EY Megatendências

O que a queda das fronteiras representa para a corrida global por recursos

A órbita da Terra, o Ártico e as profundezas do mar e da terra estão se tornando domínios para a extração de novos recursos, competição geopolítica e riscos.

Em resumo

  • A tecnologia, a geopolítica e as mudanças climáticas estão derrubando barreiras aos recursos nos confins da Terra.
  • Os recursos em jogo são tangíveis, como minerais essenciais, e intangíveis, como espaços orbitais e novas rotas de navegação.
  • O curso do desenvolvimento de recursos e a concorrência em novos domínios de fronteiras causarão profundos impactos econômicos, geopolíticos e de sustentabilidade.

Este artigo faz parte do segundo conjunto de insights da nova série EY Megatrends Novas fronteiras: Os recursos do futuro

Uma fronteira traça limites entre ambições e oportunidades. A queda das fronteiras nos confins da Terra - antes separadas por limites de altitude, distância ou profundidade - abriu três domínios para a extração de novos recursos e para a concorrência comercial e geopolítica:

  • Órbita terrestre: o espaço de 200 km a 36.000 km acima da superfície da Terra, "um recurso natural limitado" que oferece uma plataforma para observação, comunicações, pesquisa e atividades de defesa
  • O Ártico: área de recursos minerais, energéticos e biológicos estratégicos, mas também de rotas marítimas valiosas do ponto de vista comercial e estratégico
  • As profundezas do mar e da terra: locais de vastas reservas de minerais essenciais que apresentam lacunas significativas no fornecimento, considerando as fontes existentes

Governos, empresas e usuários de recursos seguem buscando recursos tangíveis e intangíveis com valor estratégico comercial nesses domínios. Os recursos tangíveis são aqueles que podem ser esperados - itens físicos, como metais, petróleo e peixes. Os recursos intangíveis, por sua vez, não podem ser tocados, como o uso de slots de satélite orbital e o acesso a rotas de navegação.

A forma como a concorrência e o uso nesses domínios se desenvolverão na próxima década trará implicações profundas para a sustentabilidade ambiental e econômica e para a dinâmica geopolítica. 

Três poderosas forças transformadoras abrem as fronteiras do chamado "resourcing "(alocação, planejamento e gestão de recursos)

A tecnologia, a geopolítica e a mudança climática estão fazendo com que as fronteiras dos recursos desapareçam, criando uma demanda que exerce pressão sobre as barreiras de acesso e, ao mesmo tempo, as derruba.

Em primeiro lugar, a ampla transformação digital nas operações de negócios e na vida pessoal - acelerada e aprofundada pela adoção exponencial da tecnologia e da inteligência artificial (IA) - está encontrando sua manifestação física na construção de data centers, na infraestrutura de energia relacionada e na fabricação de volumes crescentes de dispositivos digitais de consumo, o que impulsiona a demanda por minerais essenciais que enfrentam defasagem de fornecimento. Ao mesmo tempo, a inovação e a redução de custos facilitam o acesso às regiões fronteiriças de forma mais econômica.

Em segundo lugar, conforme discutido no EY 2026 Geostrategic Outlook, as relações internacionais atualmente operam sob novas regras e normas caracterizadas pela intervenção estatal e pela geopolítica da escassez de recursos. Os governos estão mais dispostos a intervir nos mercados, acelerar o acesso e oferecer mais segurança regulatória à medida que o fornecimento de recursos aumenta como uma preocupação de segurança nacional e interesse econômico estratégico. A concorrência e o multilateralismo tenso também estimulam os países, de forma tentadora, a explorar as lacunas de governança e as áreas "nebulosas" nas regiões de fronteira ou a ignorá-las completamente. E à medida que as fronteiras geográficas se abrem, os conflitos e a concorrência presentes em outras cenários se espalham por elas.

Em terceiro lugar, a transição para a energia limpa constitui mais uma fonte crescente de demanda por minerais essenciais. Turbinas eólicas, painéis solares, baterias e veículos elétricos exigem minerais de terras raras, enquanto a expansão das redes de transmissão necessárias para apoiar a eletrificação da economia global consumirá volumes crescentes de cobre e alumínio. Ao mesmo tempo em que a necessidade de descarbonização promove a transição para a energia limpa, a mudança climática está abrindo o Ártico, que está se aquecendo quatro vezes mais rápido do que o resto do mundo, para novas explorações, extrações e usos.

Caspian Sea, Planet Earth. Digital enhancement of an image by NASA. The artist has enhanced sharpness, the white and black point. In addition the artist has added texture, clarity, and dehaze. Colors has been corrected according the artist view of the scene.  Dust spots from the sensor have been removed. 

NASA's Media Usage Guidelines: https://www.nasa.gov/nasa-brand-center/images-and-media/

Original link to the image: https://eol.jsc.nasa.gov/SearchPhotos/photo.pl?mission=ISS073&roll=E&frame=511449
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Capítulo 1

Órbita terrestre: um recurso limitado com acesso, valor e risco crescentes

O acesso a recursos orbitais está sendo rapidamente facilitado, a menor custo, alimentando uma economia espacial em rápido crescimento, mas que também representa um desastre referente a bens comuns, o que ameaça a economia terrestre.

Uma cena do futuro... Estamos no meio da manhã e você é o CEO de uma empresa global de varejo. Você recebe um relatório informando que seu sistema de ponto de venda não está funcionando. Em seguida, você recebe a notícia de que perdeu o contato com todos os ativos da sua rede de entrega just-in-time. As luzes se apagam. Alguém menciona algo sobre síndrome de Kessler (colisão orbital que gera detritos espaciais).

