EY Megatendências

Por que a infraestrutura de migração pode ser a próxima vantagem competitiva

Com a convergência das forças demográficas, tecnológicas e climáticas, a infraestrutura de migração é uma fonte essencial de resiliência nacional e econômica.


Em resumo

  • A escassez de mão de obra está se acelerando à medida que o envelhecimento nas economias avançadas se choca com os gargalos da migração: moradia, credenciamento e integração não conseguem acompanhar o ritmo.
  • As empresas e os governos precisam tratar os sistemas de migração como infraestrutura, desenvolvendo a capacidade de integração com o mesmo rigor dedicado às rodovias ou às redes de energia.
  • Os líderes corporativos e os formuladores de políticas que agirem antes garantirão talentos e o crescimento sustentado e evitarão o abismo demográfico que definirá vencedores e perdedores.

Este artigo faz parte do segundo conjunto de insights da nova série EY Megatrends Novas fronteiras: Os recursos do futuro.

O futuro pertence cada vez mais aos países e às empresas que tratam a migração não como uma crise política, mas como uma infraestrutura econômica. Com a convergência dos desafios demográficos e da disrupção impulsionada pela IA, a capacidade de atrair, integrar e reter talentos globais definirá quais organizações crescerão e quais ficarão para trás. Isso é mais evidente nos setores que estão construindo as bases da economia da inteligência artificial (IA).

Em 2023, a Samsung e a TSMC atrasaram a produção em suas fábricas multibilionárias de semicondutores nos EUA não por falta de capital, tecnologia ou demanda, mas porque não conseguiam encontrar trabalhadores qualificados.1  Embora ambas as empresas tenham feito melhoras em suas instalações desde então, uma escassez semelhante agora afeta o setor de infraestrutura tecnológica.

Os analistas estimam que seriam necessários 300.000 trabalhadores a mais até 2025, sendo que 58% dos operadores globais de data center não conseguirão preencher as vagas atuais.2 Para a infraestrutura de IA, o acesso à mão de obra é a nova fronteira competitiva.

No entanto, essa crise de curto prazo é apenas parte da história. A tecnologia também introduz uma tensão estratégica mais séria, pois embora o desenvolvimento da IA acelere a demanda por trabalhadores hoje, a automação e o trabalho remoto prometem reduzi-la amanhã. A robótica continua avançando rapidamente no Japão, na Coreia do Sul e na China, já que esses países apostam na automação para compensar o declínio demográfico. O trabalho remoto se estabilizou em pouco mais de um dia por semana em todo o mundo, o que permite a contratação fora do país e substitui parte da migração física.3

A robótica continua avançando rapidamente no Japão, na Coreia do Sul e na China, já que esses países apostam na automação para compensar o declínio demográfico.

Portanto, os executivos enfrentam o dilema entre investir em pipelines de talentos globais agora ou esperar que a IA e a robótica reduzam essa necessidade. É uma escolha falsa. A infraestrutura de migração não é uma solução temporária para a falta de mão de obra. É uma infraestrutura econômica permanente que cria vantagem competitiva independentemente de como a automação evolua e oferece uma opção em um futuro incerto.

Ninguém sabe quais empregos a automação afetará, em que ritmo ou em quais setores. Países com sistemas de migração maduros podem ajustar os fluxos de talentos com base na real evolução. Se a automação for acelerada, eles poderão moderar as admissões, mantendo a capacidade em setores que ainda exigem presença física. Se a automação não for a esperada ou for mais lenta, eles podem escalar rapidamente usando sistemas já criados. As nações que carecem de infraestrutura de migração enfrentam restrições binárias: escassez permanente de mão de obra agora ou construção tardia e cara de sistemas para enfrentar crises. A infraestrutura é a proteção que preserva a flexibilidade enquanto o futuro do trabalho continua imprevisível.

A escassez de mão de obra vai muito além do setor de tecnologia. No setor de saúde, a Organização Mundial da Saúde prevê um déficit global de 11 milhões de profissionais até o final desta década.4 A escassez de mecânicos de automóveis, trabalhadores agrícolas sazonais e cuidadores de idosos está aumentando em várias economias, criando gargalos que se propagam pelas cadeias de valor.5 A escassez de mão de obra está se tornando sistêmica e não específica de um setor.

Ao mesmo tempo, as pressões globais de mobilidade continuam a aumentar. Atualmente, 304 milhões de pessoas vivem fora de seu país de origem. Outras 123 milhões são deslocadas à força por conflitos, perseguições e desastres ambientais.6 A população em idade ativa da África Subsaariana aumentará de 883 milhões em 2024 para 1,6 bilhão em 2050 – quase um quarto do total mundial.7

O fornecimento existe. A demanda é enorme. No entanto, os sistemas que conectam os dois estão se fragmentando devido à pressão.

Por trás desses números existem milhões de decisões individuais. Uma enfermeira queniana pode contrapor os prazos do visto à separação da família. Um trabalhador salvadorenho da construção civil pode ter que calcular se as remessas justificarão os anos longe dos pais idosos. Uma professora síria pode ter que considerar se suas credenciais serão transferidas ou se ela começará do zero lavando pratos.

