Astrônomo em cúpula de telescópio fotográfico com luz vermelha

Por que a IA irá facilitar a gestão de riscos e controvérsias tributárias

As empresas esperam que as ferramentas de IA as ajudem a gerenciar melhor as auditorias fiscais e a resolver litígios.


Em resumo

  • Quase 70% das áreas fiscais criaram  ou integraram  pelo menos uma ferramenta de IA generativa voltada a controvérsias tributárias.
  • Os impostos sobre serviços digitais tornaram-se uma das principais preocupações em termos de controvérsias tributárias futuras.
  • Uma forte governança tributária, juntamente com uma melhor tecnologia voltada a impostos, desempenhará um papel fundamental na gestão de riscos e controvérsias tributárias.

A controvérsia tributária chegou a um ponto de inflexão. Enquanto o volume e o tempo de resolução de controvérsias tributárias continuam a aumentar, empresas e autoridades fiscais estão correndo para adotar a tecnologia, inclusive a IA generativa (GenAI), para aliviar a carga de trabalho. E isso não tem volta.

 

A pesquisa de Risco e Controvérsia Tributária da EY de 2025, realizada com 1.934 executivos seniores da área fiscal, revela que 87% preveem que a IA generativa melhorará a gestão de controvérsias no futuro, tornando o processo de auditoria fiscal e resolução de disputas mais eficiente, menos demorado e mais preciso. Quase sete em cada dez afirmam que já criaram pelo menos uma ferramenta com IA generativa voltada para a gestão de controvérsias tributárias ou que estão integrando a IA generativa a outros processos importantes. Essas ferramentas estão se tornando cada mais necessárias e preparadas para gerenciar um novo mundo de mudanças diversas e até mesmo diárias impulsionadas pelas tarifas comerciais .

 

O ritmo de adaptação da tecnologia joga um holofote sobre o futuro das controvérsias tributárias: o tempo de documentação e defesa de posições feitas anos ou até mesmo décadas atrás em auditorias está sendo substituído por interações em tempo real. Isso, por sua vez, pode levar a uma maior precisão geral, reduzindo potencialmente o número de pontos críticos ou, pelo menos, o tempo necessário para resolvê-los.

 

"Esse sempre foi o objetivo de ambos os lados: fazer a coisa certa", diz Marna Ricker, Vice-presidente Global de Impostos da EY. "Conversas fundamentadas muito mais em dados resultam em menor discordância – é possível começar com fatos e depois sobrepô-los com regras técnicas e políticas tributárias."

 

A rápida integração da IA generativa e de outras tecnologias voltadas a impostos também indica que, embora as fontes de controvérsias tributárias não mostrem sinais de diminuição – na verdade, novos pontos surgem quase que diariamente, tanto em termos de volume de controvérsias quanto do tempo de resolução das disputas – o paradigma histórico com base no qual as controvérsias tributárias eram, em grande parte, resolvidas  está em constante mudança. A integração acelerada da IA generativa apenas mostra como como a gestão de dados – coleta, limpeza, divulgação e análise  – é fundamental; a pesquisa constata que aqueles que já estão desenvolvendo ferramentas de IA generativa e integrando-a de forma mais ampla estão demonstrando níveis de satisfação mais altos com a gestão de controvérsias tributárias. Isso também é fundamental para a onda de "digitalização" que vemos em praticamente todas as agências tributárias do mundo.

A IA generativa melhorará a controvérsia tributária
87%
dos participantes da pesquisa afirmam que a IA generativa melhorará a gestão futura de controvérsias tributárias e tornará o processo de auditoria fiscal e resolução de disputas mais eficiente e preciso.