A infraestrutura na órbita da Terra é fundamental, mas invisível

A constituição da União Internacional de Telecomunicações (ITU) define as órbitas da Terra como "recursos naturais limitados". A economia espacial direta baseia-se em grande parte na exploração desses recursos e inclui verticais como serviços de posicionamento, navegação e cronometragem, observação da Terra e sensoriamento remoto, serviços de lançamento, fabricação de satélites e infraestrutura espacial. A projeção é que cresça de US$ 613 bilhões em 2024 para US$ 1t em 2032. Dois terços do valor da economia espacial vêm do setor privado.1

"Há um enorme interesse de capital de risco em investir no espaço", observa Hemali Vyas, luminar do EY wavespace, presidente do Comitê de Nova Economia Espacial da AIAA e veterano do setor espacial, com mais de 35 anos de experiência na NASA/JPL, TRW e SiRF Technologies. "Os investidores estão procurando oportunidades de alto risco e alto retorno em um horizonte de 10 anos." O investimento de capital de risco em financiamento de tecnologia espacial aumentou de US$ 700 milhões em 2016 para US$ 6,6 bilhões em 2024.2

A próxima fase do investimento orbital inclui estações espaciais privadas (por exemplo, Axiom, Orbital Reef da Blue Origin), com potencial para abrir novos mercados em turismo, pesquisa, indústria e muito mais.

Mas o valor mais amplo da atividade econômica global dependente de ativos orbitais é quase incalculável e atinge todos os setores. Isso compreende o Sistema de Posicionamento Global (GPS), comunicações, transmissão de dados, redes de energia, transações financeiras, infraestrutura e monitoramento de safras, previsão e modelagem do tempo e recuperação de desastres, todos os quais dependem da operação contínua de satélites.

No entanto, o que os olhos não veem, o coração não sente. "Um dos grandes sucessos do espaço é o quanto ele se tornou invisível para os usuários finais", ressalta o Prof. Alan Duffy, astrônomo e pró-reitor de iniciativas de maior destaque da Swinburne University of Technology.

O acesso privado à órbita terrestre aumenta à medida que os obstáculos financeiros e técnicos diminuem

Talvez de forma contraintuitiva, a órbita terrestre (200 km a 36.000 km acima da superfície) é o recurso fronteiriço mais fácil de acessar e está sendo explorado mais rapidamente.

As inovações técnicas e operacionais do setor privado reduziram drasticamente o custo de construção e lançamento de um satélite. Com maior eficiência, reutilização de veículos e satélites menores e mais baratos, o custo total de colocar um satélite em órbita caiu 65% em 10 anos.3

Como resultado, o número de satélites ativos na órbita da Terra aumentou de cerca de 3.300 em 2020 para cerca de 13.000 em 2024.4 Os lançamentos comerciais representam 90% das cargas úteis; desses, a Starlink responde por quase 80%.5

Esses números devem aumentar ainda mais: Espera-se que até 70.000 satélites de órbita terrestre baixa (LEO) sejam lançados em grandes constelações nos próximos cinco anos.6

"O espaço parecia remoto até passarmos a contar com recursos de lançamento de baixo custo. Agora está perto - e cada vez mais perto. A órbita terrestre é agora o imóvel mais valioso do planeta que não está no planeta", observa Paul Saffo, um dos principais futuristas e um luminar do EY wavespace.

Com tanto lixo acumulado lá em cima, uma síndrome de Kessler descontrolada pode estar a apenas mais uma colisão de distância, do mesmo modo que o floco de neve que provoca a avalanche. Os riscos ficam cada vez maiores.

A caminho de uma tragédia dos bens comuns orbitais

O Tratado do Espaço Sideral de 1967 declara que o espaço é a "província de toda a humanidade", enquanto o Artigo 44 da Constituição da UIT adverte seus estados membros a terem em mente a natureza limitada dos recursos da órbita terrestre. Na prática, o acesso aberto a órbitas limitadas está criando uma tragédia relacionada aos bens comuns, situação em que a busca de interesses individuais prejudica ou destrói o valor de um recurso compartilhado.

"Temos explorado órbitas - que são categorizadas como recursos naturais no espaço sideral - desde a época do Sputnik e, conforme indicado pelo grande número de detritos que agora ameaçam as atividades espaciais futuras, não prestamos atenção suficiente às questões de sustentabilidade do ambiente espacial", destaca Steven Freeland, das universidades Western Sydney e Bond, e que também é presidente do Grupo de Trabalho sobre Aspectos Legais das Atividades de Recursos Espaciais do Comitê das Nações Unidas sobre os Usos Pacíficos do Espaço Sideral. Cerca de 15.000 objetos foram colocados em órbita desde a era do Sputnik, o que levou a uma estimativa de 140 milhões de peças de detritos orbitais, dos quais apenas uma fração é rastreável.

Como resultado, enfrentamos o risco de um evento da Síndrome de Kessler - uma cascata de colisões no espaço semelhante a uma fissão - que só cresce à medida que o número de satélites aumenta exponencialmente, impulsionado pela colocação de dezenas de milhares de satélites em megaconstelações.

"Uma cascata descontrolada de colisões teria impactos econômicos devastadores e poderia criar um campo de detritos que tornaria as órbitas inutilizáveis por séculos, potencialmente limitando nossa capacidade de deixar a Terra. Já houve algumas colisões catastróficas de satélites, mas até agora com consequências limitadas. Com tanto lixo acumulado lá em cima, uma síndrome de Kessler descontrolada pode estar a apenas mais uma colisão de distância, como o floco de neve que provoca a avalanche. Os riscos ficam cada vez maiores à medida que colocamos cada vez mais objetos e valores no espaço", aponta Duffy.