Não se tratam de falhas isoladas. A demografia, a tecnologia, a geopolítica e a sustentabilidade estão convergindo para tornar a infraestrutura de migração uma vantagem competitiva definidora do futuro. As economias envelhecidas enfrentam a redução da força de trabalho à medida que a demanda por habilidades especializadas impulsionadas pela IA e pela manufatura avançada aumenta. O deslocamento devido ao clima se acelera em regiões mais jovens e com alta taxa de natalidade, enquanto as tensões geopolíticas estreitam os caminhos da migração legal. As pressões decorrentes da sustentabilidade são limitadas onde o rápido crescimento populacional pode ser absorvido sem sobrecarregar os sistemas de água, energia e habitação. Cada força intensifica as outras: a tecnologia cria lacunas de mão de obra que a demografia não consegue preencher internamente, o clima cria uma pressão migratória que a geopolítica restringe e as restrições de sustentabilidade determinam onde as populações deslocadas podem realmente se estabelecer.

Esse padrão exemplifica o que a EY chama de mundo NAVI: Não linear (um único evento cascateia desproporcionalmente), Acelerado (transições que levavam anos agora levam meses ou semanas), Volátil (mudanças inesperadas se tornam mais comuns), Interconectado (eventos desencadeiam impactos na cadeia de valor, muitas vezes com resultados imprevistos). Essa dinâmica NAVI torna a infraestrutura de migração essencial. A política reativa cria uma crise perpétua. A infraestrutura proativa cria resiliência.

Quando as pressões demográficas se intensificarem nas décadas de 2030 e 2040, os países sem uma abordagem sólida para a migração enfrentarão uma desvantagem competitiva permanente.


A migração vista através de uma nova lente

E se abordássemos a migração com a mesma disciplina operacional, planejamento de longo prazo e coordenação de vários stakeholders que aplicamos a rodovias, redes de energia e educação pública?

A infraestrutura de migração – processamento de vistos, reconhecimento de credenciais, moradia e sistemas de integração – determina se os países podem converter as pressões demográficas em vantagens econômicas. A construção dessa infraestrutura exige uma ação coordenada entre empresas, governo e sociedade civil. Cada um desempenha um papel distinto na forma como as sociedades absorvem e se beneficiam dos recém-chegados, e nenhum deles obtém exito isoladamente.

Para a maioria das empresas, a mentalidade tradicional trata a migração como uma política governamental que só se torna relevante quando as restrições de visto atrapalham o planejamento da força de trabalho. Uma mentalidade de infraestrutura trata a migração como uma estratégia de talentos, desenvolvendo pipelines próprios, investindo em moradia e criando para consumidores migrantes. Alguns setores, especialmente as empresas de tecnologia nos EUA, há muito tempo entendem essa conexão e defendem efetivamente as vias de imigração qualificada.

Para o governo, a abordagem convencional oscila entre restrição e liberalização, em grande parte com base nos ciclos políticos e em quem detém o poder. Historicamente, os governos têm flexibilizado a imigração para atender às necessidades de mão de obra, como o recrutamento de caribenhos na Grã-Bretanha na década de 1950, o programa Gastarbeiter da Alemanha e o programa de mão de obra de construção dos Emirados Árabes Unidos. No entanto, esses programas eram respostas específicas e oportunas de setores que, muitas vezes, tratavam a integração como opcional ou temporária. Uma abordagem de infraestrutura planeja a capacidade com anos de antecedência, vinculando as metas de imigração a sistemas verificados de moradia e credenciamento e serviços de integração, da mesma forma que as autoridades de transporte planejam a capacidade das rodovias com base no tráfego projetado.  

Para a sociedade civil, o modelo tradicional responde às crises por meio de ajuda humanitária financiada por doações voláteis. O modelo de infraestrutura posiciona essas organizações como a ponte principal entre os migrantes e as comunidades receptoras, com captação sustentada de recursos para o ensino de idioma, navegação de credenciais e integração cultural.

A questão não é se as pessoas se mudarão, mas para onde elas se mudarão e se os sistemas que as receberão estarão prontos.

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Capítulo 1

As forças da migração em massa

A demografia, a geopolítica, o clima e a tecnologia convergem para tornar a migração uma força significativa do mercado de trabalho na próxima década.

A matemática que não negocia

Daqui uma década, a África terá 138 milhões de jovens entre 15 e 24 anos a mais do que em 2024.8 Essas serão as principais coortes elegíveis para migração que entrarão nos mercados de trabalho globais. No sul da Ásia, 18 a 20 milhões de pessoas entram em idade ativa anualmente, embora apenas um terço a metade estarão empregadas.9 Trata-se de um déficit estrutural de empregos que manterá a pressão da migração externa ano após ano nas próximas décadas.

 

Enquanto isso, o índice de dependência de idosos da OCDE – a proporção de pessoas com 65 anos ou mais em relação à população em idade ativa – chegará a 52% até 2060, com Itália, Japão, Polônia, Coreia do Sul e Espanha ultrapassando 75%.10 Como observa Maureen Flood, Principal, People Advisory Services Tax, Ernst & Young LLP, "os dados mostram que, nas próximas décadas, a Europa terá 1,5 trabalhador para cada aposentado. Mesmo que as pessoas continuem trabalhando em regime de meio período na aposentadoria, essa é uma mudança enorme. Se isso não for suficiente para demonstrar a necessidade de talentos mais jovens e de novas ideias, os números o fazem."

Os dados mostram que, nas próximas décadas, a Europa terá 1,5 trabalhador para cada aposentado. Mesmo que as pessoas continuem trabalhando em regime de meio período na aposentadoria, essa é uma mudança enorme.

