O CENSA (Centro Especializado Nossa Senhora D´Assumpção), fundado em 1964 na cidade mineira de Betim, se consolidou no cenário nacional como centro de referência no atendimento às pessoas com deficiência intelectual e autismo severo. À frente do negócio, Natália Inês Costa, homenageada na última edição do programa EOY – Empreendedor do Ano, defende que a deficiência não diz respeito ao indivíduo, mas a ambientes e atitudes despreparados para lidar com ele.
“O autista não tem o mundo dele, como costumam dizer. O mundo do autista é o nosso. A sociedade precisa fazer com que esse mundo, que é único para todos nós, seja dos autistas também, dando a essas pessoas as melhores condições para acessá-lo”, destaca a empresária, que foi reconhecida na categoria Impacto. Essa classificação é voltada para empresas que nasceram com a missão de responder aos desafios socioambientais em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que se guiem pelos princípios de ESG e que apresentem soluções com resultados efetivos.
Leia abaixo a entrevista na íntegra.
1) O CENSA tem mais de seis décadas de história. Como essa trajetória se confunde com a evolução do tratamento à deficiência intelectual no Brasil?
NATÁLIA: Na Esparta antiga, meninos que nasciam com deficiência eram jogados no fosso. Não só eles, mas as mães também. A lógica era a seguinte para essas mães: se seu ventre não traz um homem que consegue lutar, não vale nada. Na Idade Média, você tinha as rodas dos enjeitados, com as crianças com deficiência sendo abandonadas pelas mães, para que fossem criadas pelo padre e pelas irmãs de caridade. Embora a situação tenha evoluído nos dias atuais, ainda há bastante espaço para melhora. Muita gente ainda pergunta se somos uma ONG, se recebemos doação. Nós somos, na realidade, um negócio legítimo que contribui para uma sociedade melhor. Consideramos a pessoa com deficiência um cidadão, e não depositária de dó, como historicamente acontece.
O CENSA é uma organização com 61 anos de existência que trabalha na inclusão, no cuidado, na intervenção e no acolhimento da pessoa adulta com deficiência intelectual e de sua família. Por ser uma instituição antiga, o CENSA passou por vários momentos no campo da deficiência intelectual. Antigamente, o Brasil tinha um estigma muito grande, direcionando essas pessoas para hospitais psiquiátricos, também chamados de manicômios. Essas instituições não ofereciam tratamento humanizado. Muito pelo contrário: o objetivo era retirar essas pessoas da convivência com as outras. Passado esse período dos manicômios, o objetivo passou a ser colocar todas as pessoas dentro de uma caixinha, com uma educação voltada para mudar o indivíduo. Sabemos que esse não é o caminho. É preciso trabalhar sob a perspectiva da inclusão. A pessoa tem limitações intelectuais, mas a deficiência está no espaço. Por exemplo, se o espaço não está preparado para receber todo mundo, então o espaço é deficiente, e não a pessoa.
O autista não tem o mundo dele, como costumam dizer. O mundo do autista é o nosso, é esse de todos nós. A sociedade precisa fazer com que esse mundo, que é único para todos nós, seja dos autistas também, dando a essas pessoas as melhores condições para acessá-lo. A Lei Brasileira de Inclusão de 2015 é robusta, mas falta capilaridade, assim como não há verba suficiente para os projetos. A pessoa com deficiência intelectual grave, muitas vezes, não vai trabalhar, não vai para a escola, precisando ser cuidada. O Brasil não está preparado nem mesmo para a deficiência leve, imagine então para essa. Não se trata de modificar a pessoa. Temos que alterar como sociedade nossa forma de pensar e o ambiente que oferecemos.
2) Você menciona "invisibilidade" das pessoas com deficiência intelectual grave. Por que é tão difícil para a sociedade enxergar esse público?