Outros fatores contribuem para o risco de um evento de Kessler:

  • Falta de política internacional sobre testes de satélites
  • Não há "controle de tráfego" central em órbita: Os operadores devem negociar entre si a prevenção de colisões.
  • Falta de remoção eficaz dos detritos: Tecnologias como lasers, arpões e redes para remover detritos de órbita estão sendo exploradas, mas permanecem em grande parte não comprovadas, com políticas e incentivos defasados.

1. Pontos fracos da "regra dos cinco anos "7 dos EUA para retirada de satélites em órbita: Muitos satélites não podem ser controlados no final da vida útil e a reentrada na atmosfera pode causar impactos ambientais significativos.

  • Mudança climática: Ao reter o calor, os gases de efeito estufa fazem com que a atmosfera superior esfrie e se contraia. Isso reduz o arrasto de satélites antigos e detritos, diminuindo o ritmo em que eles caem e se queimam.8

Os detritos espaciais causam problemas mesmo sem um evento de Kessler. Os astronautas da recente missão Shenzhou-20 da China atrasaram seu retorno à Terra depois que sua espaçonave foi atingida por um pequeno pedaço de detrito.

A aglomeração da órbita terrestre tem outros impactos sobre a sustentabilidade. A UIT também define as frequências de rádio como um recurso natural limitado, que está se esgotando à medida que são atribuídas à crescente constelação de satélites, juntamente com as formas de uso no nível terrestre. Sem uma frequência de rádio disponível, um satélite não pode se comunicar.

"A sustentabilidade do espectro de frequência é fundamental porque o usamos para tudo, desde comunicações até navegação e monitoramento climático. Devemos aproveitar esse recurso sem prejudicar a próxima geração de pessoas ou países que desejam ter acesso ao espaço", declara Roser Almenar, membro do Conselho Consultivo da Juventude do Secretário-Geral da UIT.

As vastas constelações de satélites também impõem custos científicos e culturais:

  • Poluição luminosa: Os reflexos dos satélites interferem na astronomia terrestre financiada pelo contribuinte, criando listras visíveis nas imagens.
  • Interferência de rádio: As comunicações por satélite sobrecarregam cada vez mais a recepção de sinais fracos por radiotelescópios. "É como se estivéssemos ouvindo a sinfonia celestial e, ao mesmo tempo, nosso vizinho tivesse a pior bateria e o pior baixo tocando junto", aponta Duffy.
  • Perda cultural: A perda de céus escuros afeta não apenas a ciência, mas também as práticas culturais e espirituais, especialmente para as comunidades indígenas.

Questões geopolíticas: uma plataforma estratégica, mas potencialmente desestabilizadora no espaço

Os atores nacionais não têm restrições na órbita terrestre; ao mesmo tempo, a infraestrutura em órbita é tão vulnerável quanto essencial e extremamente valiosa.

Pelo menos 20 países têm satélites espiões ou militares. Os três grandes - EUA, China e Rússia - têm cerca de 500, considerados em conjunto. À medida que as tensões terrestres e a concorrência se espalham pelo espaço, esses ativos se tornam alvos em potencial. O mesmo acontece com os satélites comerciais e da sociedade civil, que fornecem serviços essenciais de infraestrutura.

Os Estados Unidos, a Rússia, a China e a Índia realizaram testes cinéticos antissatélite que criam detritos. A Austrália, a França, o Japão, o Irã, Israel, a Coreia do Norte, a Coreia do Sul e o Reino Unido também estão desenvolvendo tecnologias de combate no espaço.9

O sistema de defesa antimísseis balísticos Golden Dome proposto pelos EUA aumentaria as expectativas com um componente espacial que envolveria uma grande constelação de satélites funcionando como sensores para rastreamento e, potencialmente, como interceptadores de mísseis. Se ele fosse implantado, vários países provavelmente se sentiriam compelidos a desenvolver capacidades de combate.

A sobreposição do risco crescente de um evento de fragmentação acidental e de um evento intencional ameaça trazer instabilidade geopolítica. A causa de uma colisão de detritos que venha a inutilizar o GPS, as comunicações ou as observações provavelmente seria difícil de ser definida com rapidez e autoridade, abrindo portas para erros de cálculo estratégicos influenciados pela situação geopolítica no local.

Governança: multilateralismo necessário em tempos de multipolaridade

Quando os tratados espaciais internacionais fundamentais foram redigidos e assinados nas décadas de 60 e 70, seus autores não tinham como prever a explosão dos usos comerciais da órbita terrestre e o domínio do setor privado na indústria espacial.

O espaço é regido pelo princípio de que todos podem acessá-lo, mas esse acesso aberto é cada vez mais problemático à medida que o congestionamento e os riscos representados por detritos aumentam. A Comissão Federal de Comunicações dos EUA, outros órgãos reguladores nacionais e a União Internacional de Telecomunicações controlam o acesso, mas os interesses nacionais e comerciais muitas vezes se sobrepõem à responsabilidade coletiva e não existe nenhum tribunal ou mecanismo global eficaz para policiar o comportamento orbital.

Com mais de 100 países planejando entrar no espaço, a colaboração e a regulamentação sistemática são cada vez mais importantes. Além disso, há um impulso crescente para o compartilhamento equitativo dos benefícios das atividades espaciais, defendido pelos países em desenvolvimento e pelo Grupo dos 77.

As abordagens atuais para o gerenciamento de recursos orbitais revelam-se insustentáveis. "A maioria das soluções é individual e com base em problemas, sem uma abordagem holística e em nível de sistema. Precisamos de um pensamento integrado que considere todos os stakeholders, incluindo governos, empresas privadas, universidades e órgãos internacionais", observa Vyas.

