10 Minutos de leitura 11 dez 2020

            Vista em alto ângulo das árvores e da construção na cidade

Quais são os desafios do setor bancário na jornada para a sustentabilidade?

Por Gill Lofts

EY Global Financial Services Sustainable Finance Leader

Passionate about creating a legacy in the financial services industry. Proud mother of two daughters.

10 Minutos de leitura 11 dez 2020

Dados confiáveis e consistentes são a chave para acompanhar o desenvolvimento de finanças sustentáveis.

Em resumo
  • O Índice de Finanças Sustentáveis da EY mostra que a indústria financeira global progrediu em direção a um futuro mais sustentável, mas ainda tem um longo caminho a percorrer.
  • Um primeiro corte dos dados mostra a força dos grandes bancos europeus, mas também destaca variações significativas e áreas a serem melhoradas.
  • Em 2021, voltaremos nosso foco para seguradoras, gestores de ativos e outras regiões, acompanhando a evolução do pensamento da indústria.

Quando o Acordo de Paris foi assinado há cinco anos, poucos teriam previsto a rapidez com que a demanda dos consumidores, o sentimento dos investidores e a regulamentação empurrariam a mudança climática, e com ela a sustentabilidade, para o topo de tantas agendas da indústria.

O setor financeiro desempenha um papel crítico na transição para um futuro mais sustentável. Além de administrar seu próprio impacto corporativo, a influência das instituições financeiras como fornecedores de financiamento significa que elas podem, sem dúvida, fazer mais do que qualquer outro setor para integrar critérios ambientais sociais e de governança (ESG) de longo prazo nos negócios e investimentos globais. A capacidade de acompanhar este progresso é crucial para fazer melhorias reais e tangíveis na sustentabilidade nacional e global.

A EY lançou um Índice de Finanças Sustentáveis para comparar o progresso da indústria financeira global contra a necessidade de tornar seu impacto ESG transparente e mensurável. Ele fornece classificações consistentes de sustentabilidade em nível de setor e país, ajudando a identificar exemplos de melhores práticas e áreas para melhoria.

Este primeiro recorte dos dados do Índice se concentra nos bancos e mercados de capitais europeus. Nosso trabalho mostra que os bancos europeus estão entre os líderes mundiais em sustentabilidade; durante o ano de 2020, os dez maiores players comprometeram-se a fornecer quase US$ 1,5tri de financiamento verde até  20301.  Mas o índice também destaca variações significativas entre os bancos europeus e identifica áreas específicas para melhoria – principalmente em produtos de financiamento verde, diversidade & inclusão e terceiros.

Em 2021, publicaremos novos recortes dos dados, abrangendo seguradoras, gestores de ativos e outras regiões. À medida que evolui, esperamos que o Índice acelere o progresso na sustentabilidade em todo o setor de serviços financeiros.

  • Metodologia

    O índice monitora mais de 200 divulgações relacionadas ao ESG, capturadas por agregadores de dados de terceiros a partir de relatórios anuais e outras fontes disponíveis publicamente, para mais de 1.100 empresas de serviços financeiros em todo o mundo. Ele analisa a amplitude e a profundidade da divulgação de cada instituição em relação a esses parâmetros individuais, que foram agrupados em 25 categorias sob os três pilares ambiental, social e de governança. Estes dados são compilados em um sistema de pontuação, que classifica os países conforme progridem em sua jornada de sustentabilidade, criando uma pontuação em dez (a pontuação ESG), bem como medindo a extensão da divulgação sobre a atividade (a taxa de divulgação), expressa como uma porcentagem. O Índice introduzirá novos parâmetros ao longo do tempo, permitindo que ele se adapte ao pensamento evolutivo do setor sobre finanças sustentáveis.

    O Índice está alinhado com o Stakeholder Capitalism Metrics, estabelecidas pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) e pelo Conselho Empresarial Internacional (IBC)2 . Ainda não é possível mapear diretamente os 209 parâmetros individuais do Índice com os 21 temas centrais do WEF-IBC, uma vez que muitos dos temas do WEF-IBC ainda não possuem métricas específicas. Entretanto, como o trabalho do WEF-IBC continua, nossos parâmetros evoluirão com ele, assegurando que o Índice permaneça alinhado com as Metas de Desenvolvimento Sustentável e que ele acompanhe os desenvolvimentos da Iniciativa Global de Relatórios, do Conselho de Padrões Contábeis de Sustentabilidade (SASB) e da Força Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD).

