O estudo Impact Edge, produzido pela EY e divulgado durante a COP30, alerta: o setor de mineração precisa avançar na gestão sustentável de recursos hídricos, na descarbonização de suas atividades, principalmente de processos intensivos em energia, e na segurança de barragens e rejeitos – temas sob forte escrutínio público e regulatório, que colocam as mineradoras em evidência.
Há necessidade também de fortalecer a governança socioambiental, ampliar o diálogo com as comunidades locais e garantir transparência e rastreabilidade nas cadeias de suprimentos minerais. As empresas mais avançadas nesse sentido têm migrado de abordagens reativas, centradas em conformidade regulatória, para estratégias estruturadas de mitigação de risco e criação de valor compartilhado, que unem eficiência operacional e impacto socioambiental positivo.
“Considerando essa necessidade de compartilhar valor, é essencial que o setor de mineração se articule. As empresas estão correndo atrás de reportar suas informações não financeiras, com base no IFRS e na TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures). O ISSB já está lançando inclusive o IFRS S3, que pedirá o mesmo detalhamento do S2, mas agora em relação ao impacto sobre a biodiversidade”, destaca Elanne Almeida, sócia-líder de Consultoria e Sustentabilidade para LATAM da EY.
Ainda segundo a executiva, há uma narrativa que está sendo construída pelo próprio setor, para trazer o valor monetário do impacto das mudanças climáticas nas operações das empresas, incluindo no fluxo de caixa. Esse arcabouço metodológico para reporte de informações não financeiras, que está em constante atualização, precisa ser acompanhado pelas empresas. A publicação da Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB) também exigirá esforço de conformidade por parte do mercado. O decreto que instituiu a TSB, publicado no Diário Oficial da União no começo de novembro, cria um sistema de classificação de atividades econômicas, ativos e projetos que contribuem para objetivos climáticos, ambientais e sociais, com base em critérios técnicos e verificáveis.
Mineração circular
O estudo Impact Edge aponta que o setor de mineração tem concentrado esforços nas seguintes frentes: gestão da água e redução de captações; eficiência energética e descarbonização; gestão de rejeitos e segurança de barragens; resíduos, coprodutos e economia circular; fechamento de minas e restauração de biodiversidade; interação com as comunidades e licença social; e governança e transparência.
Entre as práticas de gestão hídrica observadas estão circuitos fechados de processo, reaproveitamento de águas pluviais e monitoramento hídrico em tempo real. Essas iniciativas reduzem captações externas e aumentam a resiliência operacional em cenários cada vez mais frequentes de escassez causados pelas mudanças climáticas. A circularidade, que está entre os destaques da COP30, otimiza a exploração dos recursos naturais, evitando a geração de resíduos na atividade de mineração por meio da reinserção do estéril e até mesmo do rejeito na atividade produtiva. O uso de estéreis e rejeitos na forma de coprodutos, por exemplo, na construção civil, e a recuperação de metais em estéreis e rejeitos históricos criam fontes de receita e valor adicional, enquanto reduzem impactos ambientais e fortalecem a sustentabilidade da mineração.
Ao planejar com antecedência o fechamento da operação, a mineradora evita passivos futuros. Fazem parte do encerramento as seguintes atividades para integrar as áreas mineradas à paisagem natural: reconformação de taludes, conjunto de técnicas para estabilizar e recuperar encostas degradadas, prevenindo erosões e deslizamentos; restauração de habitats degradados; e criação de corredores ecológicos. O objetivo é garantir a conformidade legal e gerar ganhos de biodiversidade.
Oportunidade histórica
O Brasil está se posicionando globalmente para ser um grande centro de atração de capital para investimentos em sustentabilidade. “O que estamos vivendo aqui em Belém é histórico. O Brasil se preparou bem para isso desde que anunciou que seria o primeiro país a endossar oficialmente o IFRS S1 e S2, com a recepção dessas normas pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários). No ano seguinte, o país publicou a legislação que estabelece o mercado regulado de carbono. Se estamos gerando crédito de carbono, temos estoque. Isso é moeda e pode ser transacionada no mercado de carbono”, ressalta Elanne Almeida.