À medida que o acesso às tecnologias de inteligência artificial se universaliza entre as empresas, torna-se premente a necessidade de buscar os verdadeiros diferenciais competitivos dessa tecnologia, que são, na avaliação dos executivos de bancos em painel promovido pela EY no Febraban Tech 2026, a qualidade dos dados e a capacidade dos profissionais que vão interpretá-los no dia a dia. Para que essa diferenciação seja realmente sustentável e em bases seguras, a governança precisa ser aplicada a todos os processos e profissionais das organizações.
“Os dados deixaram de ser vistos apenas como matéria-prima da tecnologia para se consolidarem como o fator que pode trazer vantagem competitiva”, disse Telma Luchetta, sócia-líder de Tecnologia, IA e Dados para o setor financeiro da EY Brasil, que fez a mediação do painel.
No entanto, segundo a executiva, a integração dos dados entre os diferentes departamentos e profissionais das organizações carece ainda de efetividade. “Os dados precisam ser adicionados às discussões de estratégia de negócio desde o início. O desafio que identificamos em estudo recente com CDOs (Chief Data Officers) é que o nível de prontidão desses dados ainda deixa a desejar”, completou. A prontidão dos dados nas empresas significa tê-los limpos, estruturados, acessíveis e governados para gerar decisões confiáveis e alimentar inclusive os sistemas de inteligência artificial. "Só dá para ganhar velocidade na adoção segura de IA se a organização fizer a gestão eficiente dos seus dados”, observou.
Para as instituições financeiras e demais entidades autorizadas a funcionar pelo Banco Central, a Resolução Conjunta 18/2025 estabelece diretrizes de governança e garantia da qualidade dos dados mantidos e reportados ao órgão. “Passará, portanto, a existir a obrigatoriedade de um programa de qualidade de dados. O dia 31 de dezembro deste ano marca o fim do prazo final de adequação”, disse Telma.
A regulamentação exige a comprovação por parte dos regulados de que suas informações contábeis, operacionais e de risco não estão sujeitas a distorções ou manipulações desprovidas de rastreamento. O objetivo é garantir que toda a esteira de transformação dos dados, desde a origem nos sistemas transacionais até consolidação em relatórios regulatórios, seja documentada, protegida e possa ser auditada contra alterações manuais não controladas.
Rafael Rovani, Head de Inteligência Artificial e Analytics do Banco do Brasil, que palestrou no painel, destacou que quanto maior for o avanço na qualidade dos dados, mais rápida será a resposta na adoção da IA. “Para ter a principalidade entre os clientes [ser a principal instituição financeira do cliente em termos de utilização no dia a dia], preciso que eles confiem no banco. Isso somente é possível se eu gerar valor a partir dos dados, garantindo a governança de ponta a ponta”, disse.
Ainda segundo Rafael, o Banco do Brasil foi o primeiro banco da América Latina a estabelecer diretrizes para a aplicação ética e responsável da IA. “O banco criou um framework de governança em 2022, que já está sendo revisitado com o auxílio da EY, já que o avanço da IA exige essa atualização”, completou.
José Loureiro, diretor de Inovação, Digital & Dados do Grupo Bradesco Seguros, concordou com Rovani, afirmando que o verdadeiro diferencial da instituição financeira está não apenas na qualidade dos seus dados, mas no entendimento do contexto do negócio e da velocidade que esses dados são tratados para tomar uma decisão. “O chamado business agility, que é essa capacidade de transformar rapidamente dados em decisões, será cada vez mais o fator determinante do sucesso”, observou.
Em relação à governança, José alertou que a adoção da IA requer mudança de mentalidade na entrega de projetos. "Não se trata de entregar e fim de papo. Os sistemas de IA precisam ser constantemente revisitados, trabalhando curadoria, qualidade dos dados, enfim, aprimorando o modelo”, disse. Ele lembrou que a IA, em caso de alucinação, exponencia o problema, já que multiplica o erro em uma escala muito maior do que se ocorresse em um processo manual.
Para evitar o chamado “shadow AI” (uso de IA sem aprovação ou conhecimento da TI) nas empresas, o executivo defendeu que o CDO orquestre esses esforços, mostrando valor para o negócio e gerando confiança entre os colaboradores, por meio do fortalecimento da cultura de dados e da transparência.
Revolução intelectual
O programa de qualidade de dados depende dos profissionais para que gere resultados de negócio. Rafael argumentou que o conceito de data-driven (empresas guiadas por dados) já é uma etapa superada no mercado, celebrando como parte dessa superação o retorno do "protagonismo humano conectado à IA". Para o executivo, não vivemos apenas uma revolução tecnológica, mas uma revolução intelectual que afeta nossa capacidade cognitiva e senso crítico.
"A IA dá respostas em tempo real, mas qual nossa capacidade crítica de levar à frente isso?", questionou, enfatizando o impacto nas experiências de negócios e dos clientes. Como parte desse senso crítico, é necessário conectar a IA e os dados à estratégia do negócio. "Não adianta trazer um modelo de IA se a área que estiver fazendo a implementação não tiver consciência da proposta de valor que isso vai trazer para o cliente e, por consequência, para o negócio", finalizou.
André Mattos, CDO do Banco BMG, reforçou que as LLMs e as IAs virarão commodities, motivo pelo qual as pessoas continuarão relevantes. Ele defendeu que o valor para as organizações virá da forma como os colaboradores usarão a IA e da velocidade com que essa cultura será implementada. "O julgamento humano de verificar o melhor caminho e tomar a melhor decisão não será substituído pela IA", concluiu.
A inteligência artificial tem sido cada vez mais utilizada pelas empresas para inovar e tornar mais produtivo o dia a dia dos seus negócios. Há, no entanto, diversas dúvidas sobre como desenvolver e operacionalizar esses sistemas evitando os riscos que podem comprometer os resultados financeiros e a reputação das organizações. Nesse contexto, a EY lançou a série “IA aplicada aos negócios: Como utilizar essa tecnologia com segurança e governança para gerar inovação”, que, além desta reportagem, já publicou as seguintes:
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