As fronteiras traçam limites entre ambições e oportunidades. A queda das fronteiras nos confins da Terra, antes separadas por limites de altitude, distância ou profundidade, abriu três domínios para a extração de novos recursos e para a concorrência comercial e geopolítica:
- As profundezas da terra e do mar: locais de vastas reservas de minerais essenciais que apresentam lacunas significativas no fornecimento a partir das fontes existentes.
- Ártico: área de recursos minerais, energéticos e biológicos estratégicos, mas também de rotas marítimas valiosas do ponto de vista comercial e estratégico.
- Órbita terrestre: o espaço de 200 quilômetros a 36 mil quilômetros acima da superfície da Terra, "um recurso natural limitado" que oferece uma plataforma para observação, comunicações, pesquisa e atividades de defesa.
Governos, empresas e usuários de recursos seguem buscando recursos tangíveis e intangíveis com valor estratégico comercial nesses domínios. Os recursos tangíveis são aqueles que podem ser esperados – itens físicos, como metais, petróleo e peixes. Os recursos intangíveis, por sua vez, não podem ser tocados, como o uso de slots de satélite orbital e o acesso a rotas de navegação.
As formas como a concorrência e o uso nesses domínios se desenvolverão na próxima década trarão implicações profundas para a sustentabilidade ambiental e econômica e para a dinâmica geopolítica.
Resourcing
Nesse contexto, três forças transformadoras, que são tecnologia, geopolítica e mudanças climáticas, estão no centro do chamado "resourcing" (alocação, planejamento e gestão de recursos). A tecnologia, a geopolítica e as mudanças climáticas têm feito com que as fronteiras para extração dos recursos desapareçam, criando uma demanda que exerce pressão sobre as barreiras de acesso.
Em primeiro lugar, a ampla transformação digital nas operações de negócios e na vida pessoal – acelerada pela adoção exponencial da tecnologia e da inteligência artificial – está encontrando sua manifestação física na construção de data centers, na infraestrutura de energia relacionada e na fabricação de volumes crescentes de dispositivos digitais de consumo, o que impulsiona a demanda por minerais essenciais que enfrentam defasagem de fornecimento. Ao mesmo tempo, a inovação e a redução de custos facilitam o acesso às regiões fronteiriças de forma mais econômica.
Em segundo lugar, conforme abordado no estudo EY 2026 Geostrategic Outlook, as relações internacionais agora operam sob novas regras e normas caracterizadas pela intervenção estatal e pela geopolítica da escassez de recursos. Os governos estão mais dispostos a intervir nos mercados, acelerar o acesso e oferecer mais segurança regulatória à medida que o fornecimento de recursos aumenta como uma preocupação de segurança nacional e interesse econômico estratégico. Além disso, a concorrência e o multilateralismo sob questionamento estimulam que os países explorem as lacunas de governança e as áreas cinzentas nas regiões de fronteira.
Em terceiro lugar, a transição para a energia limpa constitui mais uma fonte crescente de demanda por minerais essenciais. Turbinas eólicas, painéis solares, baterias e veículos elétricos exigem minerais de terras raras, enquanto a expansão das redes de transmissão necessárias para apoiar a eletrificação da economia global consumirá volumes crescentes de cobre e alumínio. Ao mesmo tempo em que a necessidade de descarbonização promove a transição para a energia limpa, as mudanças climáticas estão abrindo o Ártico, que está se aquecendo quatro vezes mais rápido do que o resto do mundo, para novas explorações, extrações e usos.
*Este artigo faz parte da série EY Megatrends. As megatendências são rupturas macroeconômicas impulsionadas pela intersecção de duas ou mais forças primárias, como tecnologia, demografia, sustentabilidade e geopolítica.