 2026, o que exige um esforço estruturado e imediato para compreender as novas regras e seus potenciais impactos, garantindo sua correta aplicação.
O principal objetivo da IFRS 18, traduzida no Brasil como CPC 51 e aplicável a todas as empresas, abertas ou fechadas, que seguem o CPC (Comitê de Pronunciamentos Contábeis), é promover maior padronização na apresentação dos resultados financeiros. A intenção é permitir que os investidores comparem com mais precisão seus resultados e respectivos indicadores, como o lucro operacional entre empresas de diferentes setores, como bancos, construtoras e varejistas, ou mesmo dentro de um mesmo segmento de negócio.
Atualmente, a classificação de determinadas receitas e despesas podem variar significativamente entre companhias, o que dificulta análises consistentes sobre eficiência operacional.
Nesse sentido, um dos pilares críticos da IFRS 18 é a nova estrutura de Demonstração do Resultado (DRE), que passa a organizar receitas e despesas em três categorias principais: operacional, investimento e financiamento, além dos grupos de tributos sobre lucro e resultado de operações descontinuadas. “Essa reorganização altera a lógica atual ao estruturar o resultado operacional de forma alinhada às particularidades e à natureza dos modelos de negócio, proporcionando uma representação mais fiel do desempenho das companhias”, observa Flavio Guzzon, sócio de consultoria contábil da EY Brasil.
O varejo ilustra bem a falta de padronização das regras contábeis atuais. “Com as novas regras da IFRS 18, juros embutidos em vendas parceladas para o consumidor, que são muitas vezes lançados como resultado financeiro, poderão ser deslocados para a linha operacional, alterando a percepção de indicadores relevantes da empresa em análise”, diz Guzzon. Essas mudanças tendem a impactar indicadores amplamente utilizados, como o EBITDA, gerando consequências diretas para o cálculo da remuneração variável de executivos e para os chamados covenants bancários – cláusulas restritivas presentes em contratos de dívida, como empréstimos e financiamentos, que estabelecem exigências de desempenho financeiro e administrativo para o devedor.
No caso da remuneração executiva, bônus vinculados a metas de EBITDA podem ser alterados pela nova metodologia de cálculo. Já em relação aos covenants bancários, muitos contratos exigem que as empresas mantenham determinados níveis de indicadores financeiros. Caso a adequação à nova norma resulte na deterioração desses índices, a empresa pode acabar descumprindo cláusulas contratuais. Nessa situação, pode ser obrigada a quitar a dívida antecipadamente ou pagar taxas adicionais para obter o perdão da instituição financeira – processo conhecido como waiver.
Impactos
O nível de impacto da IFRS 18 depende mais da complexidade operacional da empresa do que propriamente do setor em que atua.
Uma empresa individual, sem empréstimos contratados e sem bônus atrelados ao lucro líquido para o sócio, tende a enfrentar impactos menores. Por outro lado, organizações com estruturas complexas de consolidação, múltiplos sistemas operacionais e diferentes linhas de negócios, tendem a ser significativamente mais afetadas. Em geral, quanto maior o número de ERPs e operações distintas, maior a complexidade da adaptação.
Nesse processo, um dos primeiros e maiores desafios será o mapeamento de dados. Conglomerados empresariais que operam com múltiplos sistemas e diversos modelos de negócio precisarão organizar suas informações com um nível de granularidade que muitas parametrizações atuais não suportam. "Empresas menores podem resolver com sistemas menos complexos, como Excel, mas, para as grandes, isso não é possível nem desejável, exigindo sistemas parametrizados de acordo com a nova norma", alerta Guzzon.
Ações prioritárias
Diante desse cenário, as empresas precisam iniciar desde já ações para mitigar impactos em diferentes frentes.
Impacto estratégico
- Avaliar o impacto do IFRS 18 na comunicação com investidores e redefinir métricas de desempenho e MPMs.
- Revisar as mudanças na demonstração do resultado e nas MPMs para percepção de mercado e comparação com padrões do setor.
- Avaliar mudanças nos principais KPIs e afetarão métricas de bônus e covenants.
Impacto nos processos e sistemas
- Avaliar o impacto do IFRS 18 nas políticas, governança, controles e processos.
- Avaliar a gestão de mudanças para o processo de consolidação e FSCP (fechamento e preparação de demonstrações financeiras).
- Analisar os efeitos nos processos atuais de gestão de desempenho.
- Identificar atualizações necessárias na arquitetura de TI para gestão de dados, relatórios e auditorias.
- Explorar o IFRS 18 para padronização da gestão da informação e automatização de processos de dados.
Impacto nos dados
- Avaliar as modificações no plano de contas para conformidade com o IFRS 18.
- Avaliar a capacidade da estrutura contábil para atender aos requisitos de recategorização.
- Analisar os esforços de gestão de mudanças para alinhar a definição de lucro operacional do IFRS 18 com os relatórios atuais.
- Avaliar a necessidade de maior detalhamento dos dados para garantir a transparência e auditoria das divulgações.
- Aproveitar o uso de sistemas de dados já existentes para outras divulgações e acelerar a implementação do IFRS 18.
Impacto nas pessoas
- Identificar os papéis organizacionais para o engajamento nas atividades de conformidade com o IFRS 18.
- Determinar quais papéis serão impactados pelos requisitos de conformidade da IFRS 18.
Como a EY pode ajudar
Na EY, nossos profissionais de Financial Accounting Advisory Services (FAAS) possuem profundo conhecimento técnico e experiência prática para orientar as empresas na implementação da IFRS 18 dentro do contexto do ECRA (“Enhanced Corporate Reporting and Accounting”), por meio de:
- Diagnóstico/avaliação de impacto. Realizamos uma análise aprofunda para identificar os impactos potenciais da IFRS 18 nas demonstrações financeiras e nos sistemas de reporte. Nossa abordagem proativa permite antecipar e mitigar desafios antes que eles surjam.
- Políticas contábeis. Auxiliamos na criação e atualização de políticas contábeis que atendam aos novos requisitos e promovam eficiência e clareza na apresentação dos relatórios.
- Treinamento e suporte. Oferecemos programas de treinamento personalizados para sua equipe contábil e financeira, promovendo uma compreensão aprofundada das mudanças e de como aplicá-las de forma eficaz na prática.
- Implementação de sistemas. Apoiamos na avaliação e atualização dos seus sistemas de informação financeira, para que estejam alinhados com os novos requisitos de apresentação e divulgação, otimizando o fluxo de informações.
- Comunicação eficaz. Assessoramos na elaboração de comunicações estratégicas direcionadas aos acionistas e outras partes interessadas, para que estejam informadas sobre as mudanças e como elas impactam a estratégia e o desempenho da empresa.