Obviamente, a tecnologia voltada a impostos, por si só, não fará com que as empresas e autoridades fiscais eliminem obstáculos. Por um lado, as empresas dizem que ainda enfrentam muitos obstáculos para a integração total e bem-sucedida da IA generativa e de ferramentas similares, desde garantir talentos e orçamento até o desenvolvimento de casos de uso. Por exemplo, as empresas precisam de uma sólida governança tributária para atenderem às autoridades fiscais, que também estão buscando a integração da tecnologia para facilitar a aplicação de leis tributárias em tempo real. E a pesquisa conclui que, apesar de haver progressos significativos em  algumas áreas,  a maioria das empresas ainda tem um caminho longo pela frente para melhorar seus processos.

Reconhecer o estado futuro é apenas o primeiro passo. E as empresas agora precisam tomar uma série de medidas para chegar lá, inclusive continuar investindo em tecnologia e integrá-la. E também continuar a transformar toda a sua abordagem para gestão de controvérsias para que estejam prontas para argumentar com as autoridades com confiança e determinação.

"A tecnologia é um divisor de águas para a controvérsia tributária", diz Luis Coronado, Líder Global de Serviços de Controvérsia Tributária da EY. "Mas é preciso ter mais do que apenas a ferramenta certa; é também necessário ter a equipe certa com o treinamento certo e o plano de jogo e visão certos."

Homem observando a vista da praia ao nascer do sol
1

Capítulo 1

Como a IA generativa está mudando a controvérsia tributária

Os líderes de controvérsia tributária estão adotando a IA generativa, sinalizando um rápido progresso na curva de adoção pelas áreas fiscais.

A pesquisa de Risco e Controvérsia Tributária fornece evidências de que a curva de adoção da IA generativa pelas áreas fiscais apresenta evolução constante. O fato de 39% dos entrevistados afirmarem que criaram pelo menos um piloto ou ferramenta focada em riscos ou controvérsias tributárias e de que outros 30% começaram a integrar a IA generativa a outros processos importantes demonstra um progresso significativo, corroborado pela pesquisa sobre Operações Fiscais e Financeiras de 2025, que também revela um avanço constante dessas áreas em termos de IA generativa.

Em geral, os entrevistados dizem que estão usando ou esperam usar a IA generativa para essas três finalidades principais:

  • Analisar e resumir grandes volumes de informações externas sobre impostos (especialmente legislações novas e propostas de lei)
  • Analisar e resumir grandes volumes de informações sobre impostos geradas internamente (como pareceres, memorandos, atas de reuniões)
  • Melhorar a consistência dos dados compartilhados com as autoridades fiscais

Uma proporção significativa também a utiliza para outras tarefas, como melhora da identificação e gestão de riscos tributários emergentes, geração de evidências e documentos em tempo real e automação ou automação parcial de respostas a consultas feitas pelas autoridades fiscais. Por outro lado, um pouco mais de um quarto dos entrevistados afirma estar usando a tecnologia (mas não necessariamente a IA generativa) para realizar análises preditivas.

Ferramentas de IA generativa voltadas a controvérsias tributárias
~70%
afirmam que criaram ou estão integrando pelo menos um piloto ou ferramenta voltado a riscos ou controvérsias tributárias

Daren Campbell, Líder de Inovação em Impostos da EY Americas, diz que projetos-piloto devem ser considerados nos estágios iniciais da adoção.

"A maioria dos projetos-piloto e dos primeiros casos de uso que estou vendo estão relacionados a classificação, resumo de documentos e extração de elementos-chave", afirma. Especificamente para controvérsias tributárias, "temos casos de uso relacionados ao rastreamento de autos de infração e ao uso de IA para extrair os principais elementos dos autos".

Como as autoridades fiscais estão integrando a IA generativa

As autoridades fiscais também estão avançando na curva de adoção da IA. Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre agências tributárias mostra que 29 de seus 38 membros estão usando alguma forma de IA em 2024; 79% estão usando-a especificamente para detectar evasão e fraude fiscal, enquanto outros a usam para finalidades que vão desde assistentes virtuais para os oficiais das agências a melhoria do atendimento aos contribuintes.1 Os casos de uso vão desde análise de mapas para detectar grupos que não fizeram a declaração na Grécia e deveriam pagar o imposto predial a sofisticados chatbots em Cingapura que respondem a uma série de perguntas sobre imposto de renda. 