"Precisaremos fortalecer ainda mais uma abordagem global de 'visão geral' para a governança do espaço." Isso exigirá que os órgãos reguladores olhem para além de suas atribuições nacionais tradicionais para tratar de causa e efeito e equilíbrio no espaço. É difícil convencer os países a ampliar as perspectivas de seus respectivos órgãos reguladores nacionais e fazer uma pausa preventiva, porque o desenvolvimento da capacidade espacial ainda é pensado principalmente em termos de vantagem comparativa. Trata-se de uma grande mudança de pensamento, mas que não será feita de forma voluntária pelos principais países que exploram o espaço sem uma voz forte de outros países, porque eles perceberiam que isso não é de seu interesse nacional. Temos que traduzir isso em uma questão de âmbito global", aponta Freeland.

Ações para empresas e governos

  • As empresas que lançam ou dependem de ativos espaciais devem considerar a sustentabilidade orbital, a mitigação de detritos e as consequências mais amplas de suas atividades. As estruturas regulatórias estão evoluindo, mas as empresas não devem esperar que a legislação se atualize, pois o que está em jogo são as melhores práticas e a inovação responsável, que se demonstram necessárias agora.
  • Tornar as dependências visíveis: Muitos setores dependem de ativos espaciais sem perceber sua potencial vulnerabilidade a interrupções baseadas no espaço. As empresas devem incluir o espaço em suas estruturas de gerenciamento de riscos para avaliar sua exposição e criar resiliência, incluindo a compreensão das dependências da cadeia de suprimentos em relação aos serviços baseados no espaço.
  • Incluir o espaço na previsão estratégica: As empresas devem realizar análises de cenários e planejamento futuro para prever como os desenvolvimentos espaciais poderão afetar seus setores nos próximos cinco, 10 ou 25 anos. Isso inclui considerar investimentos em P&D e inovação de produtos para futuros mercados espaciais.
  • Os governos devem considerar como podem avançar nos processos multilaterais para promover a sustentabilidade da órbita terrestre, mesmo com o acirramento da competição geopolítica. Dadas as enormes vantagens e desvantagens potenciais, a ação coletiva na órbita terrestre se alinha com a busca do interesse próprio.
Canada, Nunavut Territory, Arctic
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Capítulo 2

Ártico: a competição multipolar esquenta à medida que as velhas ordens se desfazem

À medida que o oceano ártico continuar a recuar na próxima década, a região se tornará um nexo de competição comercial e geopolítica.

Cena do futuro... Uma fila de navios corre de ponta a ponta pelas águas cristalinas do Ártico. Como estamos no verão, o tráfego global de navios foi transferido do Canal de Suez para as águas abertas da Rota do Mar do Norte. Os navios porta-contêineres, os transportadores de GNL e as linhas de cruzeiro são apenas algumas das embarcações; as fragatas e embarcações rápidas de uma dúzia de marinhas também singram as águas, protegendo seus interesses nacionais.

A exploração dos recursos do Ártico não é novidade, mas está passando por transformações

A habitação e a exploração de recursos no vasto Ártico não são novidade. Os povos indígenas habitam o Ártico há milhares de anos e a extração de recursos comerciais, como pesca, mineração e extração de madeira, está em andamento há séculos. O valor da economia na região circumpolar atingiu US$ 666 bilhões em 2022, com uma população de apenas 10 milhões de pessoas.10

A região abriga reservas minerais terrestres significativas, incluindo jazidas de ouro, níquel e cobalto que estão entre as maiores do mundo. A Groenlândia e a Noruega dispõem de recursos substanciais de terras raras. A Rússia é o maior produtor de paládio.11 Os recursos minerais do leito marinho do Ártico da Noruega sugerem que pode haver oportunidades significativas no Oceano Ártico, mas as reservas reais são desconhecidas.

A Rússia, os EUA e a Noruega extraem grandes quantidades de petróleo e gás natural da região. Além disso, estima-se que o Ártico tenha 13% dos recursos de petróleo convencional não descobertos no mundo e 30% dos recursos de gás natural convencional não descobertos, principalmente em bacias offshore sob o Oceano Ártico congelado.12

A pesca é um setor multibilionário do Ártico. Os estoques sob o Oceano Ártico Central intocado e congelado ainda não foram definidos, mas supõe-se que sejam substanciais.

Um novo recurso intangível está entrando em jogo à medida que o gelo marinho do verão do Oceano Ártico diminui: o acesso à Passagem do Noroeste, a rota mais curta entre a Ásia e a costa leste da América do Norte, e a Rota do Mar do Norte, a rota mais direta entre a Ásia e a Europa. Recentemente, um navio porta-contêineres chinês reduziu pela metade o tempo de viagem da China para a Europa, utilizando essa rota do norte em vez do Canal de Suez.

A diminuição do gelo marinho provavelmente exporá os recursos gradualmente e, depois, repentinamente

A extensão de gelo marinho de setembro no Oceano Ártico, a referência anual, está diminuindo 12,2% por década, à medida que a região se aquece quatro vezes mais rápido do que o resto do planeta. Verões sem gelo, definidos como menos de 1 milhão de km2, podem chegar na década de 2030.13

 

O aquecimento global e o recuo do gelo marinho provavelmente abrirão o acesso a recursos materiais em um cenário gradual e, depois, repentino:

