A inteligência artificial, se aplicada sem governança para a produção dos relatórios de sustentabilidade, pode elevar o risco de greenwashing nas organizações. Ainda que o uso dessa tecnologia traga benefícios, como aumento da produtividade, é indispensável a validação das métricas usadas para evitar alegações falsas ou imprecisas de sustentabilidade. “A qualidade dos dados ocupa papel central para que a IA dê respostas assertivas, motivo pelo qual insistimos na necessidade de as empresas terem dados confiáveis e prontos para tomada de decisão”, disse Ricardo Assumpção, líder de sustentabilidade e CSO (Chief Sustainability Officer) da EY para a América Latina, que fez a mediação de painel promovido pela EY no Febraban Tech 2026.
O problema é que as organizações ainda não conhecem seu grau de exposição ao greenwashing, conforme alertou o estudo “O risco de greenwashing está aumentando: você está preparado?”, realizado pela EY. “Se elas não têm visibilidade sobre isso, os agentes de IA que usam também não terão”, disse Ricardo. Alegações ou afirmações de sustentabilidade falsas ou imprecisas, que estão na base do greenwashing, trazem prejuízos para as empresas. Entre os riscos do greenwashing estão os legais, comerciais e de reputação em um momento de fortalecimento da regulação.
O levantamento também mostrou que, nos últimos anos, mais de duas mil empresas enfrentaram desafios de greenwashing em todo o mundo, com diversos impactos negativos para o negócio, como processos judiciais, multas e acordos; custos mais elevados de conformidade; perda de clientes; retirada de investidores com prejuízo no mercado de capitais; e danos à reputação.
Supervisão humana
Fábio Luiz Guido, superintendente de Sustentabilidade e Estratégia do Itaú, que palestrou no painel da EY, destacou que o risco de greenwashing é proporcional à qualidade dos dados que alimentam os algoritmos de IA. “Quanto pior for a base de dados, maior o risco de alucinação da IA. É preciso saber o que alimentou a resposta que a IA trouxe e testar constantemente as ferramentas", alertou. Além disso, na sua avaliação, o ser humano é indispensável para analisar as contribuições da IA a esses relatórios. "Quando depende de análise sobre o que os dados representam no processo, no momento da companhia ou do setor, é indispensável o ser humano", pontuou.
Fabiana Costa, superintendente de Sustentabilidade do Banco Bradesco, afirmou que a IA faz parte do processo como uma aceleradora de entregas, ajudando a equipe a ganhar agilidade operacional com leituras mais rápidas de relatórios e bancos de dados. Como exemplo, ela citou o uso dessa tecnologia para fazer uma análise recente das estratégias de sustentabilidade de três empresas do setor. Fábio acrescentou dizendo que, se antes era necessário procurar manualmente as informações em documentos extensos como o demonstrativo de resultados, hoje a IA traz rapidamente aquilo que se busca, fazendo ainda os cruzamentos necessários ao longo do tempo e, se for o caso, com outras fontes de informação. “O uso de agentes de IA tem permitido mergulhar nos dados e trazer insights que jamais seriam alcançados de outra forma”, concluiu.
Para identificar o greenwashing, Fabiana destacou a necessidade de conhecer os conceitos de sustentabilidade, o que traz embasamento para analisar o trabalho dos agentes de IA. "Para as empresas, como norte dos relatórios, é preciso sempre um indicador que sustente a afirmação de sustentabilidade. Além disso, como isso conversa com a minha estratégia e agenda de negócios? Não pode ter apenas texto, é preciso apresentar dados", observou. Segundo ela, planos de descarbonização e de transição para uma economia verde devem ser científicos, baseados em dados e métricas, embora ainda haja limitação de dados disponíveis no mercado.
Para garantir a confiabilidade dos relatórios de sustentabilidade, independentemente do uso da IA, os palestrantes e o mediador concordaram que há necessidade de questionar as informações apresentadas pelas empresas, avaliando quem as aprova, quais são os controles e exigindo a comprovação numérica. “Outro ponto importante é que os dados que sustentam as afirmações de sustentabilidade devem ser auditados. Ao fazer isso, o mercado contribui para evitar o cenário indesejado de greenwashing”, disse Ricardo.
A inteligência artificial tem sido cada vez mais utilizada pelas empresas para inovar e tornar mais produtivo o dia a dia dos seus negócios. Há, no entanto, diversas dúvidas sobre como desenvolver e operacionalizar esses sistemas evitando os riscos que podem comprometer os resultados financeiros e a reputação das organizações. Nesse contexto, a EY lançou a série “IA aplicada aos negócios: Como utilizar essa tecnologia com segurança e governança para gerar inovação”, que, além desta reportagem, já publicou as seguintes:
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