À medida que se sentem mais à vontade para lidar com grandes quantidades de dados e tecnologia avançada, as agências tributárias estão adotando esses aplicativos em ritmo acelerado. Entre 2018 e 2022, o número de agências que usam ferramentas com IA e aprendizado de máquina (ML) aumentou em 34%, e 8% planejavam seguir esse mesmo caminho.2

Elas agora estão começando a pesquisar e desenvolver soluções que usam a IA generativa para automatizar tarefas como revisão de declaração de imposto, auditoria de documentos e orientação ao contribuinte. A Dirección de Impuestos y Aduanas Nacionales (DIAN), a autoridade fiscal da Colômbia, por exemplo, está usando a IA generativa para criar mensagens personalizadas para os contribuintes a fim de aumentar a conformidade e reduzir a sonegação. A França está usando-a para combater fraude no imposto predial. O Japão a utiliza para analisar dados de diversas fontes e determinar quais contribuintes têm a probabilidade de não apresentar a declaração. Essas informações são usadas para a realização eficiente de auditorias. 

Melhoria da satisfação

A pesquisa mostra que as áreas fiscais das empresas que já integraram essa tecnologia estão gostando dos resultados. Cerca de 91% dos que usam IA de qualquer tipo afirmam que estão um pouco ou muito satisfeitos com a gestão de controvérsias, o que representa nove pontos a mais em relação aos entrevistados em geral.  

As áreas fiscais estão integrando a tecnologia
91%
dos que usam IA de qualquer tipo afirmam que estão um pouco ou muito satisfeitos com a gestão de controvérsias.

Além disso, os que já integraram a IA generativa para controvérsias tributárias apresentaram maior propensão de afirmar que estão "muito" satisfeitos (46%) do que os que não o fizeram (31%). E, entre os que já integraram a IA generativa a outros processos, ferramentas ou plataformas importantes, 92% concordam ou concordam totalmente que "as empresas que incorporarem a IA generativa para criar uma plataforma única, integrada e completa para riscos e controvérsias tributárias terão mais êxito na gestão de controvérsias tributárias no futuro".

"Todos enxergam o potencial, e os pioneiros já estão começando a receber os dividendos", diz Coronado. "Isso criará um ciclo de reforço positivo que só incentiva mais inovação, o que ajudará as áreas fiscais a operar com confiança em controvérsias tributárias no futuro."

Sem dúvida, os entrevistados enfrentam muitos desafios para uma maior integração. Garantir talentos que saibam como trabalhar com a tecnologia é a maior barreira, citada por 44% dos entrevistados. Garantir o orçamento e não ter insights ou ideias suficientes sobre os casos de uso da IA generativa também são obstáculos.

"A integração da IA generativa e de agentes de IA será um processo contínuo", diz Campbell . "A boa notícia é que isso pode produzir resultados quase que imediatamente."

Mulher jovem aprecia a vista
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Capítulo 2

Surgem novas fontes de controvérsias tributárias

Preocupações sobre o imposto mínimo global do Pilar 2, impostos sobre serviços digitais e <em>transfer pricing</em> estão se sobrepondo às cargas de trabalho atuais, e muitas empresas não estão preparadas.

Obviamente, a IA generativa não  fará com que a controvérsia tributária desapareça. Pelo contrário, mais do que nunca, há mais causadores impulsionados principalmente por mudanças legislativas e regulatórias rápidas e persistentes. Mas a IA generativa deve emergir como uma ferramenta útil para gerir riscos e minimizar problemas de preparação, enquanto as áreas fiscais desenvolvem tecnologia para gerenciar as controvérsias existentes.

Como nos últimos anos, uma combinação entre cooperação internacional sobre política tributária e administração tributária será responsável por um número cada vez maior de contenciosos tributários nos próximos três anos, segundo os entrevistados da pesquisa. Essas disputas podem também levar mais tempo para serem resolvidas.

