Bancos terão humanos e agentes de IA juntos com governança e monitoramento by design

08 set. 2026

Nesse modelo de trabalho, que começa a se tornar realidade nas instituições financeiras, a governança é atribuição de todos, com métricas e ferramentas que garantem respostas adequadas e acompanham possíveis desvios ou violações éticas

A governança está passando por uma transformação nas empresas, especialmente aquelas que utilizam a tecnologia de forma intensiva como as instituições financeiras. Isso porque já está se tornando realidade um modelo de trabalho que integra humanos e agentes de IA. "Com a ascensão dos sistemas de inteligência artificial, há necessidade de contemplar, nas políticas de governança, novas formas de ação e de monitoramento frente aos desafios trazidos pela tecnologia", disse Telma Luchetta, sócia-líder de Tecnologia, IA e Dados para o setor financeiro da EY Brasil, que participou do Febraban Tech 2026. 

Em painel realizado pela EY nesse evento, Giuliane Paulista, conselheira, professora e mentora em IA & Dados, Inovação e Estratégia, afirmou que a governança passa a ser uma atribuição de todos os profissionais, não apenas de quem sempre foi responsável por prezar por ela nas organizações. “Estamos falando desde quem desenvolve as ferramentas tecnológicas, idealizando essas soluções, ou seja, o time de tecnologia, até quem pensa nos guardrails ou nas barreiras de proteção”, observou.

O controle de acesso aos dados, sempre tratado como uma questão de segurança, passou a exigir, na avaliação dela, camadas mais inteligentes para garantir que o agente consuma apenas os dados necessários. “Essa é uma das questões centrais: assegurar o acesso somente a quem realmente deve tê-lo”, afirmou. Além disso, ela afirmou que o monitoramento precisa deixar de ser reativo nas organizações. “Em vez de colocar uma solução no ar para depois avaliá-la, há necessidade agora de um monitoramento by design ou desde a concepção, definindo métricas e ferramentas que garantem respostas adequadas e acompanham possíveis desvios ou violações éticas”, concluiu.

Do ponto de vista tecnológico, o grande desafio é tangibilizar todas essas regras de governança, conforme apontou Michel Fernandes, superintendente de Data & AI do Banco Bradesco, que também palestrou no painel. “A qualidade e a linhagem dos dados ganharam relevância. Se eventuais distorções passarem despercebidas, a inteligência artificial inevitavelmente tomará decisões equivocadas, podendo trazer prejuízos financeiros e reputacionais para a organização”, disse. Para evitar algumas dessas situações, Giuliane ressaltou que é preciso garantir que o agente compreenda o contexto dos dados utilizados. “Os desafios são tão grandes que não há dúvida da necessidade de um manual de governança focado nessas frentes”, disse.

Já Ricardo Puig, sócio em financial services da EY Brasil que fez a mediação do painel, acrescentou que, dependendo da natureza dos dados, a dificuldade no tratamento para uso pela IA se torna maior. “Os dados não estruturados, por exemplo, como uma foto ou um vídeo, trazem uma série de desafios para utilização pela IA nas empresas. Mesmo os estruturados, no caso de estarem errados, provocam uma ação do agente inevitavelmente errada ou não desejada pela organização”, observou.

Diogo Picco, gerente-executivo de IA e Analytics do Banco do Brasil, defendeu que o cenário exige políticas claras e direcionamento sobre as melhores decisões a serem tomadas pelas empresas, independentemente da resposta trazida pelos algoritmos. À medida, no entanto, que o poder de decisão é transferido para a máquina, surgem dilemas operacionais e éticos. Giuliane citou como exemplo o chamado "comércio agêntico", que ocorre por intermédio de agentes que representam o cliente. 

“De quem é a responsabilidade se um agente fizer uma compra em um site falso usando o nome do cliente? Ou seja, se o agente cair em um golpe financeiro? Ou como lidar com um sistema de vendas prejudicado por um agente que faz 40 reservas de hotel rapidamente de uma vez só e depois cancela a maioria? Nesse último caso, como resultado dessa ação, é criada enorme dificuldade para os outros consumidores interessados naquele momento em comprar, já que passam a visualizar menos ofertas”, analisou.

No caso das instituições financeiras, ela mencionou a recomendação de investimentos feita por agentes. “Se houver falha, de quem é a responsabilidade por essa recomendação: do banco, do cliente que optou por usar a ferramenta, do desenvolvedor do agente ou do modelo de linguagem (LLM) por trás da solução agêntica? Diante disso, a rastreabilidade e a auditabilidade de toda e qualquer decisão são inegociáveis”, finalizou. Para Michel, a responsabilidade, ainda que não se saiba de quem na cadeia, vai recair sempre sobre o humano, e não sobre a máquina, conforme a regulação vem definindo. “É o CPF quem vai responder”, observou.

Habilidades nesse novo contexto

Com novidades tecnológicas surgindo a todo instante, há, na avaliação dos palestrantes, uma sensação constante de atraso em relação à tecnologia e à própria governança, fenômeno conhecido como FOMO (sigla em inglês para “Fear Of Missing Out”). Para lidar com isso, Giuliane alertou que será necessária inteligência emocional por parte da liderança e que a construção da confiança no ambiente tecnológico é fator central.

Para Michel, o papel das pessoas estará voltado para orquestrar o uso dessas tecnologias, cabendo ao humano entender como operar os agentes de IA da melhor forma possível no dia a dia e ter agilidade para resolver qualquer situação inserida nessa dinâmica. “Especificamente para o setor bancário, enxergo na IA uma oportunidade de explorar o atendimento ao cliente, identificando suas necessidades, em substituição às análises por amostragem das centrais de atendimento”, observou.

A inteligência artificial tem sido cada vez mais utilizada pelas empresas para inovar e tornar mais produtivo o dia a dia dos seus negócios. Há, no entanto, diversas dúvidas sobre como desenvolver e operacionalizar esses sistemas evitando os riscos que podem comprometer os resultados financeiros e a reputação das organizações. Nesse contexto, a EY lançou a série “IA aplicada aos negócios: Como utilizar essa tecnologia com segurança e governança para gerar inovação”, que, além desta reportagem, já publicou as seguintes:

IA generativa para fins tributários atende às obrigações fiscais e gera inteligência

Empresas adotam IA generativa na gestão do contencioso tributário

Monitoramento por IA das emissões de metano já é realidade na indústria de gás e petróleo

Indústria de mineração encontra alternativas à abertura de minas por meio da IA

IA possibilita uso inteligente da rede de energia para aproveitar potencial das fontes renováveis

Educação é a base da governança em inteligência artificial

Engajamento dos C-Levels e diretores é característica em comum das empresas bem-sucedidas em IA

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Erro ou criatividade da IA generativa, mesmo em nível baixo, traz riscos para as empresas

IA exige olhar para as transformações que serão viabilizadas pela tecnologia

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IA generativa: 73% das empresas já estão investindo ou planejam investir dentro de um ano

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86% dos CIOs pretendem adquirir ou fechar parceria com plataforma de IA generativa

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Uso da IA na infraestrutura viabiliza projetos com monitoramento em tempo real

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Geopolítica, tecnologia e ambiente regulatório desafiam departamentos jurídicos

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Uso da IA pelo agronegócio pode tornar Brasil ainda mais competitivo no cenário global

Sistemas de IA generativa precisam ser continuamente confrontados ou testados

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Uso da IA contra ameaças cibernéticas cresce entre empresas de tecnologia

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63% da Geração Z considera que IA traz impacto positivo para a vida

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Entusiasmo sobre o futuro da IA entre os brasileiros está acima da média global

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