As empresas brasileiras entram em um ciclo decisivo. A reforma tributária exige adaptação imediata, enquanto a menor previsibilidade econômica e a pressão por produtividade aumentam a necessidade de resultados concretos. Cumprir as novas regras será indispensável. O diferencial competitivo, porém, estará na capacidade de aproveitar essa transição para redesenhar processos, direcionar melhor os recursos e criar novas fontes de valor.
A edição 2026 da pesquisa Desafios e tendências das empresas na América Latina ouviu 1.988 diretores e executivos de primeira linha em 18 países da região. No Brasil, participaram 214 executivos. A amostra oferece uma visão abrangente das prioridades que estão moldando as decisões empresariais no país e na região.
A comparação entre o recorte nacional e o universo regional revela uma particularidade: a reforma tributária passou a liderar as preocupações externas no Brasil, à frente do cenário econômico global e das mudanças na demanda, nas preferências e no comportamento dos clientes. Internamente, permanecem no topo da agenda as melhorias operacionais, a produtividade e a gestão de custos, seguidas pelo crescimento da participação de mercado e pela transformação digital.
O estudo também apresenta análises conjunturais e perspectivas por país e setor, permitindo aprofundar os riscos e as oportunidades mais relevantes para cada indústria.
A reforma tributária chega ao centro da estratégia
Para 38% dos respondentes brasileiros, a reforma tributária será o principal desafio externo nos próximos três anos. É uma mudança expressiva em relação a 2025, quando o tema ocupava apenas a quinta posição entre as preocupações das empresas no país. Na sequência aparecem o cenário econômico global e o comportamento do consumidor, ambos citados por 27% dos entrevistados.
O contraste com a América Latina reforça a especificidade da agenda brasileira. No consolidado regional, reformas tributárias aparecem na décima posição, mencionadas por 14% dos executivos. As prioridades são os riscos do próprio setor e as mudanças na demanda, nas preferências e no comportamento dos clientes, ambos com 28%, seguidos pela entrada de novos concorrentes, com 27%.
Os dados mostram que o Brasil está diante de uma transformação regulatória de impacto imediato. Na prática, porém, a reforma tributária deve ser tratada como uma agenda de transformação empresarial, e não apenas de conformidade. A transição afetará decisões críticas de preços, contratos, créditos tributários, capital de giro, cadeia de suprimentos, dados e sistemas, exigindo coordenação entre as áreas fiscal, financeira, tecnológica, operacional e comercial.
Adaptar-se sem perder o mercado de vista
A centralidade da reforma traz um risco adicional: mobilizar pessoas e recursos para a adequação interna enquanto clientes, demanda e concorrência continuam mudando. A transição exige prioridade, mas não pode paralisar as iniciativas que sustentam a relevância futura. O portfólio estratégico deve equilibrar conformidade, desempenho e criação de valor, com escolhas claras sobre o que ampliar, corrigir ou interromper.
As empresas que conduzirem essa transição com visão de mercado poderão não apenas proteger margens, mas também reposicionar ofertas, conquistar clientes e acelerar movimentos de crescimento.
Eficiência precisa liberar capacidade para crescer
Entre os desafios internos, melhorias operacionais, produtividade e custos lideram no Brasil, com 35%, seguidos pelo crescimento da participação de mercado, com 31%, e por tecnologia e transformação digital, com 29%. A estabilidade desse ranking em relação a 2025 indica que as empresas continuam buscando uma equação difícil: elevar o desempenho no curto prazo sem comprometer as capacidades necessárias para crescer.
Cortes lineares podem produzir alívio imediato, mas também enfraquecer competências essenciais. A produtividade estrutural depende de processos mais simples, automação de tarefas repetitivas, eliminação de gargalos e melhor uso dos dados. O objetivo deve ser liberar capital e talentos para ofertas, canais e iniciativas com maior potencial de margem, receita e retorno.
Tecnologia só cria vantagem quando gera valor mensurável
Inovação, produtividade impulsionada por tecnologia e transformação digital estão entre as tendências globais mais relevantes para os respondentes brasileiros, com 86% das menções em cada tema. O resultado confirma que a agenda tecnológica deixou de ser acessória: ela passou a orientar decisões de competitividade, escala e resposta ao mercado.
Essa prioridade ganha ainda mais relevância no contexto da reforma tributária. A revisão de processos, dados e sistemas exigida pela transição cria uma oportunidade para modernizar a operação e incorporar automação e inteligência artificial de forma mais consistente. Para capturar esse potencial, cada investimento deve partir de um problema de negócio e demonstrar impacto em margem, caixa, receita, qualidade, tempo de ciclo ou experiência do cliente.
Sem confiança nos dados, não há transformação em escala
Cibersegurança e proteção de dados, assim como o uso transversal dos dados na organização, foram considerados importantes por 79% dos executivos brasileiros. À medida que operações, plataformas e fornecedores se conectam, aumenta também a exposição a falhas, ataques e decisões baseadas em informações inconsistentes. Por isso, a liderança precisa integrar governança de dados, arquitetura tecnológica, gestão de terceiros e continuidade operacional às decisões de crescimento e transformação.
Na IA, o desafio deixa de ser experimentar e passa a ser escalar
A inteligência artificial avançada e os sistemas autônomos lideram o ranking de tecnologias disruptivas tanto no Brasil, com 89%, quanto na América Latina, com 84%. A adoção, contudo, ainda é fragmentada: 31% relatam implementações em partes específicas do negócio, 28% estão em pilotos ou experimentos iniciais e 21% permanecem nas primeiras etapas de pesquisa e avaliação.
A questão já não é se a IA será adotada, mas onde ela pode gerar valor em escala. Isso requer casos de uso priorizados, responsabilidades claras, dados confiáveis, controles de risco e integração ao modelo operacional. A escala não virá da multiplicação de pilotos, mas da concentração de recursos nos casos de uso capazes de entregar impacto comprovável e repetível.
Cinco decisões para a agenda da liderança
- Liderar a transformação tributária, com governança executiva e atuação multidisciplinar.
- Proteger o crescimento, mantendo clientes, inovação e mercado no centro das decisões.
- Realocar capital e talentos, priorizando iniciativas com impacto mensurável e responsáveis definidos.
- Fortalecer a confiança operacional, integrando dados, cibersegurança, terceiros e continuidade.
- Escalar a IA com responsabilidade, incorporando-a ao modelo operacional e às prioridades do negócio.
Mais importante do que ampliar o número de projetos será decidir, com velocidade e disciplina, o que expandir, corrigir ou interromper. Cada iniciativa deve ser avaliada pelo valor que pode gerar e pela capacidade da organização de executá-la de forma responsável.
O diferencial competitivo não estará apenas em cumprir as novas regras ou incorporar novas tecnologias. Estará na capacidade de conectar reforma tributária, produtividade, dados e IA em uma agenda coerente de transformação do negócio.
As empresas que fizerem essa conexão estarão mais preparadas para atravessar a transição regulatória, operar com maior eficiência e acelerar a inovação onde ela realmente cria valor. Mais do que administrar mudanças simultâneas, o desafio da liderança será transformá-las em uma plataforma sustentável de crescimento.