Aumentam as preocupações com o Pilar 2 e os impostos sobre serviços digitais 

No que se refere à política, a controvérsia futura será impulsionada , em grande parte, por mais jurisdições que promulgam legislações sobre a reforma tributária recomendada pela OCDE devido ao seu projeto sobre erosão da base tributável e transferência de resultados (BEPS). Embora muitas dessas mudanças estejam sendo implementadas por país, somente metade dos entrevistados se descreve como "altamente preparada" para lidar com os pontos críticos relacionados a muitas delas. 

Especificamente: 

  • 92% afirmam que a crescente implementação por cada jurisdição de um imposto mínimo global, conforme o requisito do Pilar 2 do BEPS, aumentará o número de litígios "um pouco ou significativamente". 
  • 91% afirmam que o fato de os países não chegarem a um acordo sobre a realocação de uma parte dos lucros das maiores empresas multinacionais para as jurisdições onde seus clientes estão localizados, independentemente de as multinacionais terem ou não uma presença física no local, aumentará o número de litígios "um pouco ou significativamente". 
  • 90% afirmam que as recomendações relativas a transfer pricing aumentarão o número de contenciosos tributários "um pouco ou significativamente". Somente 49% afirmam estar "altamente preparados" para gerenciar a futura carga de trabalho.

Preocupações com os impostos mínimos globais são onipresentes nas áreas fiscais, que estão trabalhando para apresentar em 2026 as primeiras declarações com base nas regras globais de Combate à Erosão da Base Tributável (GLoBE), que calculam, entre outras coisas, se impostos adicionais são devidos em determinadas jurisdições. 


O fato de os impostos sobre serviços digitais terem sido identificados, pela primeira vez na história da pesquisa, como a fonte mais significativa de risco tributário nos próximos três anos sugere que alguns executivos da área fiscal estão céticos quanto à possibilidade de se chegar a um acordo sobre o Montante A, os novos direitos de tributação no BEPS 1.0. O Montante A realoca uma parte dos lucros das maiores e mais lucrativas empresas multinacionais do mundo para as jurisdições onde seus clientes ou usuários estão localizados, independentemente de sua presença física. A falta de um acordo resultaria em novas disputas tributárias sobre as atividades digitais. Isso pode ser uma má notícia para o setor de tecnologia, mídia e telecomunicações, que, juntamente com o setor de private equity, afirma ter o maior número de controvérsias tributárias em andamento entre todos os setores; 12% dos entrevistados desses setores afirmam ter mais de 100 auditorias ativas.

As previsões de controvérsias relacionadas ao Montante B, que visa simplificar as distribuições rotineiras de preços de transferência, são menos surpreendentes porque a gestão de controvérsias de transfer pricing tem sido uma das principais preocupações dos entrevistados (e o transfer pricing foi novamente uma das cinco principais fontes de risco). No entanto, o fato de apenas 50% afirmarem que estão altamente preparados sugere que existe uma oportunidade para a implementação de tecnologia, inclusive IA, para ajudar. Por exemplo, 49% dizem que esperam adaptar sua documentação de transfer pricing às necessidades específicas de cada autoridade fiscal, uma tarefa que poderia ser simplificada com um agente de IA.

O potencial da IA generativa de oferecer soluções para reduzir os riscos associados ao BEPS está sendo estudado, especialmente porque pode ser usado para ajudar as organizações a acessar e gerenciar dados. Além de acompanhar os desdobramentos do Pilar 2, pode ser útil na adaptação dos processos de coleta de documentação e evidências de transfer pricing para melhor atender às demandas específicas de uma ou mais autoridades fiscais nacionais. Também pode ajudar as empresas a expandir e melhorar a coleta de evidências e documentação síncronas de transfer pricing.