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Capítulo 1

Foco setorial: Bancos europeus

Os bancos europeus mostram liderança global, mas também há áreas a serem melhoradas.

O Índice de Finanças Sustentáveis cobre mais de 800 bancos em todo o mundo. Esta análise inicial centra-se em 68 bancos em sete mercados europeus principais: França, Alemanha, Itália, Países Baixos, Espanha, Suíça e Reino Unido. Quando se trata de financiamento verde, este grupo inclui algumas das instituições mais ambiciosas do mundo – apenas durante 2020, os 10 maiores bancos europeus assumiram compromissos para fornecer ou organizar US $1,48 Tri de financiamento verde na próxima década3.

Taxa de divulgação

60%

dos parâmetros do Índice são divulgados pela nossa amostra de 68 bancos europeus.

Nossa análise deste grupo revela quatro conclusões-chave de alto nível:

  1. Em geral, os bancos europeus superam seus pares bancários globais em todo o mundo com as taxas de divulgação em cada um dos três componentes ESG. A divulgação é um forte indicador de progresso, uma vez sugere que as empresas estão agindo para atingir os objetivos do ESG, estão dispostas para que seus esforços sejam examinados e empenhados em fazer melhorias adicionais. Os 68 bancos divulgam em média 60% dos parâmetros do Índice, em comparação com 48% para os bancos a nível mundial. Regulamentação e padrões compartilhados são um dos principais impulsionadores das taxas de divulgação, com os bancos marcando particularmente bem em áreas onde a regulamentação é mais clara, como a proteção de dados. O foco dos reguladores europeus na sustentabilidade é uma das razões fundamentais para esta superação. À medida que os esforços globais para estabelecer quadros comuns continuam, os bancos de outras regiões provavelmente começarão a fechar a lacuna com os seus homólogos europeus.

  2. Bancos maiores tendem a superar seus rivais menores, mesmo quando os dados são ajustados para escala. Por exemplo, todos os 8 dos maiores bancos europeus (> US$1tri em ativos) auditaram externamente relatórios de sustentabilidade, mas isso cai para 52% entre bancos menores (<US$250 bilhões em ativos). As taxas de divulgação também variam muito dependendo do tamanho. Um exemplo vem da Alemanha, onde os bancos com ativos acima de US $250 bilhões têm uma taxa média de divulgação de 70%, enquanto aqueles abaixo de US $250 bilhões têm uma taxa de divulgação de 45%. O Reino Unido apresenta outro caso, com bancos maiores relatando contra 72% dos parâmetros ambientais em comparação com apenas 25% entre os bancos menores. Ainda mais revelador é o fato de muitos bancos europeus menores estarem ausentes do Índice, uma vez que não divulgam dados relacionados com o ESG.

  3. Existem variações significativas entre os mercados europeus. Em média, os bancos franceses têm a pontuação mais alta, com uma taxa de divulgação consolidada de 75% e uma pontuação ESG de 6,6 em um possível 10. Em contraste, os bancos suíços têm uma taxa média de divulgação de 54% e uma pontuação de 4,9, e os bancos britânicos têm uma taxa média de divulgação consolidada de 62% e uma pontuação de 5,6. Entretanto, a diferença de desempenho entre bancos maiores e menores significa que estes números só contam metade da história. Entre os bancos maiores (aqueles com mais de 250 bilhões de dólares em ativos), o desempenho está muito mais alinhado entre nossos sete mercados escolhidos. As taxas médias de divulgação para este grupo estão dentro de uma faixa apertada; os bancos do Reino Unido saem em primeiro lugar com uma média geral de 79% e até mesmo os bancos de menor desempenho, na Alemanha, tem uma taxa de 70%.