  • Minerais: Embora seja improvável que o aquecimento global revele novos recursos terrestres, períodos mais longos sem gelo facilitarão o transporte de suprimentos de mineração e a saída de minério. Também poderia ficar mais fácil construir infraestrutura de energia, incluindo energias renováveis, estradas permanentes e portos. O recuo do gelo, no entanto, facilitaria muito a descoberta e a coleta de recursos do fundo do mar em águas territoriais e internacionais. A obtenção de uma licença para a mineração no fundo do mar provavelmente constituiria tarefa difícil, tendo em vista as preocupações ambientais.
  • Energia: Embora a maioria dos recursos não descobertos esteja em alto-mar, prevê-se que a diminuição do gelo e o aquecimento das temperaturas tenham pouco impacto imediato, pois as condições em alto-mar ainda são adversas e antieconômicas. Mas a produção poderá ser significativa até 2100, dependendo do cenário de transição e do esgotamento das reservas mais ao sul.14
  • Pesca: O Acordo de Pesca do Oceano Ártico Central (CAOFA), assinado pelos oito países do Ártico e pela China, Japão, Coreia do Sul e União Europeia em 2021, protege essas águas da pesca até 2037, enquanto são realizadas pesquisas sobre os estoques. Os interesses econômicos poderiam prevalecer sobre a preservação após 2037. "O CAOFA é um bom exemplo de como a governança do Ártico pode funcionar em comum com esses novos atores do Ártico na mesa. Se isso vai durar com o recuo do gelo é outra questão", diz Mia Bennett, professora associada do Departamento de Geografia da Universidade de Washington e autora de Unfrozen: The Fight for the Future of the Arctic.

O acesso ao recurso intangível das rotas marítimas que cruzam o Ártico e as águas internacionais abertas será mais rápido à medida que o gelo do verão desaparecer. A navegação no Ártico vem crescendo há uma década. As milhas náuticas nas águas do Ártico aumentaram 108% de 2013 a 2024, enquanto o número de embarcações exclusivas construídas para transitar nessas águas aumentou 37%. As crescentes atividades de extração terrestre e a construção de infraestrutura relacionada constituem um impulsionador desse processo. O mesmo acontece com o uso cada vez maior das águas do Ártico para o transporte a granel.15

 

O acesso às águas do Ártico também estará cada vez mais disponível para outros usos, como logística global, turismo, pesquisa e atividades militares. O uso crescente desse recurso intangível vem acompanhado de uma sobreposição estratégica: interesses comerciais geram interesses nacionais.

Podemos perder o Ártico antes de sabermos o que temos

O Ártico é um vasto depósito de carbono, regulador do clima e reserva de biodiversidade. As geleiras eternas (permafrost) contém duas vezes e meia mais carbono do que o existente na atmosfera, mais até do que as florestas do mundo, segundo algumas estimativas. O gelo e a neve da região ajudam a resfriar o planeta, refletindo a energia solar de volta ao espaço. Devido à sua inacessibilidade, o Ártico também é menos estudado e menos compreendido do que outras regiões biológica ou climaticamente importantes, como a Amazônia e outras regiões tropicais, pastagens temperadas ou florestas boreais.

O transporte marítimo aumenta os riscos de sustentabilidade. O aumento do transporte marítimo durante os meses de verão, concentrado em faixas definidas, poderia afetar as formas de uso tradicionais das comunidades indígenas e a vida selvagem. As partículas do escapamento dos navios podem escurecer o gelo e a neve, fazendo com que derretam mais rapidamente e reduzindo o efeito reflexivo do Ártico, acelerando o aquecimento global e a perda de gelo. Além disso, devido ao frio, o Ártico se recupera mais lentamente de derramamentos de óleo e combustível que podem resultar do aumento do tráfego marítimo.

A intersecção do Ártico com as preocupações de segurança nacional pode fazer com que os impactos da sustentabilidade sejam desconsiderados na construção de infraestrutura estratégica e na extração de recursos, como a construção de estradas e a exploração iniciadas no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico dos EUA. Mesmo assim, a obtenção de licenças para minas é incrivelmente difícil, mesmo em ambientes estáveis e simples (por exemplo, 29 anos para aprovações nos EUA) e as aprovações em regiões como o Ártico seriam substancialmente mais complexas.

Os possíveis impactos de sustentabilidade incluem os efeitos sobre as comunidades indígenas e tradicionais, tanto positivos quanto negativos. O desenvolvimento do Ártico pode proporcionar oportunidades econômicas e infraestrutura desejadas, mas também pode ameaçar as fontes de alimentos e as práticas culturais ligadas ao meio ambiente. "Os povos indígenas do Ártico percorreram um longo caminho em termos de garantia de direitos e reconhecimento dos governos nacionais. Mas parte disso pode ser comprometida pelas atividades de defesa", diz Bennett.

Um nexo cada vez mais intenso de concorrência direta

O Ártico tem sido governado por meio de uma cooperação multilateral e pautada por consenso, orquestrada pelo Conselho do Ártico há 30 anos. Eventos recentes e tendências globais - a guerra na Ucrânia e a mudança climática, aumentando a acessibilidade polar e o colapso do multilateralismo - estão tornando o Ártico um nexo de concorrência multipolar direta.
 

A Rússia continua sendo a potência regional dominante, mas foi isolada politicamente e restringida economicamente pelas sanções relacionadas à Ucrânia. Em resposta, o país aumentou a colaboração regional com a China, que se tornou o principal cliente de seu gás natural submetido a sanções econômicas. O desenvolvimento contínuo da infraestrutura militar ao longo da costa do Ártico enfatiza o valor estratégico que a Rússia atribui à região.
 

A China se posiciona como uma nação "próxima ao Ártico" e defende que o Ártico seja tratado como um "novo bem comum global" como parte de uma iniciativa mais ampla para moldar a governança global dos oceanos. Seu objetivo é estabelecer uma "Rota da Seda Polar" por meio de investimentos em recursos do Ártico e empreendeu várias iniciativas para estabelecer uma presença sólida na região, desde pesquisas no Oceano Ártico até uma patrulha conjunta da Rota do Mar do Norte com a Rússia.16

Os EUA veem as incursões regionais chinesas como uma ameaça e estão tentando recuperar o atraso na região - por exemplo, a Finlândia tem mais quebra-gelos do que os EUA. A estratégia dos EUA para o Ártico se concentra no aprimoramento da capacidade militar na região, na colaboração com aliados e no aprimoramento e exercício de sua presença na região, de forma independente e com aliados. Isso constitui parte do que está motivando o interesse dos EUA na Groenlândia. As instalações no Ártico ocupam um lugar de destaque nos planos do Golden Dome dos EUA.
 