Mais transparência fiscal significa mais controvérsia

A atual controvérsia tributária está sendo amplamente impulsionada por mais auditorias fiscais, mais demandas por informações, mais ajustes de preços de transferência e melhor coordenação entre os governos. Cerca de 99% dos entrevistados afirma ter pelo menos uma disputa tributária em andamento, e 69% afirmam ter entre 11 e 99.

Dois desdobramentos na administração tributária impulsionados pela crescente transparência fiscal podem aumentar essas cargas de trabalho. Especificamente:

  • 92% afirmam que a troca de informações entre autoridades fiscais de diferentes jurisdições aumentará o número de disputas tributárias "um pouco" ou "significativamente".

  • 92% acreditam que algumas jurisdições que decidirem disponibilizar ao público geral as divulgações conhecidas como declarações país a país aumentarão as disputas tributárias "um pouco" ou "significativamente".

A troca de informações sobre impostos entre as autoridades fiscais cresceu junto com uma cooperação mais ampla entre as autoridades, o que pode explicar por que um terço dos entrevistados diz esperar uma maior coordenação entre os departamentos das receitas nos próximos três anos. Grande parte do trabalho tem como objetivo reduzir a dupla tributação ou tentar dar aos contribuintes mais segurança em áreas que incluam a conformidade com o Pilar 2, e reduzir os encargos de declaração, mas também há mais cooperação em questões de execução fiscal. O Common Reporting Standard, que facilita a troca automática de informações sobre contas financeiras entre as autoridades fiscais de todo o mundo, cresceu exponencialmente e agora conta com a participação de mais de 120 jurisdições. Além disso, a Força Tarefa Conjunta para Compartilhamento de Inteligência e Colaboração (JITSIC) do Fórum sobre Administração Tributária (FTA) da OCDE, criada originalmente em 2004 para combater a evasão fiscal transfronteiriça, agora tem mais de 30 membros ativos. 

A divulgação pública da CbCR é um fenômeno mais recente. As maiores multinacionais do mundo têm sido obrigadas a fornecer informações fiscais e financeiras país a país a um número cada vez maior de países desde 2016, como parte do projeto BEPS original. O relatório fornece às autoridades fiscais mais informações sobre as pegadas geográficas da empresa e como suas atividades fiscais e econômicas estão relacionadas. Como grande parte dos dados é comercialmente sensível, as autoridades fiscais foram obrigadas a manter a confidencialidade dos dados. 

No ano passado, a União Europeia (UE) e a Austrália promulgaram uma legislação que exige que as empresas tornem públicos esses relatórios. De acordo com a diretriz da UE, as empresas multinacionais devem divulgar os impostos de renda pagos e outras informações relacionadas a impostos, como a composição dos lucros e receitas e o número de colaboradores por país, para todos os 27 Estados-Membros da UE e todas as jurisdições listadas como não cooperativas para fins tributários. 

As multinacionais agora temem que os relatórios sejam mal interpretados, criando riscos fiscais e de reputação. Essa é uma área em que a IA generativa pode ser útil – mais do que nunca, as multinacionais dedicam-se a divulgar dados precisos e consistentes que se alinhem a outras informações públicas. A possibilidade de usar a IA generativa para uma análise rápida de suas pegadas digitais e comparar declarações públicas e financeiras ajudará nesse esforço. Também pode ajudar as empresas com a documentação relacionada a possíveis pedidos de restituição de imposto.

Nota fiscal eletrônica e incentivos fiscais 

Os riscos tributários associados aos incentivos fiscais são provavelmente um efeito colateral das políticas promulgadas como estímulo econômico durante a pandemia da COVID-19. A intensidade da aplicação de impostos indiretos, especialmente o imposto sobre valor agregado (IVA), deve aumentar conforme a expansão da emissão de nota fiscal eletrônica.

Impostos indiretos
28%
dizem que o IVA, o IBS e outros impostos indiretos serão sua fonte mais significativa de risco tributário nos próximos três anos.