Nos EUA, um ponto de inflexão demográfica será consolidado até 2030, quando todos os baby boomers ultrapassarem os 65 anos.11


Na União Europeia, 100% do crescimento populacional em 2024 deveu-se à migração líquida, pois as mortes superaram os nascimentos no bloco.12 É uma dependência que só se intensificará. A migração está mudando de economicamente benéfica para economicamente essencial como a única fonte de crescimento da força de trabalho para a maioria das economias avançadas. Até mesmo a China, cujo declínio demográfico irá se acelerar na década de 2030, será forçada a depender predominantemente da automação sem a imigração.13

Deslocamento e restrição seletiva

O deslocamento global está aumentando drasticamente. Até o final de 2024, 123 milhões de pessoas foram deslocadas à força em todo o mundo, um número que cresceu 200% nos últimos 15 anos.14 Isso inclui refugiados, exilados e pessoas deslocadas internamente que fogem de conflitos, perseguição, violência, violações de direitos humanos ou deterioração da ordem pública em seus países de origem. Setenta e um por cento são de países de renda baixa e média.15 Em um sistema internacional cada vez mais volátil, as pressões estruturais continuarão a alimentar um alto índice de deslocamento nas próximas décadas.

Embora o asilo e a migração econômica sejam regidos por estruturas jurídicas e considerações políticas distintas, ambos são cada vez mais moldados pela instabilidade geopolítica e pela volatilidade das políticas, e ambos afetam os mercados de trabalho e o planejamento da infraestrutura.

No entanto, a política de migração em todo o mundo desenvolvido está se fragmentando uma vez que muitos governos mudaram para políticas mais protecionistas.16 Nos EUA, setembro de 2025 trouxe mudanças drásticas nas políticas. O presidente Trump impôs uma taxa anual de US$ 100.000 para o visto H-1B, encerrando efetivamente o programa para a maioria dos empregadores.17 Poucos meses antes, o governo Biden havia finalizado as regras de modernização do H-1B que ampliaram a flexibilidade.

Essa volatilidade demonstra a imprevisibilidade que as empresas enfrentam no planejamento da força de trabalho, muitas vezes impulsionada menos pelos fundamentos econômicos do que pelo sentimento populista. Fluxos de migração rápidos, especialmente quando há atraso na integração, podem desencadear reações adversas e reversões abruptas de políticas. Na UE, o Pacto sobre Migração e Asilo de 2024 foi aprovado por uma pequena margem, com o objetivo de distribuir a responsabilidade pelo asilo de forma mais uniforme entre os estados-membros. No entanto, a implementação continua incerta. A Polônia se recusou a participar e há muita divergência entre os países da linha de frente que defendem realocações e outros estados-membros que pedem para contribuir com dinheiro em vez de aceitar mais migrantes.18

Consequentemente, está surgindo um novo padrão, com controles mais rígidos sobre as rotas humanitárias e de baixa qualificação, combinados com uma liberalização direcionada para aqueles com habilidades desejadas ou riqueza. A Alemanha promulgou a reforma da cidadania e as vias rápidas para a obtenção de visto.19 O Blue Card da UE se expandiu.20 Os países do CCG introduziram residências premium.21 À medida que as fronteiras se estratificam por habilidade e riqueza, a lacuna só continuará a crescer.

Acelerador

O movimento impulsionado pelo clima decorre de perigos súbitos, como enchentes, ciclones e incêndios florestais, e mudanças mais lentas, como aumento do nível do mar, desertificação e secas recorrentes. Esses processos já estão remodelando a mobilidade e provavelmente o farão em um ritmo cada vez maior no futuro. Enquanto os eventos climáticos súbitos deslocaram mais de 24 milhões de pessoas em 2016,22 os deslocamentos por desastres atingiram um recorde de 45,8 milhões em 2024.23 Os impactos de longo prazo das mudanças climáticas também estão influenciando os padrões de migração e continuarão a fazê-lo no longo prazo. O Banco Mundial projeta até 216 milhões de migrantes climáticos internos até 2050.24


Mas isso cria seu próprio desafio de infraestrutura porque as regiões de crescimento rápido também são as mais expostas ao clima. Por exemplo, a população urbana da África quase dobrará para 1,4 bilhão até 2050, com duas de cada três pessoas vivendo em área urbana.25 Essas cidades enfrentam uma dupla pressão, pois precisam absorver um número crescente de migrantes climáticos internos, ao mesmo tempo em que já operam perto do limite de sua capacidade. E ainda servem como pontos de partida para a migração econômica externa. Essa sobreposição de demandas sobrecarrega os mesmos sistemas limitados de moradia, transporte e emprego, deixando as cidades com pouca capacidade de absorver qualquer forma de movimento de forma eficaz.

A lacuna de financiamento de adaptação do Banco Mundial, com os fluxos atuais em uma magnitude abaixo dos US$ 187 a US$ 359 bilhões anuais necessários,26 significa que essas cidades terão dificuldades para desenvolver a capacidade de absorção, aumentando a pressão da migração para países com melhor infraestrutura.

Forças concorrentes

A tecnologia está remodelando a migração global por meio de uma combinação de demanda de mão de obra e mudanças estruturais de longo prazo na forma de trabalhar. Essas pressões operam simultaneamente, criando condições que são difíceis de serem absorvidas pelos mercados de trabalho e pelos governos.

