Cadeias de suprimentos estão sendo redesenhadas no Brasil e no mundo

14 jan. 2026

Construído sob a premissa de estabilidade e do custo mínimo, modelo mais comum de cadeia demonstra fragilidade diante dos novos desafios, como a reforma tributária

O início da implementação da reforma tributária a partir deste ano vai desafiar as cadeias de suprimentos das empresas. “Com a eliminação gradual dos incentivos fiscais, haverá uma reorganização completa da localização de fábricas e centros de distribuição. O objetivo passará a ser reduzir distâncias, aproximando as empresas do seu mercado de consumo, em um cenário oposto ao de hoje”, disse Carlo Itani, diretor-executivo de Supply Chain & Operations da EY Brasil, que palestrou no evento “Reforma Tributária e Estratégia Empresarial: Um Diálogo com Conselheiros”, realizado pela EY com a presença de executivos de diversos setores econômicos. 

Nesse contexto, ainda segundo o executivo, as empresas precisarão avaliar oportunidades de reduzir deslocamentos, tempos e custos de entrega; emissão de carbono no transporte; e custos de capital em estoque de produtos e insumos. “É um cenário oposto ao atual, que circula bastante com a mercadoria para aproveitar os benefícios tributários, deixando de lado a eficiência logística”, completou.

Ao olhar para o contexto global, o modelo de cadeias de suprimentos que dominou o comércio nas últimas décadas vem enfrentando enormes desafios. Construído sob a premissa da estabilidade e do custo mínimo, esse sistema demonstra fragilidade diante da volatilidade geopolítica, tarifária e climática do mundo atual. “A dependência de rotas comerciais únicas e fontes exclusivas de suprimentos aumentou a exposição das empresas a riscos externos”, relembrou Itani.

Além disso, na avaliação do executivo, cadeias longas e lineares não apenas facilitam disrupções físicas, mas também elevam significativamente as emissões de carbono. “Isso vai na contramão das novas exigências dos consumidores, que têm, conforme nossos estudos demonstram, demandado produtos ‘made local’ e ‘made better’, ou seja, feitos localmente e da melhor forma, o que passa pela sustentabilidade”, explicou.

Ainda sobre a linearidade do modelo tradicional de cadeias de suprimentos, Itani disse que, por focar em rigidez e eficiência, ele deixa muitas vezes de lado os conceitos de resiliência e flexibilidade, que se mostram imprescindíveis em momentos de alta volatilidade como os atuais. “O avanço da IA e da análise de dados acaba sendo desperdiçado quando essas soluções são aplicadas a cadeias inflexíveis. A tecnologia por si só não resolve problemas estruturais, exigindo uma mudança de mentalidade de todas as empresas que fazem parte das cadeias de suprimentos”, observou.

Novo modelo para a realidade atual

Para lidar com os desafios atuais, a EY redesenhou o modelo das cadeias de suprimentos para contemplar as seguintes características: resiliência; resposta rápida; ecossistema em rede; e relacionamentos múltiplos. 

O foco do novo modelo da cadeia de suprimentos não deve ser o custo, mas a resiliência, diversificando os locais de produção, centros de distribuição e modais de transporte. “Quantas vezes temos vários modais alternativos, várias formas de escoar a produção por meio de diversos operadores logísticos, mas olhamos apenas para o preço, escolhendo aquele com o menor custo possível?”, questionou Itani. 

Em um cenário imprevisível como o de hoje, o monitoramento de sinais externos torna-se vital para detectar riscos iminentes, o que possibilita respostas rápidas a esses desafios. “Não dá para olhar apenas para dentro. É preciso monitorar o ambiente ao redor da empresa para encontrar as soluções”, complementou.

Há também necessidade de atuar por meio de um ecossistema em rede, substituindo o provedor único por múltiplos fornecedores e eventualmente até mesmo colaborando com concorrentes dependendo da situação que se apresente. “Por fim, a gestão deve focar em todos os atores da cadeia, em todos os stakeholders, entendendo que o retorno ao acionista é consequência da qualidade desses relacionamentos múltiplos”, finalizou.

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