Impulsionado mais recentemente pela proposta de IVA na Era Digital (ViDA) da Comissão Europeia, a nota fiscal eletrônica pode oferecer um vislumbre melhor do estado futuro da administração tributária – incluindo da controvérsia tributária – porque os contribuintes estão interagindo cada vez mais em tempo real com as autoridades fiscais. Os benefícios para os governos incluem a detecção de padrões, a previsão de tendências futuras (ou seja, o comportamento criminoso) e a redução da fraude. Os benefícios para os contribuintes incluem a simplificação da conformidade, melhorando a precisão e a eficiência com prazos de entrega menores. Ambas as partes se beneficiam das eficiências do processo.

A meta final das autoridade fiscais é desenvolver um banco de dados eletrônico melhor (automatizar progressivamente as avaliações de risco, a seleção de auditoria e a cobrança de impostos por meio da utilização de documentos eletrônicos) para tudo na cadeia de suprimentos, começando pela produção, que seja capaz de automatizar totalmente os exames e as auditorias.3

No entanto, a logística de lidar com um labirinto de regras e regulamentos e cronogramas de implementação em constante mudança está se tornando mais complexa à medida que mais jurisdições adotam a norma (medidas eficazes incluem isenções de formalidades selecionadas durante a integração, vinculação de recibos eletrônicos do consumidor a deduções de imposto de renda e declarações de IVA pré-preenchidas com o suporte de ferramentas de emissão gratuitas de internet/celular). A integração dos novos requisitos de nota fiscal eletrônica às plataformas de TI existentes é um desafio para as grandes empresas multinacionais. Os contribuintes também estão tendo que aplicar a engenharia reversa na interpretação feita pelas autoridades fiscais ao comprovar cálculos de impostos antecipados e declarações que exigem pagamento em conflito com as posições do contribuinte.

Aqui também os recursos de recuperação e categorização de dados da IA generativa podem oferecer algumas soluções e permitir a personalização dos serviços. 

Um escalador de gelo olha para as profundezas
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Capítulo 3

Uma nova abordagem à governança tributária

As empresas precisam adotar uma abordagem holística para a gestão de controvérsias tributárias, começando com uma estrutura de governança que possa se adaptar às rápidas mudanças.

O novo ambiente de controvérsias tributárias viabilizado pela tecnologia exigirá novas abordagens e novas estratégias. Tendo em vista a possibilidade de aumento de controvérsias tributárias, a pesquisa concluiu que as empresas em geral ainda não estão preparadas para o futuro, e muitas ainda adotam uma postura reativa. Apenas 31% afirmam estar "muito satisfeitos" com a forma como sua empresa administra as controvérsias tributárias atualmente. Os motivos mais comuns de insatisfação incluem a falta de habilidade do pessoal de finanças e impostos para gerenciar ou reportar com eficácia novas controvérsias tributárias locais, "a atitude das autoridades fiscais em relação às empresas de grande porte" e o volume e a complexidade de leis e regulamentos tributários novos ou em desenvolvimento.

Além disso, apenas 9% dos entrevistados afirmam ter "visibilidade total" sobre as auditorias e litígios em andamento, o que é nitidamente inferior às pesquisas anteriores, que apontavam cerca de um quarto. (Para se ter uma ideia, 49% dizem ter visibilidade "substancial"). De fato, os que possuem visibilidade total das controvérsias têm maior probabilidade de gerir controvérsias com uma tecnologia ou plataforma global de auditoria e rastreamento (34%) em comparação com os que não têm visibilidade total (25%). Eles também são mais propensos a estar muito satisfeitos com a administração atual das controvérsias tributárias de sua empresa (67%) em comparação com os que não têm visibilidade total (28%).

A maioria dos entrevistados diz que deseja adotar uma abordagem mais proativa. Noventa e um por cento dos entrevistados estão "um pouco ou significativamente" propensos a se concentrarem mais na melhoria da governança tributária global nos próximos três anos.

Melhor governança tributária resulta em melhor gestão de controvérsias tributárias

Uma sólida governança tributária será crucial para fazer face ao futuro da controvérsia tributária, pois as autoridades fiscais a consideram um indicador-chave das questões fiscais de grupos.