Por um lado, os setores impulsionados pela tecnologia estão se expandindo de forma muito mais rápida do que a oferta dos mercados de trabalho domésticos. Os booms da IA, dos semicondutores e da energia limpa exigem habilidades técnicas e comerciais especializadas que a maioria das economias avançadas não consegue produzir em escala suficiente. Somente os EUA precisarão de 67.000 trabalhadores na área de semicondutores até 2030 para atender aos planos de expansão da manufatura – vagas que não serão preenchidas apenas com os universitários norte-americanos.27 A transição para a energia limpa poderia proporcionar um aumento líquido de 18 milhões de empregos até 2030, mas se haverá trabalhadores suficientes com a educação e o treinamento necessários para assumir essas funções é uma pergunta em aberto.28

Por outro lado, a automação e o trabalho remoto viabilizado pela tecnologia têm o potencial de reduzir a demanda por determinadas funções ao longo do tempo, criando incertezas sobre quais profissões crescerão ou diminuirão e em que ritmo. Essas mudanças de longo prazo coexistem com a escassez imediata, tornando difícil para os empregadores e formuladores de políticas planejar a força de trabalho necessária no futuro.

Atualmente, apenas 52% dos empregadores afirmam que é fácil encontrar os talentos globais necessários para atender às necessidades de suas empresas. As restrições de oferta são um problema atual, mas os projetos de infraestrutura não podem esperar uma década para que a automação amadureça.

Na próxima década, a demanda por migração será diferente por habilidade e setor. Os países continuarão a competir por trabalhadores com média e alta qualificação, enquanto a migração de mão de obra com baixa qualificação pode amainar em áreas onde há aumento da automação.29 No entanto, a construção de infraestrutura básica, a prestação de serviços de saúde e os serviços complexos ainda exigirão presença física.30 Os países com planejamento claro para o trabalho remoto e mudança física capturarão um valor desproporcional.

Ajuste estrutural

A migração é o mecanismo de ajuste estrutural que conecta a escassez crônica de mão de obra em regiões de alta renda e a crescente pressão urbana em regiões de baixa renda. O sucesso desse ajuste depende da capacidade de absorção – a infraestrutura que determina se os países podem transformar as pressões migratórias em vantagens econômicas.

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Capítulo 2

Capacidade de infraestrutura como restrição obrigatória

A escassez de moradias, o atrito gerado por credenciais e a volatilidade das políticas impedem que os sistemas absorvam os trabalhadores de que as economias precisam desesperadamente.

Como toda infraestrutura, a capacidade de migração exige investimento calculado, coordenação e compromisso ao longo de anos, se não décadas.

Por exemplo, o desenvolvimento de moradias nos EUA leva, em média, dois anos desde o planejamento até a ocupação.31 A criação de estruturas de reconhecimento de credenciais e vias de licenciamento acelerado normalmente requer vários anos de negociação e implementação. A convenção sobre enfermagem entre Quebec e França, por exemplo, levou mais de três anos para ser estabelecida.32 Os serviços de integração – ensino de idioma, procura de emprego, integração cultural – precisam de anos para serem implementados de forma eficaz. A infraestrutura social – a confiança e a aceitação que permitem a integração – pode levar gerações para amadurecer.

O gargalo tem menos a ver com demanda ou oferta e mais com a infraestrutura de absorção.

A partir de agora, os países podem se posicionar para ter uma capacidade significativamente maior nas próximas duas décadas, quando as necessidades demográficas atingirem seu pico.

Desafio da capacidade de absorção

A infraestrutura física é um empecilho à migração, assim como a política ou a demanda de mão de obra. Mesmo não levando em conta as ondas de migração, a escassez de moradia aflige vários grandes centros receptores, como Toronto, Dubai, Londres e Berlim. A infraestrutura urbana não foi projetada para o rápido aumento da população e não é possível escalonar sua construção com rapidez suficiente sem a aceleração de obras a partir de agora.

Em 2023, o Canadá adicionou 5,1 residentes por nova unidade habitacional, em comparação com uma média histórica de 1,9.33 A Austrália só conseguiu construir uma casa para cada 3,2 migrantes em 2023 e para cada 2,1 migrantes em 2024.34 A Alemanha previu a necessidade de mais de 2,5 milhões de novas moradias até 2030.35 Enquanto isso, os prazos de construção ficam, em média, entre 18 e 24 meses, criando um atraso entre as ondas de migração e a disponibilidade de moradia.

Essas proporções se traduzem em escolhas reais: famílias de quatro pessoas dormindo em um quarto, trabalhadores qualificados optando por não migrar por não conseguirem encontrar moradia, salários consumidos inteiramente pelo aluguel, não sobrando nada para a integração. A infraestrutura não é uma estatística fria. Trata-se de saber se uma família convidada para suprir a escassez de mão de obra consegue construir uma vida em uma comunidade com moradia, escolas e serviços adequados – ou se chega para encontrar os mesmos déficits de infraestrutura que os residentes locais já enfrentam.

É importante reconhecer que essas pressões não afetam apenas os recém-chegados; elas pressionam também os residentes locais, elevando os aluguéis, lotando escolas e hospitais e intensificando o ressentimento político de concorrência percebida por recursos escassos.

As cidades não conseguem absorver rapidamente sem o aumento de moradias e serviços. Sem obras aceleradas começando agora, essas lacunas persistirão no futuro. Independentemente das necessidades do mercado de trabalho ou dos imperativos humanitários, a capacidade de absorção é uma restrição aos fluxos migratórios.