O Canadá reconheceu a necessidade de proteger sua soberania e seus interesses na região. O país também está desenvolvendo suas capacidades no Ártico e busca aprofundar a colaboração com aliados, como os EUA e os países nórdicos. Muitas nações não árticas, incluindo o Reino Unido, a França, a Coreia do Sul, o Japão e a Índia, estão buscando estratégias no Ártico para manter sua presença e influência.

O Canadá, a Rússia, os EUA e a Dinamarca estão buscando reivindicações sobrepostas para a plataforma continental estendida (ECS) sob o Oceano Ártico com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS) para se posicionarem para controlar os recursos minerais. O Canadá também está defendendo sua reivindicação da Passagem do Noroeste como águas internas, enquanto os EUA a consideram um estreito internacional.18

Todos os oito países do Ártico estão construindo infraestrutura comercial e industrial - estradas, portos, sistemas de comunicação, assentamentos - que podem funcionar como infraestrutura estratégica.

Esse "aquecimento geopolítico" no Ártico sugere um futuro em que os países buscam preencher o espaço estratégico aberto pelo derretimento do gelo, aproximando concorrentes militares e comerciais de novas formas na região.

Faz-se necessário um princípio de precaução

Várias estruturas de governança sobrepostas estão em jogo no Ártico, sejam os acordos do Conselho do Ártico, do CAOFA, do Código Polar da Organização Marítima Internacional para navios que operam no Ártico ou da UNCLOS.

O Conselho do Ártico, que tem servido como fórum para a governança com base em consenso, enfrenta desafios à medida que os riscos econômicos e de segurança aumentam, os conflitos externos se espalham pela região e o multilateralismo se rompe de forma mais ampla.

No entanto, esse momento de transição, antes que as posições se endureçam e os atritos aumentem, pode ser a melhor oportunidade para redirecionar a trajetória do Ártico e estabelecer uma governança abrangente pautada pelo princípio da precaução, para garantir que os recursos do Ártico sejam acessados e utilizados de forma sustentável. A tragédia com os bens comuns na órbita terrestre deve ser uma história de advertência motivadora.

Ações para empresas e governos

  • As empresas de diversos setores devem avaliar as oportunidades emergentes e, ao mesmo tempo, levar em conta o risco geopolítico e a sustentabilidade, já que a região desempenha um papel mais importante nas cadeias de suprimentos globais e na concorrência nacional.
  • As empresas de transporte marítimo devem considerar as implicações de ter rotas sazonais disponíveis no Ártico que poderiam complementar ou fornecer alternativas mais rápidas, comparativamente ao Canal de Suez ou ao Canal do Panamá. As rotas do Ártico podem oferecer uma proteção contra interrupções geopolíticas no acesso a Suez ou problemas com a passagem do Panamá devido a problemas de água causados pelo clima.
  • As empresas de defesa e construção naval devem buscar oportunidades de fornecer recursos para o Ártico em apoio às estratégias nacionais. Devido a considerações de segurança, os governos darão prioridade às empresas nacionais e, em seguida, às empresas de países aliados ou alinhados.
  • Considere a parceria ou as alianças que podem ser necessárias para buscar oportunidades no Ártico, juntamente com as implicações fiscais e de estruturação relacionadas à entrada na região.
  • Os governos e as empresas devem considerar como podem continuar a se envolver uns com os outros e com os stakeholders do Ártico para promover a sustentabilidade regional neste momento crítico, incluindo uma consulta bem estruturada às comunidades locais, que podem ser afetadas tanto positiva quanto negativamente.
Mining drilling machine in tunnel of sylvinite salt quarry. Equipment for mineral ore digging in pit. Organic materials for fertilizers
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Capítulo 3

Mineração em fundos marinhos profundos e em terra firme: A inovação possibilita transformações

As fontes de mineração existentes não podem fornecer todos os minerais essenciais de que precisaremos na próxima década. O imperativo de ir mais fundo aumentará.

Cena do futuro... Os delegados da COP50 comemoram o sucesso da transição energética acelerada pelo acesso a minerais críticos abundantes - os piores impactos das mudanças climáticas foram evitados. No entanto, uma coalizão de países do Oceano Pacífico exige um fundo para perdas e danos no fundo do mar.

Os minerais que viabilizam a transformação digital e a transição energética estão em falta

As duas transformações fundamentais de nosso tempo - digital e a transição para a energia limpa - dependem de minerais essenciais que enfrentam lacunas no fornecimento.

A construção de data centers e da infraestrutura correlata, promovida pela adoção exponencial da IA e pela crescente demanda por produtos digitais para o consumidor, exige grandes volumes de minerais essenciais. Os requisitos materiais de turbinas eólicas, painéis solares, baterias e veículos elétricos e as redes de transmissão necessárias para dar suporte à eletrificação da economia global aumentam a demanda de minerais críticos, que supera a oferta. Espera-se que haja lacunas significativas até 2040 sem novas fontes de suprimento.


Uma fonte em potencial é a mineração no fundo do mar, uma ideia antiga que voltou à tona.

A expedição do HMS Challenger descobriu nódulos polimetálicos no fundo do mar em uma expedição em 1873.19 Os nódulos polimetálicos são concreções minerais que contêm ferro, manganês, níquel, cobre, cobalto e elementos de terras raras.

