Como toda infraestrutura, a capacidade de migração exige investimento calculado, coordenação e compromisso ao longo de anos, se não décadas.
Por exemplo, o desenvolvimento de moradias nos EUA leva, em média, dois anos desde o planejamento até a ocupação.31 A criação de estruturas de reconhecimento de credenciais e vias de licenciamento acelerado normalmente requer vários anos de negociação e implementação. A convenção sobre enfermagem entre Quebec e França, por exemplo, levou mais de três anos para ser estabelecida.32 Os serviços de integração – ensino de idioma, procura de emprego, integração cultural – precisam de anos para serem implementados de forma eficaz. A infraestrutura social – a confiança e a aceitação que permitem a integração – pode levar gerações para amadurecer.
O gargalo tem menos a ver com demanda ou oferta e mais com a infraestrutura de absorção.
A partir de agora, os países podem se posicionar para ter uma capacidade significativamente maior nas próximas duas décadas, quando as necessidades demográficas atingirem seu pico.
Desafio da capacidade de absorção
A infraestrutura física é um empecilho à migração, assim como a política ou a demanda de mão de obra. Mesmo não levando em conta as ondas de migração, a escassez de moradia aflige vários grandes centros receptores, como Toronto, Dubai, Londres e Berlim. A infraestrutura urbana não foi projetada para o rápido aumento da população e não é possível escalonar sua construção com rapidez suficiente sem a aceleração de obras a partir de agora.
Em 2023, o Canadá adicionou 5,1 residentes por nova unidade habitacional, em comparação com uma média histórica de 1,9.33 A Austrália só conseguiu construir uma casa para cada 3,2 migrantes em 2023 e para cada 2,1 migrantes em 2024.34 A Alemanha previu a necessidade de mais de 2,5 milhões de novas moradias até 2030.35 Enquanto isso, os prazos de construção ficam, em média, entre 18 e 24 meses, criando um atraso entre as ondas de migração e a disponibilidade de moradia.
Essas proporções se traduzem em escolhas reais: famílias de quatro pessoas dormindo em um quarto, trabalhadores qualificados optando por não migrar por não conseguirem encontrar moradia, salários consumidos inteiramente pelo aluguel, não sobrando nada para a integração. A infraestrutura não é uma estatística fria. Trata-se de saber se uma família convidada para suprir a escassez de mão de obra consegue construir uma vida em uma comunidade com moradia, escolas e serviços adequados – ou se chega para encontrar os mesmos déficits de infraestrutura que os residentes locais já enfrentam.
É importante reconhecer que essas pressões não afetam apenas os recém-chegados; elas pressionam também os residentes locais, elevando os aluguéis, lotando escolas e hospitais e intensificando o ressentimento político de concorrência percebida por recursos escassos.
As cidades não conseguem absorver rapidamente sem o aumento de moradias e serviços. Sem obras aceleradas começando agora, essas lacunas persistirão no futuro. Independentemente das necessidades do mercado de trabalho ou dos imperativos humanitários, a capacidade de absorção é uma restrição aos fluxos migratórios.
Duas cidades demonstram o que uma infraestrutura habitacional projetada pode oferecer. O modelo de moradia social de renda mista de Viena mantém aproximadamente 60% dos residentes em unidades subsidiadas pelo governo, evitando as espirais de acessibilidade observadas em outros lugares,36 enquanto a moradia social regulamentada de Singapura acomoda 38% dos trabalhadores estrangeiros por meio de uma incorporação coordenada público-privada.37
Gargalo no reconhecimento de credenciais
Um terço dos imigrantes altamente capacitados dos países da OCDE têm qualificação acima da exigida para seus empregos, com taxas que chegam a 73% na Coreia do Sul e 57% no Canadá.38 Não se trata de incompatibilidade de habilidades, mas de falhas no sistema. Cada caso representa anos de treinamento que se tornaram inúteis devido ao não reconhecimento de credenciais, famílias que vivem com uma fração de seu potencial de renda e países anfitriões que desperdiçam talentos de que precisam desesperadamente. Um cirurgião dirige para a Uber. Um engenheiro estoca prateleiras. Um professor trabalha no varejo.
A OMS prevê um déficit de 11 milhões de profissionais de saúde até 2030,39 mas milhares de profissionais de saúde treinados no exterior não podem exercer a profissão porque os processos de reconhecimento de credenciais levam de meses a anos.
Simplificar o reconhecimento de credenciais não é apenas uma questão de adequação; é uma necessidade econômica.
Os sistemas para isso já existem. A Lei de Reconhecimento da Alemanha processou mais de 383.000 solicitações de qualificação de estrangeiros desde 2012, com procedimentos normalmente concluídos em três meses.40 Os refugiados patrocinados pelo setor privado do Canadá apresentaram taxas de contratação de 90% no primeiro ano para os homens, ou seja, 17 pontos percentuais acima da taxa apresentada pelos refugiados assistidos pelo governo.41 Esses sistemas funcionam quando projetados de forma calculada.
Volatilidade da política e falha de coordenação
O descompasso entre as necessidades econômicas de longo prazo e os ciclos políticos de curto prazo gera volatilidade. As empresas não podem criar estratégias de talentos de longo prazo quando as regras de visto mudam a cada eleição. Muitos ciclos políticos duram de dois a quatro anos, enquanto a infraestrutura leva anos ou décadas para dar retorno. A política de migração cai nessa armadilha. Ela é avaliada conforme o cronograma eleitoral enquanto seus efeitos se desdobram por gerações. Como observa Gregory Daco, economista-chefe da Ernst and Young LLP, "Sempre que há um fluxo migratório forte e rápido, tende a haver uma resistência populista. Esses fluxos rápidos geralmente impedem a integração imediata, o que pode levar a um sentimento equivocado de que 'os estrangeiros estão tomando nossos empregos'. Não acredito que esse sentimento e essa implicação eleitoral desapareçam tão cedo."