Duas cidades demonstram o que uma infraestrutura habitacional projetada pode oferecer. O modelo de moradia social de renda mista de Viena mantém aproximadamente 60% dos residentes em unidades subsidiadas pelo governo, evitando as espirais de acessibilidade observadas em outros lugares,36 enquanto a moradia social regulamentada de Singapura acomoda 38% dos trabalhadores estrangeiros por meio de uma incorporação coordenada público-privada.37

Gargalo no reconhecimento de credenciais

Um terço dos imigrantes altamente capacitados dos países da OCDE têm qualificação acima da exigida para seus empregos, com taxas que chegam a 73% na Coreia do Sul e 57% no Canadá.38 Não se trata de incompatibilidade de habilidades, mas de falhas no sistema. Cada caso representa anos de treinamento que se tornaram inúteis devido ao não reconhecimento de credenciais, famílias que vivem com uma fração de seu potencial de renda e países anfitriões que desperdiçam talentos de que precisam desesperadamente. Um cirurgião dirige para a Uber. Um engenheiro estoca prateleiras. Um professor trabalha no varejo.

A OMS prevê um déficit de 11 milhões de profissionais de saúde até 2030,39 mas milhares de profissionais de saúde treinados no exterior não podem exercer a profissão porque os processos de reconhecimento de credenciais levam de meses a anos.

Simplificar o reconhecimento de credenciais não é apenas uma questão de adequação; é uma necessidade econômica.

Os sistemas para isso já existem. A Lei de Reconhecimento da Alemanha processou mais de 383.000 solicitações de qualificação de estrangeiros desde 2012, com procedimentos normalmente concluídos em três meses.40 Os refugiados patrocinados pelo setor privado do Canadá apresentaram taxas de contratação de 90% no primeiro ano para os homens, ou seja, 17 pontos percentuais acima da taxa apresentada pelos refugiados assistidos pelo governo.41 Esses sistemas funcionam quando projetados de forma calculada.

Volatilidade da política e falha de coordenação

O descompasso entre as necessidades econômicas de longo prazo e os ciclos políticos de curto prazo gera volatilidade. As empresas não podem criar estratégias de talentos de longo prazo quando as regras de visto mudam a cada eleição. Muitos ciclos políticos duram de dois a quatro anos, enquanto a infraestrutura leva anos ou décadas para dar retorno. A política de migração cai nessa armadilha. Ela é avaliada conforme o cronograma eleitoral enquanto seus efeitos se desdobram por gerações. Como observa Gregory Daco, economista-chefe da Ernst and Young LLP, "Sempre que há um fluxo migratório forte e rápido, tende a haver uma resistência populista. Esses fluxos rápidos geralmente impedem a integração imediata, o que pode levar a um sentimento equivocado de que 'os estrangeiros estão tomando nossos empregos'. Não acredito que esse sentimento e essa implicação eleitoral desapareçam tão cedo."

As pesquisas confirmam esse padrão. Os fluxos migratórios repentinos ou conspícuos geralmente se correlacionam com o aumento do apoio aos partidos anti-imigração. Estudos mostram que a abertura das fronteiras ou a afluência de refugiados pode aumentar o apoio aos partidos de extrema direita em 1,5 a 6 pontos percentuais nas regiões afetadas, desde as áreas de fronteira da Suíça após a livre circulação da UE até as ilhas gregas durante a crise de refugiados de 2015.42 A reação parece ser motivada não apenas pelos volumes de migração, mas pela velocidade, visibilidade e concentração das chegadas.

 

Quando a migração extrapola o processo de integração, com ensino inadequado do idioma, má adequação ao emprego ou serviços insuficientes para as famílias, surge uma tensão visível. O resultado é uma reação política negativa e respostas políticas restritivas que ignoram os fundamentos econômicos que inicialmente impulsionaram a demanda por migração.

 

No entanto, algumas soluções têm se mostrado promissoras. Países como Canadá, Finlândia e Portugal demonstram que políticas abrangentes de integração funcionam quando garantem direitos e oportunidades iguais.43 A tecnologia também pode acelerar o êxito. A integração digital da Estônia e o portal de qualificação profissional em 11 idiomas da Alemanha simplificam a navegação de novos sistemas.44 O desafio não é insuperável. Requer apenas coordenação e compromisso contínuo, apesar dos ciclos políticos.


Equilíbrio entre a contribuição produtiva e a licença social sustentável

O problema não é apenas mover as pessoas; é garantir a contribuição produtiva e, ao mesmo tempo, manter a licença social. Assim como as rodovias ou as redes elétricas, a infraestrutura de migração exige uma orquestração entre o governo (política de visto, estruturas de credenciamento), os atores regionais e estaduais (moradia, capacidade de assistência médica), o governo local (zoneamento, escolas, trânsito), o setor privado (moradia para a força de trabalho, pipelines de talentos), a sociedade civil (serviços de integração, ponte cultural) e os países de origem (capacitação, preparação antes da partida). Nenhuma entidade consegue construí-la sozinha.

Como adverte Fabrice Reynauld, líder dos Serviços de Consultoria de Localização Internacional da EY: "Ou você busca políticas multilaterais para ajudar nos investimentos e os continentes crescerão e permanecerão estáveis. Ou acaba recebendo uma migração não de milhões, mas de centenas de milhões."

