Estudo da EY aponta que o financiamento de transição ultrapassou globalmente US$ 2 trilhões em 2024, o que representa aumento de 17% em relação ao ano anterior, mas esse valor, diferentemente do que deveria acontecer, não está chegando aos países em desenvolvimento.
O levantamento, que considerou de forma abrangente todos os projetos e tecnologias relacionados, revelou que os recursos foram aplicados principalmente nas economias desenvolvidas, com destaque para China (US$ 818 bilhões), Estados Unidos (US$ 330 bilhões), Alemanha (US$ 109 bilhões) e Reino Unido (US$ 65 bilhões). Já para Brasil, Índia e outras grandes economias em desenvolvimento, a alocação é modesta.
Além disso, constatou que praticamente todo o dinheiro está sendo direcionado para tecnologias maduras – 93% dos recursos direcionados para atualizações de rede elétrica, veículos elétricos e energias renováveis, e apenas 7% para captura de carbono, indústrias pesadas e impulsionamento do transporte marítimo verde.
“Os setores difíceis de abater, como a modernização dos processos industriais para reduzir emissões, quase não estão recebendo recursos. O foco desse dinheiro é justamente viabilizar a descarbonização nessas atividades”, observou Gillian Lofts, sócia-líder global de finanças sustentáveis da EY, em painel da EY House durante a COP30 em Belém. A executiva destaca ainda que esses recursos têm peso significativo no contexto mais amplo do financiamento global, que segue direcionando volumes expressivos para atividades prejudiciais à natureza – chegando a ser 140 vezes superior ao financiamento voltado à preservação ou proteção ambiental.
Um dos motivos para esse dinheiro não estar chegando aos países em desenvolvimento é a falta de projetos. “O objetivo das instituições financeiras é conceder crédito, mas para isso é preciso que haja onde alocar os recursos com segurança e previsibilidade”, afirmou Rafael Schur, sócio-líder do segmento de Mercado de Serviços Financeiros para o Brasil na EY.
É fato que o capital de risco na forma de equity decresceu, mas há espaço para a retomada de seu protagonismo no financiamento à descarbonização, especialmente em empresas que se encontram em estágio inicial com soluções inovadoras.
Blended finance
O blended finance aparece hoje como um dos caminhos para escalar algumas dessas soluções e transformá-las em negócios, efetivamente. O modelo combina recursos financeiros públicos, filantrópicos e privados para financiar projetos com impacto social, ambiental ou de desenvolvimento econômico, mitigando riscos e tornando o investimento mais atraente para o setor privado. “A bioeconomia, com um ecossistema como o nosso na região amazônica, que tem uma biodiversidade incrível, pode ser alavanca para muitas soluções”, defende Fernando Freiberger, diretor-executivo do Bradesco.
“Sem a participação desse capital catalítico, o financiamento fica comprometido porque não estamos falando de grandes corporações com grau de investimento e acesso ao mercado, mas de startups e micro e pequenas empresas”, explicou. Há também, na avaliação do executivo, outro tema relevante que é a governança. “Os bancos têm um papel nisso, precisando ajudar seus clientes a criar essa governança para ter acesso ao capital disponível ligado ao financiamento de transição.”
Os números de financiamento obtidos pelo Bradesco mostram que há dinheiro disponível no mercado. Em 2021, o banco se comprometeu a realizar, até o final de 2025, empréstimos relacionados à sustentabilidade no valor de R$ 250 bilhões. A meta foi atingida em meados de 2024 e ampliada para R$ 350 bilhões, o que já foi cumprido.
Taxonomia global
Oliver Phillips, head de Sustentabilidade em Emerging Markets da Barclays, defende a necessidade de uma taxonomia global para que todas as instituições financeiras falem a mesma língua. “Os reguladores têm papel crucial nisso. No momento em que todos os bancos globais entenderem finanças sustentáveis da mesma forma, isso fará diferença no incentivo ao investimento nesse mercado”, afirma o executivo. Para isso, deve haver uma colaboração com os Bancos Centrais, para garantir que todas as instituições financeiras tenham a mesma definição de finanças sustentáveis, podendo contabilizá-las e calculá-las de forma padronizada.
Com visão semelhante, Marcelo Marangon, presidente do Citi Brasil, destaca que o primeiro ponto é conectar o mercado local de finanças sustentáveis com o global, motivo pelo qual as transações precisam ser padronizadas. “Se houver essa uniformização global, vamos conseguir direcionar mais recursos para o Brasil”, observou. O foco do banco está em grandes organizações, que são as empresas apoiadas pela instituição na jornada de sustentabilidade. “Não operamos no varejo e com pequenas empresas. Mesmo não operando em todos os mercados, nossa operação do Brasil é a quinta maior do Citi no mundo. Vemos como oportunidade fechar parcerias com bancos locais, trazendo capital para projetos regionais que não alcançamos atualmente”, afirmou.
Já Kathleen Krause, chefe-adjunta de regulação prudencial do Banco Central do Brasil, concorda que a padronização de conceitos ou critérios é de fato bastante relevante. “Infelizmente, estamos enfrentando hoje um risco alto de fragmentação regulatória, com a falta de consenso nas discussões internacionais dos padrões globais.”
Ainda assim, Krause defende que a falta de consenso não pode ser desculpa para não avançar. “Por isso, no Brasil, temos buscado uma ação coordenada por meio de parcerias com a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), entidades de classe e outras áreas do governo. Estivemos, por exemplo, com o Ministério da Fazenda no desenvolvimento do projeto Eco Invest, que faz parte do Plano de Transformação Ecológica, com uma excelente recepção até aqui pelo mercado”, observou.
Nesse sentido, a recém-publicada Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB) representa um avanço essencial para a harmonização dos projetos. Ao estabelecer um padrão de mercado, sabe-se exatamente onde alocar capital – um passo decisivo nessa jornada.