Em essência, uma governança tributária robusta tem como foco a criação de uma cultura de prestação de contas, transparência, prevenção e comportamento ético. Embora a tecnologia, os processos e a documentação desempenhem papéis fundamentais, são apenas ferramentas nas mãos das pessoas responsáveis pela abordagem geral aos impostos e pelas operações fiscais diárias.

Operar em um ambiente tributário tão dinâmico, onde as considerações tributárias estão em constante evolução, pode significar que muitas estruturas não estão acompanhando o ritmo das mudanças. Elas exigem atualizações constantes, o que pode resultar em riscos que as tornam insustentáveis. O uso da IA generativa pode ajudar os contribuintes a acompanhar o ritmo acelerado das mudanças, não apenas identificando as alterações no ambiente tributário, mas também facilitando o processo de atualização das estruturas de governança tributária. Os modelos de governança modernos mais eficazes combinam tarefas específicas com um conjunto de princípios abrangentes por meio dos quais essas tarefas podem ser vistas e executadas, e são adaptáveis, permitindo que a estrutura de governança apoie a tomada de decisões quando novas circunstâncias forem apresentadas.

Lacuna de preparação

A pesquisa revela que quase nove em cada dez das maiores empresas – aquelas com receita superior a US$ 100 bilhões – afirmam ter implementado uma atividade fundamental de governança tributária para avaliar o risco fiscal, como a criação de um "comitê" de risco tributário. Mas quase nenhuma implementou todas elas. 

As empresas menores também apresentaram maior probabilidade de implementação de pelo menos uma dessas atividades. Por exemplo, mais de sete em cada 10 empresas com receitas entre US$ 10 bilhões e US$ 99,9 bilhões implementaram pelo menos uma atividade. E nenhuma delas implementou todas . Isso sugere que o progresso da implementação de uma governança tributária forte é lento.

Os entrevistados que usam uma abordagem sistemática em uma ou mais dessas atividades estão mais satisfeitos com a gestão de controvérsias como um todo. E cerca de dois terços dos que não implementaram essas atividades reconhecem que fazê-lo "melhoraria significativamente" seus resultados. 

Resolução alternativa de conflitos

Além de fortalecer a governança tributária internamente, para muitas empresas será mais importante do que nunca construir um relacionamento de confiança com as autoridades fiscais. Isso inclui o uso de programas de pré-envio de declarações que oferecem um grau maior de certeza e  assistência pós-envio a fim de administrar a dupla tributação quando ela ocorrer. Nesse item, a pesquisa detectou mais oportunidades  de assistência por IA generativa, pois os entrevistados expressaram muita frustração com a forma como os programas atuais funcionam e poucos os usam efetivamente.

Os acordos de precificação antecipada (APAs), por exemplo, nos quais os preços de transferência são acordados entre os contribuintes e os governos antes da apresentação das declarações, são uma dessas ferramentas, mas são descritos como difíceis porque levam muito tempo, custam muito caro ou não estão disponíveis nos mercados alvo. Consequentemente, apenas 25% afirmam ter uma estratégia de APA definida. É possível que a IA generativa, com sua capacidade de analisar grandes quantidades de dados e fazer recomendações, possa eventualmente ajudar a realizar uma análise das condições de mercado para determinar o preço adequado. 

Os entrevistados também expressaram certa frustração com o Procedimento de Assistência Mútua (MAP) administrado pela OCDE. O MAP oferece assistência pós-envio quando a dupla tributação resulta de divergências entre países. Os entrevistados que usam o MAP sempre que possível estão um pouco mais satisfeitos com a gestão geral de controvérsias (85%) em comparação com os que não usam (80%). No entanto, 48% dizem que tiveram o MAP negado por pelo menos uma jurisdição, e 46% dizem que o MAP é muito complexo ou leva muito tempo para consideram seu uso.