Prêmio econômico da construção da infraestrutura de migração

Os países que constroem infraestrutura de migração obtêm vantagens duradouras, enquanto os que não o fazem sofrem perdas cumulativas. Quatro exemplos que destacam o impacto potencial:

  1. Ganhos imediatos de produtividade. A experiência recente da Espanha mostra os dividendos: a imigração gerou 64% de novos empregos e metade de todo o crescimento em 2023, elevando o PIB em 3%, o que é quase quatro vezes a média da zona do euro.45 Quando o reconhecimento de credenciais e a integração são bem-sucedidos, os migrantes contribuem imediatamente durante os anos de pico de renda.
  2. Sustentabilidade fiscal. Os migrantes em idade ativa ajudam a sustentar os sistemas de aposentadoria e de saúde pressionados pelo envelhecimento da população. Os imigrantes admitidos no Canadá depois de 1980 causaram impactos fiscais líquidos positivos, sendo que os principais candidatos contribuíram mais do que outros imigrantes e os cidadãos nascidos no Canadá.46
  3. Aceleração da inovação. Os imigrantes ou seus filhos fundaram 46% das empresas da Fortune 500 e 44% das startups americanas de bilhões de dólares em 2025.47
  4. O custo da inação. A população em idade ativa do Japão caiu em mais de 11 milhões entre 2000 e 2018, com o crescimento ficando para trás apesar da automação.48 Sem infraestrutura de migração, as economias enfrentam estagnação, pressão fiscal e declínio da competitividade.

Em última análise, o prêmio não é a migração em si; é o dinamismo, a estabilidade fiscal e a vantagem competitiva que a infraestrutura de migração planejada possibilita.

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Capítulo 3

Por que a infraestrutura de migração é essencial em um futuro automatizado

Mesmo com a chegada da automação, a infraestrutura de migração continua sendo essencial, proporcionando flexibilidade para futuros incertos e preenchendo lacunas demográficas.

A automação transformará os mercados de trabalho, mas não eliminará a necessidade de pessoas. Em vez disso, mudará quais funções se expandirão e quais diminuirão ou desaparecerão completamente. Por exemplo, como a IA lida com tarefas mais cognitivas, os trabalhos manuais que exigem julgamento humano, como hotelaria, saúde e comércio especializado, podem apresentar um crescimento salarial mais rápido, enquanto alguns trabalhos administrativos se tornam commodity.49

Isso torna a infraestrutura de migração mais, e não menos, crítica porque os países precisam de sistemas para atrair trabalhadores em todo o espectro de habilidades, desde engenheiros de IA até especialistas em cuidado de idosos, cujo trabalho é insubstituível.

A automação é seletiva, não universal

A tecnologia raramente elimina toda uma profissão. Ele simplesmente a remodela. O setor de saúde, por exemplo, continuará centrado no ser humano. O cuidado de idosos exige presença física, inteligência emocional e competência cultural que a tecnologia não consegue replicar em escala. O Japão lidera a robótica voltada ao cuidado, mas projeta uma enorme escassez de cuidadores até 2040.50

Há esse mesmo padrão na construção, no comércio especializado, na logística e na hotelaria.51 Até mesmo o trabalho voltado ao conhecimento resiste porque, embora a IA o amplifique, ela não o substitui totalmente, aumentando a produtividade por trabalhador sem reduzir o número total de colaboradores quando a produção aumenta.52

Em um mundo NAVI, essa trajetória desigual torna o planejamento de longo prazo da força de trabalho inerentemente difícil. A infraestrutura de migração permite que os países se adaptem a essas mudanças e não fiquem para trás.

A infraestrutura dá opções para futuros incertos

Ninguém pode prever quais empregos a automação transformará, em que ritmo ou em quais setores. Essa incerteza só aumenta a necessidade da flexibilidade estrutural que a infraestrutura de migração oferece.

A opcionalidade é mais do que a capacidade de aumentar ou diminuir os fluxos de entrada. É a capacidade de reconfigurar as vias de talentos, os sistemas de credenciamento e o suporte para residência em resposta às mudanças nas condições. Os países com infraestrutura sólida podem direcionar o recrutamento para setores que enfrentam escassez aguda, acelerar o reconhecimento de credenciais quando a oferta doméstica for limitada ou abrir caminhos direcionados quando surgirem novos setores.

Os países que não possuem infraestrutura de migração podem enfrentar uma escassez prolongada de mão de obra no curto prazo ou a criação de um sistema em modo de crise quando as pressões demográficas atingirem o pico. A infraestrutura de migração oferece flexibilidade estratégica para as economias quando o futuro do trabalho for inerentemente imprevisível.

O abismo demográfico exige uma ponte

Mesmo que a automação apresente um amadurecimento completo nas próximas décadas, a janela entre hoje e amanhã cria uma lacuna séria sem a migração.

Os baby boomers estão se aposentando agora. O índice de dependência dos idosos nos EUA está crescendo rapidamente, embora não tão rapidamente quanto o da Europa. No Leste Asiático, essa curva é ainda mais acentuada: o Japão, a Coreia do Sul e a China estão envelhecendo mais rapidamente do que qualquer outra região na história. Essas são realidades demográficas consolidadas a partir das taxas de natalidade de décadas atrás.


O problema não é o tempo teórico, mas sim a sobreposição das linhas do tempo. A infraestrutura leva anos para ser construída; os sistemas de credenciamento e integração levam mais tempo; a infraestrutura social leva gerações. A automação, por sua vez, exige uma década de refinamento setor por setor para aliviar a escassez de mão de obra.

