Em um contexto de previsões cada vez mais altas para a temperatura do planeta nos próximos anos, não há dúvidas de que a transição energética dos combustíveis fósseis para fontes renováveis tornou-se urgente. Nesse cenário, o hidrogênio verde (H2V) é considerado cada vez mais relevante na busca pelo carbono zero, especialmente em setores que têm mais dificuldades de reduzir suas emissões, como a indústria pesada e o transporte de longa distância (aéreo, por exemplo).
Estudo da EY-Parthenon sobre H2V indica que, embora a eficiência energética, a eletrificação e as energias renováveis possam diminuir em 70% as emissões dos gases de efeito estufa, o hidrogênio verde será necessário para descarbonizar usos finais cujas opções são menos maduras ou mais caras. "São diversas aplicações inovadoras nesse sentido. A amônia verde, produzida a partir do H2V, é uma alternativa promissora para o transporte marítimo de longo alcance. O hidrogênio verde é uma matéria-prima fundamental para a produção dos combustíveis sustentáveis de aviação, também chamados de SAF", comenta Diogo Yamamoto, sócio da EY-Parthenon.
Ainda segundo o executivo, o H2V pode ser uma alternativa para o aquecimento industrial e doméstico, substituindo, por exemplo, o gás natural. “Há, no entanto, algumas barreiras para a adoção do hidrogênio verde, como seu elevado custo de produção, especialmente em comparação com outras fontes de energia, o que pode inviabilizar a utilização em larga escala”, completa.
Existem três tipos de hidrogênio: cinza, azul e verde. O cinza é derivado da queima de combustíveis fósseis, como o gás natural. Para a transição energética, portanto, ele não é adequado – ao contrário do verde e do azul, que não emitem carbono ou emitem pouco em sua produção. O verde é resultado de um processo chamado de eletrólise, que extrai o hidrogênio da água por meio do uso de energia proveniente de fontes sustentáveis como eólica e solar.
Já o azul tem a mesma forma de produção do cinza, com a diferença de que o dióxido de carbono liberado é capturado e armazenado no solo, neutralizando assim seu efeito poluente. Estudo da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) indica que a substituição do hidrogênio cinza pelo verde resultaria em uma economia de 830 milhões de toneladas de carbono por ano – o equivalente às emissões de Reino Unido e Indonésia somadas.
Corrida global por fornecedores de H2V
O primeiro passo para um país se destacar na produção do H2V é apresentar uma matriz energética majoritariamente sustentável. Nesse ponto, o Brasil está em posição privilegiada, já contando com o predomínio dessas fontes de energia, mas, ainda assim, mantendo o investimento nelas. Dados da IEA colocam o Brasil como o terceiro país do mundo que mais investe em renováveis – o equivalente a 8% da produção de geração renovável global. A capacidade energética instalada em GW do país deve crescer 19% até 2030, com evolução maior nas fontes solar e eólica, com 171% e 103% respectivamente, ainda segundo o estudo da EY-Parthenon.
"Há uma corrida global por fornecedores de hidrogênio verde. A União Europeia, conforme definido no plano REPowerEU, planeja consumir 20 megatoneladas por ano de H2V até 2030, sendo metade disso por meio de importações. Já o Japão tem se dedicado a criar cadeias internacionais de abastecimento de hidrogênio com países do Indo-Pacífico, Europa e Oriente Médio", observa Yamamoto.
Algumas iniciativas recentes do Brasil foram importantes para se posicionar nesse mercado, como o Programa Nacional de Hidrogênio (PNH2), que, a partir dos projetos anunciados, deve resultar em uma capacidade de produção anual de H2V de duas megatoneladas ao ano até 2030; o número crescente de centros de pesquisa e desenvolvimento em tecnologias de H2V como o da UNIFEI (Universidade Federal de Itajubá) e o da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); e as parcerias internacionais para produção brasileira de hidrogênio de baixo carbono, com destaque para a iniciativa H2Brasil com a Alemanha.