Dois exploradores em uma grande caverna
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Capítulo 4

O que as empresas devem fazer a seguir

Com a transformação da controvérsia tributária para a conformidade em tempo real, a IA generativa e a governança sólida redefinem o futuro.

A controvérsia tributária está prestes a mudar para sempre. Os dias de resolução de disputas sobre posições tomadas anos ou mesmo décadas atrás estão dando lugar à conformidade em tempo real. Isso já está acontecendo com os impostos indiretos, e uma maior transparência fiscal está levando os stakeholders na mesma direção no que refere aos impostos sobre a renda. 

A tecnologia, especialmente a IA generativa e os agentes de IA, surge como uma ferramenta essencial tanto para os contribuintes quanto para as autoridades fiscais. Mas, como toda ferramenta, elas são tão úteis quanto seu usuário. Para se beneficiar, as áreas fiscais, especialmente as que se concentram na gestão de riscos e controvérsias tributárias, devem transformar sua abordagem, para que obtenham êxito no futuro. Quatro coisas que as empresas devem fazer agora:

Adotar e integrar a IA generativa e a tecnologia para impostos 

As áreas fiscais têm estado na vanguarda do uso comercial de IA generativa desde que seus recursos se tornaram amplamente acessíveis em 2022, pois são a câmara de compensação de todos os dados de grupos. As ferramentas com IA generativa já estão mudando a forma como as áreas fiscais funcionam, e mais inovações virão, especialmente à medida que os cientistas de dados se concentram em casos de uso para resolver desafios perpétuos de gestão de controvérsias. Quando a IA generativa puder ser usada para estabelecer fatos e dados comuns, ela trará mais precisão e eficiência à resolução de disputas. Também facilitará a conformidade em tempo real, cada vez mais exigida. As empresas não podem se dar ao luxo de ficar para trás.

Obter melhor visibilidade das disputas fiscais

A visibilidade total das disputas fiscais tem sido um objetivo há muito tempo, mas a meta ganhou mais urgência com a implementação cada vez mais acelerada das regras tributárias mínimas globais do Pilar 2 em cada país e com a preocupação de que os impostos sobre serviços digitais impostos unilateralmente possam se tornar novos riscos que precisam ser gerenciados. Os resultados da pesquisa são indiscutíveis: as áreas fiscais com maior visibilidade sobre todas as suas controvérsias têm resultados mais satisfatórios.

Fortalecer a governança tributária

Ter uma governança tributária forte e adaptável sinaliza credibilidade para as autoridades fiscais que classificam os contribuintes de acordo com o risco, e permite que as empresas respondam com confiança quando houver disputas. Esse é o componente "humano no processo" que complementa e ajuda a gerenciar a crescente influência da IA generativa no ambiente de controvérsias tributárias. Quando se trata de adotar os sete elementos-chave da boa governança tributária, as empresas devem implementar todas as sete atividades; muitas delas implementaram apenas uma.

Buscar a certeza sempre que possível por meio de programas alternativos de resolução de disputas

As frustrações com APAs, MAP e outros programas alternativos de resolução de disputas foram bem documentadas ao longo da história desta pesquisa e da pesquisa sobre Preços de Transferência da EY. No entanto, a combinação de uma governança tributária mais forte e a implantação da IA generativa pode ajudar a tornar a habilitação para esses programas mais eficiente ou possivelmente mais fácil. No futuro das controvérsias tributárias, será importante garantir o nível de certeza que houver. 


Resumo

A  pesquisa de Risco e Controvérsia Tributária de 2025 revela que as áreas fiscais estão investindo em ferramentas de IA com a expectativa de que elas melhorem a gestão de riscos e controvérsias. Isso ocorre conforme a origem das controvérsias tributárias se diversifica, o que inclui preocupações contínuas sobre os impostos mínimos globais do Pilar 2, preços de transferência e o surgimento de impostos sobre serviços digitais como uma das principais preocupações. O fortalecimento da governança tributária também é uma etapa crucial para o sucesso no futuro.

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