A OCDE adverte que, embora a IA possa aumentar a produtividade, "ela não é, de forma alguma, um substituto ou uma solução milagrosa para a falta de trabalhadores" e que as sociedades que estão envelhecendo enfrentam uma mudança "da escassez de empregos para a escassez de trabalhadores", com projeção de desaceleração do crescimento per capita caso não haja uma ação política.53 A pesquisa do FMI sobre o Japão sugere que a automação pode potencialmente compensar algum impacto do envelhecimento da população sobre a produção real, mas não pode eliminar totalmente as pressões fiscais da transição demográfica.54

Os países que apostam apenas em soluções tecnológicas arriscam anos de escassez de mão de obra e crescimento lento enquanto esperam a automação amadurecer. A infraestrutura de migração é a ponte que começa a funcionar agora. Sem isso, as economias ficam estagnadas à espera de uma solução tecnológica que pode se mostrar incompleta.

O valor da capacidade da infraestrutura aumenta ao longo do tempo

Os sistemas de migração implementados hoje criam vantagens que se acumulam ao longo de décadas. As estruturas de reconhecimento de credenciais, uma vez estabelecidas, continuam a liberar talentos subutilizados. Os pipelines de talentos se aprofundam e se ampliam. Os migrantes qualificados fortalecem os ecossistemas de inovação e a atividade empresarial de forma desproporcional, inclusive nas empresas de IA.55

 

Para as empresas, os canais globais próprios de talentos tornam-se fossos competitivos de longo prazo. Para os governos, caminhos previsíveis e bem projetados tornam o mercado de trabalho mais resistente a choques demográficos, tecnológicos e geopolíticos.

 

O êxito no futuro pertencerá àqueles que desenvolveram a capacidade de absorver talentos em escala, e não àqueles que esperam que a mudança tecnológica resolva a escassez que já está aí.

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Capítulo 4

Ações estratégicas para a infraestrutura de migração

A infraestrutura de migração exige uma ação coordenada entre as empresas, o governo e a sociedade civil.

Se a infraestrutura de migração determina quem irá prosperar nas próximas décadas, a questão essencial é como construí-la. A seguir, as prioridades de alto impacto para que empresas, governos e a sociedade civil criem sistemas maduros.

 

Três respostas estratégicas para as empresas

As empresas não podem mais tratar a migração como uma questão de política externa que cabe exclusivamente aos governos. Conforme observado por George Reis, Líder de Imigração para a EY Americas na EY Law LLP, "A imigração sempre foi considerada, mas ocupava um nível inferior. Agora, as empresas estão subindo seu patamar no processo de tomada de decisão. Elas estão falando em nível de diretoria executiva." À medida que as pressões demográficas se intensificam e a escassez de habilidades se aprofunda, as empresas que moldam proativamente a infraestrutura de migração, por meio de pipelines de talentos, integração no local de trabalho e apoio às comunidades, terão uma vantagem extraordinária. As que a ignorarem ficarão limitadas à oferta de mão de obra local e cada vez mais expostas à volatilidade das políticas e ao aumento dos custos.

A imigração sempre foi levada em consideração, mas era um assunto de pouca importância. Agora, as empresas estão elevando seu nível no processo de tomada de decisão.

Capturar o valor da infraestrutura de migração depende de uma liderança coordenada em toda a diretoria executiva, cada uma com uma função própria.

CEO

Como administrador da competitividade de longo prazo, o CEO define o tom de como a migração apoia a estratégia, o crescimento e a resiliência.

  • Posicionar a migração como um elemento central da estratégia corporativa, vinculando a mobilidade de talentos à inovação, à expansão do mercado e à resiliência
  • Explorar parcerias e investimentos que fortaleçam os pipelines globais de talentos e reduzam a dependência dos mercados de trabalho locais que sofrem limitações
  • Trabalhar com o governo e a sociedade civil para moldar políticas de migração e infraestrutura que permitam o acesso previsível e de longo prazo a talentos

CHRO

O CHRO traduz a estratégia de migração em capacidade e agilidade da força de trabalho, assegurando que talentos globais sejam recrutados e integrados de forma eficaz.

  • Desenvolver canais de recrutamento direto em mercados com alta oferta de talentos e estabelecer parcerias com instituições de ensino para aprimoramento de habilidades antes da contratação
  • Simplificar os processos de integração e reconhecimento de credenciais para acelerar a produtividade das contratações internacionais
  • Projetar programas de integração que incluam o aprendizado de idiomas, soluções de moradia e adaptação cultural de talentos globais

COO

O COO garante o escalonamento das operações de forma eficiente à medida que a migração remodela a composição da força de trabalho e a entrega do projeto.

  • Integrar considerações sobre a migração ao planejamento operacional, inclusive a moradia da força de trabalho, o credenciamento e a seleção da localidade
  • Avaliar as implicações financeiras da escassez de mão de obra, tendências salariais e cronogramas de projetos em diferentes cenários de migração e automação
  • Usar a tecnologia para simplificar os processos relacionados à migração e apoiar a rápida adaptação da força de trabalho em todas as localidades

CRO

O CRO incorpora a dinâmica da migração ao risco empresarial, à resiliência e ao planejamento de cenários.

  • Mapear a exposição aos riscos relacionados à migração, inclusive volatilidade de políticas, disrupção da cadeia de suprimentos e desafios de licenças sociais
  • Incorporar cenários de migração à continuidade dos negócios, ao risco geopolítico e ao planejamento de respostas a crises
  • Monitorar tendências regulatórias, sociais e demográficas para prever riscos e oportunidades emergentes relacionados à migração

CMO

O CMO garante que a organização continue relevante à medida que a migração remodela as bases de clientes, suas preferências e padrões de demanda.