Estamos ficando sem recursos próximos à superfície que podem ser extraídos a céu aberto, e cuja ampliação é menos dispendiosa.

Desde então, tem havido um interesse constante na exploração desses recursos, com um aumento de interesse na década de 1960. Atualmente, o Serviço Geológico dos EUA estima que existam 21,1 bilhões de toneladas secas de nódulos polimetálicos na Zona Clarion-Clipperton do Oceano Pacífico - contendo mais metais críticos do que as reservas terrestres do mundo. O valor dessas reservas no fundo do mar é estimado em trilhões de dólares.

Uma fonte mais imediata de minerais essenciais está representada pela exploração mais aprofundada (3-4 km), na terra. Muitas das principais minas enfrentam limites para o que pode ser extraído mediante o uso dos métodos e profundidades a céu aberto existentes. Dada a resistência à abertura de novas minas, ou mesmo à expansão das existentes, e o valor da infraestrutura atual, às vezes a única opção econômica é ir mais fundo: a mineração profunda. "No final das contas, é uma questão de economia. Estamos ficando sem recursos próximos à superfície que podem ser extraídos a céu aberto, e cuja ampliação é menos dispendiosa", destaca o Prof. Ernesto Villaescusa, da Cadeira de Mecânica de Rochas da Western Australian School of Mines.


A tecnologia está superando as barreiras representadas pela profundidade

Os nódulos polimetálicos - o principal foco da mineração no fundo do mar - encontram-se em planícies marinhas a profundidades de 4.000 a 6.500 metros. "Uma das grandes vantagens é que as concentrações dos nódulos são enormes, então você precisa de volumes menores de minério", destaca Kalev Ruberg, CEO da Karu Advisory Ltd. "Eles contêm metais puros, mas também terras raras, por isso serão cada vez mais procurados."
 

Várias empresas estão testando tecnologias de colheita e extração que integram IA, visão computacional, robótica e veículos autônomos para superar os desafios de trazer os nódulos dessas profundezas para os navios. No entanto, eles ainda não comprovaram a viabilidade da produção em escala comercial de longo prazo.
 

"Outro obstáculo é a capacidade de processar os nódulos", completa Ruberg. "A China e a Coreia do Sul são os dois principais países com os fornos elétricos a arco necessários para fundi-los." A capacidade de processamento também está sendo desenvolvida no Japão.
 

As minas profundas podem se estender a profundidades semelhantes na terra. A mina Laronde, no Canadá, por exemplo, mergulha 3,3 km em busca de ouro, cobre, prata e zinco. A mudança para minas de terra profunda exigirá que os seres humanos sejam retirados do processo o máximo possível.
 

"A mineração profunda levanta uma série de questões relacionadas à necessidade de automação, robótica e outras tecnologias que podem melhorar a mineração. O maior risco é para os seres humanos, portanto, tirar os seres humanos do perigo é essencial", observa Chamirai Nyabeze, vice-presidente executivo de desenvolvimento de negócios do Centre for Excellence in Mining Innovation e diretor de rede da Mining Innovation Commercialization Accelerator Network.
 

"Ir fundo" também implica compreender como todo o sistema da mina se comporta em resposta às intervenções humanas, de modo que os riscos sísmicos que aumentam com a profundidade possam ser identificados e tratados de forma eficaz.
 

Para isso, várias tecnologias estão sendo desenvolvidas e implantadas, incluindo perfuração e transporte autônomos, maquinário com controle remoto, modelagem digital do sistema da mina e equipamentos eletrificados para evitar emissões de carbono. 

É provável que os impactos sejam altos, mas será que valerão a pena?

Os riscos de sustentabilidade relacionados à mineração no fundo do mar são substanciais. A colheita de nódulos afetaria milhares de quilômetros quadrados, raspando ou efetivamente aspirando o fundo do mar em cada local. Nessas profundidades, o fundo do mar é rico em vida, mas demora a se recuperar de perturbações.
 

Os terrenos de um antigo banco de testes na zona de Clarion-Clipperton não se recuperaram totalmente décadas após a colheita com a tecnologia inicial.20 Um relatório do projeto europeu DEEP REST apresentado à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) constatou que os ecossistemas dos fundos marinhos não se recuperam em curto prazo e que a eficácia das medidas de restauração deve ser avaliada em um período de muitas décadas.21

Também pode haver uma perturbação mais ampla do ecossistema, incluindo danos aos estoques de peixes e prejuízo à capacidade das águas oceânicas de atuar como um sumidouro de carbono. O processamento e o transporte em terra teriam outros impactos.
 

As empresas de mineração do fundo do mar estão testando diversas tecnologias para minimizar os impactos da colheita. Por exemplo, uma tecnologia em desenvolvimento poderia colher nódulos de forma seletiva, arrancando-os individualmente com braços robóticos. Algumas empresas também estão realizando pesquisas independentes significativas para entender o ambiente do fundo do mar e as implicações de sustentabilidade de suas operações.
 

A extração de terras profundas apresenta alguns desafios de sustentabilidade além daqueles normalmente associados à mineração. Os teores de minério tendem a diminuir com a profundidade, exigindo mais energia e água por unidade de metal. A recuperação pode ser mais difícil, muitas vezes exigindo estratégias inovadoras de aterro e gerenciamento de água. A mineração profunda amplia os riscos geológicos dinâmicos, como explosões de rochas e infiltrações de água, que colocam os trabalhadores em perigo e complicam a proteção ambiental e a prevenção de desastres.
 

Em comparação com a mineração no fundo do mar, no entanto, a terra profunda tem as importantes vantagens de sustentabilidade de uma pegada geográfica muito menor e locais de mineração que podem ser restaurados de forma eficaz.