  4. O desempenho ambiental, social e de governança está longe de ser consistente. Olhando para os 68 bancos em nossos mercados selecionados, notamos que:
    • As taxas de divulgação ambiental e as pontuações do ESG são as mais baixas dos três componentes-chave do ESG, com uma média de 44% e 4,6 respectivamente. Isto pode parecer surpreendente dado o nível de preocupação do público com as mudanças climáticas, mas reflete os desafios persistentes em torno das divulgações ambientais. Exemplos de temas ambientais difíceis de quantificar para os quais as pontuações do Índice incluem emissões, eficiência energética, uso de água, gerenciamento de resíduos e reciclagem. Mesmo assim, em média, os 68 bancos europeus neste conjunto de dados superam fortemente o agregado global de 23%. Os bancos franceses têm a maior taxa média de divulgação ambiental (75%), mas entre os 20 maiores bancos da Europa são os bancos italianos que lideram o campo com uma taxa de divulgação ambiental de 83%.

    • As taxas de divulgação social são mais fortes do que as ambientais. As taxas de divulgação para os 68 bancos são em média 55% em todos os 66 parâmetros sociais do índice, em comparação com um valor global de 40%. Mais uma vez existem contrastes nacionais significativos, mas o desempenho europeu é elevado pelos padrões globais, refletindo um forte desempenho em diversas áreas, incluindo proteção de dados, diversidade e inclusão e práticas comerciais justas. Os bancos franceses têm a maior taxa média de divulgação (71%), mas entre as empresas maiores são novamente os bancos britânicos que lideram (75%); em contraste, os grandes bancos holandeses têm uma média de 62%. As variações dos países também são evidentes através de parâmetros específicos. Por exemplo, as pontuações para a proteção de denunciantes variam de um  "10 perfeito" entre os bancos holandeses a uma média de 4,3 para os bancos alemães.

    • O desempenho da governança é o componente mais forte do ESG, com uma taxa de divulgação geral europeia de 70% em comparação com 65% em todo o mundo. Os bancos britânicos são líderes mundiais nesta área; mesmo os bancos britânicos menores têm uma taxa média de divulgação de informações sobre governança de 78%. Este forte desempenho reflete os esforços regulatórios durante várias décadas, com eficácia e independência do conselho, proteção aos acionistas e transparência entre as áreas de força específicas do Reino Unido. Nem todos os mercados são tão consistentes. Por exemplo, os grandes bancos italianos, que têm uma forte pontuação ambiental de 7,9, registram uma pontuação média de governança de apenas 6,2.
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Capítulo 2

Áreas de melhoria em todos os mercados

São necessários progressos adicionais em produtos ecológicos, D&I e riscos de terceiros.

Análise mais granular dos dados no Índice de Finanças Sustentáveis destaca potenciais pontos cegos e áreas de melhoria. Existem três áreas específicas em que o Índice mostra que muitos bancos europeus poderiam acelerar os seus progressos em matéria de sustentabilidade.

1. Desenvolvimento de produtos ecológicos eficazes

Um subconjunto dos parâmetros ambientais do Índice avalia o desenvolvimento de produtos e soluções "verdes". O Índice mostra que esta é uma área onde muitos bancos europeus poderiam fazer melhor. Isso pode envolver o lançamento de mais produtos verdes, a avaliação de investimentos e garantias contra riscos ambientais, ou a incorporação da mudança climática e outros fatores ambientais nas estruturas de gerenciamento de risco. Os bancos franceses estabelecem a pontuação média mais alta em nossos sete mercados escolhidos. Isto é superado pelos grandes bancos britânicos, que têm uma forte pontuação de 9,5, embora os bancos britânicos menores tenham apenas 1,6.

Pontuação de finanças sustentáveis

8.6

de cada 10 é a pontuação média do Índice para as divulgações de financiamento sustentável dos bancos franceses.

Para os bancos que precisam melhorar, estabelecer uma política clara é o ponto de partida óbvio. Mas, se o financiamento verde é melhorar materialmente a sustentabilidade, os bancos precisam projetar e promover produtos ou serviços com impactos materiais e mensuráveis sobre fatores ESG. A análise da EY mostra que, embora a maioria das finanças sustentáveis seja projetada para proporcionar melhorias tangíveis, alguns dos 68 bancos deste conjunto de dados estão aplicando esse conceito vagamente — por exemplo, a iniciativas destinadas a aumentar a adoção do banco digital.