  • Monitorar continuamente as mudanças na demografia e nas preferências dos clientes impulsionadas pela migração, a fim de ajustar as campanhas e capturar oportunidades de curto prazo ou mitigar os riscos
  • Desenvolver o posicionamento da marca e os portfólios de produtos a fim de se manter relevante à medida que a migração muda a composição e as necessidades de longo prazo dos principais mercados Usar insights baseados em dados para promover o crescimento, criando campanhas, parcerias e produtos que envolvam segmentos de clientes emergentes moldados pelas tendências da migração

Cinco prioridades para os governos

Para que a migração se torne uma vantagem econômica, os governos devem deixar de atuar apenas como guardiões e assumir o papel de criadores de sistemas, desenvolvendo ecossistemas coordenados que envolvam as empresas e a sociedade civil.

  1. Vincular a imigração ao planejamento da infraestrutura. Comece com a projeção da necessidade futura de talentos utilizando modelos de mercado de trabalho que usem IA, integrando essas projeções ao planejamento de moradia, trânsito e educação. Vincular as metas de migração à capacidade verificada de infraestrutura garante que os fluxos de entrada permaneçam sustentáveis e politicamente defensáveis. Os modelos de cofinanciamento entre governos e empresas podem sincronizar o investimento público com a expansão da força de trabalho, enquanto a análise preditiva pode identificar os gargalos antes que eles se materializem. Como Catherine Friday, Líder Global de Governo e Infraestrutura da EY, observa, "países como Singapura estão fazendo a modelagem de longo prazo da força de trabalho e planejando a migração hoje com base em horizontes de 10 ou 20 anos. Enquanto países como os EUA, o Reino Unido e a Austrália estão considerando dois ou três anos." O planejamento retroativo dos requisitos de capacidade futura transforma a migração de política reativa em base da competitividade nacional.

  2. Acelerar o reconhecimento das credenciais. Os gargalos de credenciais são um obstáculo autoinfligido à produtividade e à integração. Trabalhar com reguladores, órgãos profissionais e empregadores para modernizar os sistemas de reconhecimento pode reduzir o tempo de processamento de anos para meses de forma a liberar o talento subutilizado já existente no país.

  3. Criar infraestrutura de integração e orquestrar o ecossistema. Coordenar um ecossistema de migração abrangente que reúna governo (política e financiamento), empresas (vias de contratação e integração no local de trabalho) e organizações da sociedade civil (apoio comunitário). Reconhecer que a migração remodela a estrutura da sociedade e elaborar planos de integração que funcionem local e nacionalmente. Colaborar com empregadores, ONGs e líderes comunitários para apoiar não apenas as populações migrantes, mas também os residentes e as instituições que se adaptam a elas. Conforme observado por Shane MacSweeney, Líder Global de Infraestrutura da EY, "os governos estão tentando construir ativos que durem mais de uma geração, mas em um ambiente em que as mudanças demográficas e migratórias ocorrem a cada década". As ferramentas digitais podem proporcionar a agilidade que falta aos sistemas físicos. Os programas de integração que utilizam um design baseado em dados e a entrega coordenada estão em posição melhor para oferecer resultados, fortalecendo a confiança do público e preservando a licença social que é essencial para a continuidade da migração.

  4. Priorizar vias seletivas para as necessidades econômicas. As realidades políticas dificultam a expansão de todas as rotas de migração ao mesmo tempo. No entanto, vias seletivas alinhadas a objetivos econômicos claros podem gerar apoio e demonstrar resultados. Usando dados do mercado de trabalho em tempo real, os governos podem focar nos setores que enfrentam escassez aguda e ajustar as vias conforme mudanças nas condições.

  5. Estabelecer coordenação regional. Nenhum país pode resolver sozinho a escassez ou o deslocamento de mão de obra. Acordos regionais sobre mobilidade, reconhecimento mútuo de credenciais e regras de integração podem reduzir atritos e criar grupos de talentos maiores e mais flexíveis.
  1. Ampliar a infraestrutura de integração. As organizações da sociedade civil são o tecido que conecta os sistemas de migração, mas a maioria continua subfinanciada e fragmentada. Elas podem ser ampliadas por meio da implementação de serviços baseados em tecnologia, como aulas virtuais de idioma, serviços jurídicos virtuais e credenciamento assistido por IA, a fim de atender mais pessoas a um custo menor.

  2. Criar licença social por meio de evidências e conexões. A confiança do público é construída com base em experiências compartilhadas e dados confiáveis. A sociedade civil pode fortalecer a licença social criando programas que conectem os migrantes e as comunidades anfitriãs, ao mesmo tempo em que comunica os ganhos econômicos que a migração traz: forças de trabalho maiores, produção mais rápida e perda líquida mínima de empregos para os nativos.

  3. Coordenar globalmente para uma resposta sustentada. As organizações da sociedade civil ocupam uma posição privilegiada para conectar a experiência local com o aprendizado global. A coordenação entre fronteiras e o compartilhamento de modelos, dados e ferramentas eficazes podem acelerar o impacto, enquanto o financiamento combinado ou agregado pode transformar êxitos pontuais em sistemas escalonáveis.

Sumário

A infraestrutura de integração – moradia, escolas, capacitação, pertencimento – leva tempo para ser construída. As nações que começarem cedo estarão prontas para o futuro. As que esperarem enfrentarão escassez.

A migração não é uma emergência a ser gerenciada ou uma ameaça a ser combatida. É uma infraestrutura a ser construída. O modo como as empresas e os países investem na capacidade de absorção hoje determinará sua competitividade nas próximas décadas.  


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