NATÁLIA: Porque mesmo atualmente esse público é tratado com estigma. A pessoa com deficiência intelectual grave, que muitas vezes não fala e não tem autonomia para as atividades básicas de vida, continua escondida. No recorte da inclusão, trabalhamos com adultos que foram negligenciados a vida inteira. O indivíduo cresce, sem que a mente acompanhe. Recebemos adolescentes e adultos com deficiência intelectual que são totalmente dependentes nas atividades diárias, não conseguindo sozinhas escovar os dentes, tomar banho e comer, além de não terem noção do perigo, do que podem machucá-las. Essas pessoas precisam do que chamamos de apoio pervasivo. Isso significa um número grande de profissionais de várias especialidades disponíveis 24 horas por dia. Estou falando de cuidador, fisioterapeuta, nutricionista, médico psiquiatra, neurologista, farmacêutico, enfermeiro, psicólogo para intervenção comportamental, pedagogo. Esse é meu negócio: incluir, cuidar, intervir.
Já estamos no CENSA na terceira geração de gestoras, todas mulheres. Quem fundou a empresa foi Ester Assumpção, que trabalhou diretamente com Helena Antipoff na Sociedade Pestalozzi. Antipoff, psicóloga e pedagoga russa radicada no Brasil, teve papel fundamental para a educação especial, inclusiva e para a psicologia no país. Isso porque foi pioneira na defesa de métodos educativos que respeitassem as singularidades de cada criança, com foco especial naquelas com deficiência. Ou seja, estamos falando de duas mulheres à frente do seu tempo. A perspectiva do CENSA é de um modelo educacional que prepare a sociedade para acolher essas pessoas.
3) Como é conciliar a imagem de uma instituição de cuidado com a realidade de um negócio que precisa faturar para manter suas atividades?
NATÁLIA: Essa foi a principal contribuição do programa Winning Women para o CENSA, demonstrando como empreender nesse setor e ajudando a retirar de mim o preconceito de ganhar dinheiro com isso. Eu precisei entender que o faturamento é indispensável para manter o atendimento e ampliá-lo, garantindo a perpetuidade desse importante trabalho para a sociedade.
Temos hoje um fundo desenvolvido como resultado da mentoria do WW para que as pessoas possam fazer suas doações. É um negócio legítimo, auditado, que prova que o cuidado pode e deve ser uma atividade produtiva e profissional, fugindo do antigo modelo do assistencialismo. Isso dá legitimidade, pois os doadores conhecem os números do CENSA e sabem que se trata de um trabalho sério.
4) O que você acha que fez a diferença para o reconhecimento no EOY?
NATÁLIA: O fato de contribuirmos para estimular a naturalidade na convivência com as pessoas com deficiência intelectual. Quero que cheguemos ao ponto em que o mundo do autista ou do deficiente intelectual seja entendido como o nosso mundo. Não há um mundo deles, como destaquei anteriormente. Temos que dar acesso a eles para que ocupem todos os espaços da sociedade, sem serem alvos de olhares de estranhamento.
Costumo dizer que, no CENSA, as pequenas vitórias são gigantescas. Recentemente, um de nossos assistidos, após anos de convivência, falou meu nome pela primeira vez. Eu não conseguia parar de chorar. É como uma mãe ouvindo a primeira palavra do filho. Trabalhar com eles me torna uma pessoa melhor. Eles nos ensinam sobre presença e humanidade de uma forma que nenhuma técnica consegue explicar.
Nova edição do EOY
Idealizado e promovido pela EY desde 1998 no Brasil, o programa Empreendedor do Ano reconhece líderes empresariais de setores e mercados distintos que, com sua visão de futuro, têm algo em comum: a vontade de transformar a realidade do país, deixando seu legado e contribuindo para a construção de um mundo de negócios melhor.
As inscrições já estão abertas para a 29ª edição. Inscreva-se neste link!
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Este conteúdo faz parte da série da Agência EY com representantes homenageados da edição 2025 do programa EOY - Empreendedor do Ano. Leia as entrevistas anteriores:
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