2.  Indo mais longe na diversidade & inclusão

Em matéria de pessoal, muitos bancos europeus têm um desempenho comparativamente bom em áreas como o bem-estar dos funcionários e possuem políticas claras sobre direitos humanos. Mas há uma clara necessidade de mais progressos em matéria de diversidade e inclusão. 

Em média, os bancos europeus têm representação do conselho feminino de 32%, mas o que é mais preocupante é que o foco na diversidade é limitado no escopo, com 14% dos bancos no mercado de 7 focados em não relatar a diversidade de gênero abaixo do nível do conselho. Além disso, a análise da EY dos bancos europeus revela relatórios limitados de outras formas de diversidade, como etnia, orientação sexual ou deficiência. Há um escopo claro para os bancos fazerem mais para demonstrar que são locais de trabalho diversificados e inclusivos, melhorando a transparência e os níveis de relatório.

3. Foco mais nas cadeias de suprimentos

Fornecedores, parceiros e outros terceiros tornaram-se um foco importante de gestão de riscos e governança em todos os setores nos últimos anos. No setor bancário, o crescente uso de fornecedores de tecnologia aumentou os riscos de terceiros em relação ao uso de dados pessoais. Apesar do aumento do foco na mitigação, o Índice identifica um escopo claro para muitos bancos europeus reforçarem suas políticas de cadeia de suprimentos. 

Na área ambiental, apenas 44% dos bancos em nossos sete mercados escolhidos informam que realizam pesquisas sobre o desempenho ambiental de seus fornecedores, e apenas 16% informam ou mostram disponibilidade para encerrar uma parceria se os critérios ambientais não forem atendidos. Enquanto isso, apenas 21% dos bancos deste grupo estabeleceram políticas focadas em evitar violações de direitos humanos por parte de contratantes, uma constatação que se compara desfavoravelmente com as taxas de divulgação em alguns mercados bancários em desenvolvimento, tais como o Brasil e a Turquia. Entretanto, é importante observar que embora não sejam divulgadas, isto não implica que tais políticas não estejam em vigor, mas sinaliza que é necessária maior transparência e relatórios padronizados.

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Capítulo 3

Olhando para o futuro: O que devemos esperar?

O índice acompanhará as melhores práticas à medida que o financiamento sustentável evolui para o futuro.

O Índice de Sustentabilidade Financeira mostra que o progresso de cada empresa em sustentabilidade normalmente segue uma sequência de identificação de questões, estabelecimento de políticas, divulgação e padronização antes que relatórios consistentes e significativos possam ser alcançados. 

Em 2020, o aumento das expectativas dos investidores, os testes de estresse de supervisão temáticos de sustentabilidade, a cúpula COP26, o  Plano de Ação da UE sobre finanças sustentáveis, o crescimento e a força da opinião pública estão impulsionando uma maior atenção da administração sobre sustentabilidade. Como resultado disso, e o impacto da nova regulamentação e legislação, como o novo plano do Reino Unido para tornar obrigatória a divulgação do TCFD até 2025, esperamos que a pontuação do índice para os bancos na Europa melhore este ano.

Divulgação de emissões

90%

dos bancos do Reino Unido em nossa amostra relatam suas emissões equivalentes de CO2.

No entanto, este é um benchmark da indústria, e os altos padrões de hoje serão as expectativas mínimas de amanhã. As instituições financeiras precisam estar observando os líderes de mercado e estabelecendo estratégias ambiciosas agora para garantir que eles permaneçam à frente da curva. 

Iniciativas globais como o WEF-IBC irão impulsionar uma maior convergência entre os bancos da Europa e os do resto do mundo? Será que os bancos menores irão recuperar terreno sobre seus maiores rivais? As seguradoras e gestores de ativos terão melhor desempenho do que os bancos? Estamos ansiosos para descobrir.

Resumo

Uma série de fatores está impulsionando os avanços em finanças sustentáveis. Conforme o setor avança, o Índice irá evoluir com ele, ajudando as empresas a monitorar as melhores práticas e a desenvolver estratégias vencedoras para finanças sustentáveis.

Sobre este artigo

Por Gill Lofts

EY Global Financial Services Sustainable Finance Leader

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