Mais um campo de concorrência entre os EUA e a China

Os minerais críticos do fundo do mar (manganês, cobre, níquel, cobalto) são cada vez mais vistos como recursos estratégicos, especialmente no contexto da concorrência entre os EUA e a China. O governo Trump expediu um decreto para incentivar e permitir a mineração no fundo do mar, tanto em águas americanas quanto internacionais, logo após sua eleição.

Apesar desse decreto, a abordagem da exploração real tem sido cautelosa e grande parte da retórica se concentra na alavancagem estratégica em vez da extração imediata de recursos. A China possui cinco contratos de exploração da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), mas não tem exercido pressões agressivas pela exploração, preferindo esperar pela viabilidade econômica.

"Para muitos desses países, o fundo do mar é visto como um bem imobiliário. Eles não têm necessariamente fortes intenções de iniciar atividades de mineração, mas, para eles, é importante afirmar que "temos direitos sobre essa área". Apesar do que parece, isso vai além do desejo de extrair recursos minerais amanhã. É como um imóvel para o futuro", declara Pradeep Singh, gerente sênior de projetos da Oceano Azul Foundation.

Os minerais críticos da mineração de terras profundas - principalmente cobre e zinco, em vez de terras raras, que são encontradas principalmente na superfície - também fazem parte do contexto da concorrência estratégica, mas são menos problemáticos porque são extraídos de dentro das fronteiras terrestres nacionais.

Os países podem se sentir tentados a agir sozinhos

A ISA, de acordo com a UNCLOS, tem o mandato de organizar e controlar todas as atividades relacionadas a minerais em águas internacionais para o "benefício da humanidade como um todo", garantindo a proteção efetiva do ambiente marinho. 

Embora a ISA tenha aprovado vários contratos de exploração, que são planos de 15 anos que permitem que entidades realizem exploração em áreas específicas, ela não emitiu licenças para mineração comercial. O Comitê iniciou negociações entre seus 170 países membros sobre as regras para permissão em 2019, mas ainda não chegou a um consenso.

Muitos países, incluindo Brasil, Canadá, França, Alemanha, México e Reino Unido, solicitaram uma pausa ou moratória preventiva até que questões importantes possam ser abordadas, como, por exemplo: 

  • Compreensão suficiente dos custos, benefícios e possíveis consequências, a partir das perspectivas científica, econômica e social
  • A capacidade de monitorar as fases de demonstração pré-comercial quanto aos impactos ambientais
  • Seguros e garantias financeiras das empresas de mineração para possíveis danos
  • "Kill switches" legais, ou seja, interrupção das operações em caso de danos inaceitáveis, sem possibilidade de recurso por parte do contratante contra a ISA
  • Royalties e compensação por serviços de ecossistema e pesca afetados

O impasse ameaça a abordagem multilateral, pois alguns países favoráveis à mineração, como Estados Unidos, Japão, Índia e estados beneficiários como Tonga e Nauru, ficam impacientes e tentados a tomar medidas independentes. A China, embora favorável à mineração, apoiou e trabalhou em estreita colaboração com a ISA para desenvolver uma abordagem multilateral para regulamentar e determinar as condições de aprovação.

Os EUA nunca aderiram à UNCLOS e estão dispostos a contornar a ISA como um não membro. ​O país parece estar pronto para fornecer licenças para mineração - em vez de apenas exploração - com base em regulamentações nacionais implementadas na década de 1980.

A governança da mineração de terras profundas, por outro lado, é muito mais simples porque é controlada por jurisdições nacionais.

Ações para empresas e governos

  • A mineração no fundo do mar está em um estágio inicial, mas pode ser transformadora para o fornecimento de minerais essenciais se o setor puder demonstrar uma produção sustentável e competitiva em termos de custo a longo prazo. Trata-se de um espaço a ser observado neste momento.
  • As empresas devem considerar a oportunidade de inovação relacionada à capacitação da mineração de terras profundas com IA, automação e energia limpa para ajudar a preencher lacunas críticas no fornecimento de minerais.
  • Tanto as empresas quanto os governos devem considerar os custos e benefícios gerais de diferentes fontes de minerais essenciais e as oportunidades de preencher as lacunas de fornecimento por meio de iniciativas circulares ou inovações que reduzam os requisitos de materiais.

Recursos, sustentabilidade e interesses estratégicos estão se tornando cada vez mais interligados à medida que as fronteiras em declínio abrem novas arenas para a concorrência. Os líderes empresariais e governamentais terão que dar uma atenção nova e inusitada aos chamados "confins" - órbita terrestre, Ártico, mar profundo e terra profunda - e aos riscos e oportunidades que apresentam.


Os autores gostariam de agradecer ao Dr. Thomas Graham, Consultor Sênior, Oceania Assurance AI, Ernst & Young Services Pty Limited; Angie Beifus, Lead Metals & Mining Analyst, Ernst & Young Services Pty Limited; e Bhavya Agarwal, Senior Mining & Metals Analyst, Ernst & Young LLP, por suas contribuições a este artigo.

Sobre os autores


Sumário

Além das fronteiras, vem à tona a questão de como governar a órbita da Terra, o Ártico, o mar profundo e a Terra profunda de forma sustentável. Precisaremos de abordagens inovadoras para lidar com as lacunas de governança, mesmo com o declínio do multilateralismo. Apesar da mudança para um cenário geopolítico mais multipolar e competitivo, os governos nacionais vão desempenhar um papel essencial na condução de ações coletivas que também atendam a interesses próprios. O setor privado também exercerá um papel importante no preenchimento das lacunas de governança, defendendo - ou criando - resultados econômica e ambientalmente sustentáveis.

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