As mudanças climáticas são centrais para o futuro do agronegócio. Na COP29, em Baku, foi destacado o papel essencial do setor privado na transição para uma economia de baixo carbono. O agronegócio brasileiro, referência em sustentabilidade, emerge como protagonista nessa agenda, mas enfrenta desafios para ampliar essas práticas sustentáveis, pois o setor sofre com eventos climáticos extremos, que vêm pressionando a produtividade no campo. Cria-se assim uma dicotomia para o setor, uma vez que a maior incidência desses eventos climáticos extremos estrangula a capacidade do agronegócio de inovar e testar novas práticas sustentáveis, o que poderia por sua vez tornar a agricultura brasileira mais resiliente a esses cada vez mais frequentes eventos climáticos extremos.
O Brasil lidera a agricultura de baixo carbono por meio de práticas como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), plantio direto, uso de bioinsumos e tecnologia genética de ponta. Essas iniciativas contribuíram para um crescimento de mais de 100% da produtividade nos últimos 20 anos e para uma agricultura de baixo carbono, promovendo a retenção de carbono no solo. Apesar disso, obstáculos estruturais ainda impedem novos avanços e adoção de tecnologias no campo, como a conectividade limitada, com apenas 30% da área agricultável do Brasil com cobertura, além de altos custos tecnológicos impedindo a expansão de soluções como agricultura de precisão, que otimiza o uso de insumos e reduz impactos ambientais. A expansão do 5G e da internet via satélite são soluções promissoras nesse cenário, mas ainda levarão alguns anos para um ganho de escala representativo.
O subsetor de bioenergia, que utiliza culturas como a cana-de-açúcar, milho e soja, reforça o papel do agronegócio brasileiro na transição energética global, dando ao Brasil um protagonismo mundial na produção de biocombustíveis. O país, com sua agricultura de alta produtividade e integração com a indústria de processamento, vem se posicionando como uma das regiões mais promissoras para suprir a crescente demanda global por biocombustíveis avançados que contribuam para a descarbonização do transporte pesado (das siglas em inglês, HVO – “óleo vegetal hidrogenado”, substituto do diesel, e SAF – “combustível sustentável de aviação”, que substitui o querosene fóssil).
No entanto, cadeias como as de grãos e proteína animal enfrentam críticas no contexto global em relação à sua contribuição para o desmatamento de florestas nativas, e os países desenvolvidos, reagindo à demanda dos seus consumidores, têm avançado em regulações que exigem a rastreabilidade da carne e da soja brasileira. A rastreabilidade ainda é um desafio, especialmente na cadeia de bovinos para proteína animal, já que o gado costuma passar por diversas propriedades antes do abate, e a garantia da origem sustentável dos produtos traz desafios operacionais e de incremento de custos. Falhas nesse processo comprometem a conformidade ambiental e o acesso a mercados internacionais. Tecnologias como blockchain surgem como ferramentas-chave para promover transparência e segurança nas cadeias produtivas, fortalecendo a governança ambiental e reduzindo pressões geopolíticas.
Desafios na preservação
O desmatamento ilegal, aliado à baixa fiscalização, desafia o equilíbrio entre produtividade agrícola e conservação ambiental. A adoção de práticas regenerativas e de sistemas integrados de produção é essencial para alinhar produtividade e preservação. Além disso, o Código Florestal estabelece marcos importantes, como a exigência de reservas legais, mas ainda enfrenta dificuldades na implementação prática. Avanços como a regulamentação de um mercado de carbono global na COP29 podem abrir novas perspectivas para o agronegócio brasileiro. Além disso, inovações como um mercado voluntário de créditos de biodiversidade podem valorizar os impactos positivos na conservação ambiental e ser um incentivo financeiro que fomente a maior adoção de práticas sustentáveis. Entretanto, a exclusão do setor agropecuário do mercado regulado no Brasil reflete desafios como a complexidade de mensurar emissões e seu eventual impacto positivo na captura de carbono no solo.
O Centro de Excelência de Agronegócios (CEA) da EY combina tecnologia, inovação e sustentabilidade para oferecer soluções personalizadas ao setor. Por meio de parcerias com startups e hubs tecnológicos, suporta as empresas do agronegócio em suas jornadas de transformação para uma agricultura mais sustentável e tecnológica. Com foco em desenvolvimento de tecnologias como blockchain e inteligência artificial, o CEA é o veículo que combina as competências da EY com conhecimento de setor especializado, permitindo que as empresas possam transformar riscos em oportunidades e contribuindo para posicionar o Brasil como líder em sustentabilidade no agronegócio. O agronegócio brasileiro tem a oportunidade de protagonizar a agenda climática global, reforçando sua atuação por meio de práticas sustentáveis e integrando tecnologias inovadoras. Embora desafios como a conectividade limitada e a fiscalização insuficiente permaneçam, iniciativas como a expansão do mercado de carbono e o fortalecimento da governança ambiental são passos importantes para consolidar um futuro resiliente e sustentável para o setor.
*Leia outros artigos no e-book “Um olhar para o futuro: Práticas ESG redefinem estratégias em um cenário de economia verde”.